domingo, janeiro 28, 2007

O PAC vinha cantando alegremente...

Marcos Sá Corrêa, NoMínimo
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A mudança climática chegou de uma vez por todas no fim de semana passado. Ela veio cedo, domingo de manhã, num telefonema de Lecco. Do outro lado da linha, a conversa começou com a notícia de que, no jardim, as roseiras do caramanchão estavam prontas para abrir. O quê? Rosas em janeiro no norte de Itália? “É, o inverno anda mesmo estranho. Mas o dia está tão bonito que dá vontade de almoçar lá fora.”
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Depois veio o artigo do jornalista Thomas Friedman no jornal “Herald Tribune”. Tratava de questões energéticas. Mas começava por um ponto de exclamação: “Bem, lá se foram nossos narcisos!”. As flores tinham escancarado suas pétalas uma semana antes, na porta de sua casa. Sete dias depois restava “uma bela mancha amarela no chão da garagem”.
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Friedman costuma escrever na página de opinião do “New York Times” sobre política externa, economia mundial e outros temas pesados. Isso quer dizer que, cada vez mais, ele fala de problemas ambientais. Mas não no tom daquele domingo: “Francamente, narcisos em janeiro enfeitam o gramado. Talvez no ano que vez tentaremos rosas em fevereiro”.
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Em outras palavras, também em Friedman o aquecimento global “começa a dar arrepios”. Os narcisos estavam ali para avisar que, quando o presidente George Bush anuncia seu programa energético e não tem nada a declarar sobre “padrões mais rigorosos de eficiência e preços mais altos para os combustíveis fósseis, os americanos podem “tirar as meias”, porque “vai ficar muito quente por aqui”.
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Friedman parecia estar antecipando a semana do Programa de Aceleração da Economia no Brasil. O pacote que o presidente Lula lançou na segunda-feira não está nem aí para esse tal de aquecimento global. É sua maior originalidade. Ignorá-lo no momento em que todo mundo não fala de outra coisa.Em Davos, o repórter James Kanter deixou por menos. “Enquanto políticos e cientistas procuram entender quão depressa o planeta está aquecendo”, ele encontrava no Fórum Econômico Mundial os sinais de que, daqui para a frente, “é melhor aprender a fazer dinheiro com a mudança climática ou vão comê-lo no almoço”.
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Entre outros argumentos embutidos no aviso, Kanter citava os de Paul Dickinson, do Projeto de Transparência do Carbono, um grupo londrino que avalia a aptidão de empresas internacionais para descascar o abacaxi da mudança climática para investidores que, somados, valem 31 trilhões de dólares. Ou seja, eles mexem com uns 30 PIBs iguais ao do Brasil. É dinheiro suficiente para quase 120 PACs como os de Lula. E ele agora leva em conta, na escolha de seus próximos passos, o fato de que “a preocupação do público com o problema da mudança climática está dramaticamente maior do que nos últimos anos”, segundo o professor da Universidade de Stanford David Victor, um dos conferencistas do Fórum ouvidos por Kanter.
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Um dos resultados de tamanha atenção é que o modo de capturar e armazenar o carbono tornou-se uma “tecnologia chave do século 21”. Atirado na atmosfera em volumes nunca vistos pelo planeta, o carbono é um dos principais suspeitos pelo descontrole do clima. E, como a economia mundial não se livrará tão cedo dos combustíveis fósseis cuja fumaça o transforma em poluição do ar, os grandes negócios estão atrás de quem lhes ofereça uma alternativa.
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“Haverá novas oportunidades de negócio num mundo mais quente com o carbono restringido”, Victor prevê. “Empresas que podem facilmente reduzir suas emissões, como fabricantes de alimentos, provavelmente terão a chance de vender com lucro as cotas de carbono que pouparem.”
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Não há só prejuízos à vista. Victor lembra que as companhias de seguro cobrarão mais pesado em áreas sujeitas a enchentes e tempestades. E que os empreiteiros ganharão fortunas construindo diques nos lugares sujeitos a inundações. Nos países ricos, os governos gastarão até 150 bilhões de dólares por ano com investimentos em infra-estruturas adaptadas aos novos tempos.
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E nós aqui, tocando a vida com o PAC. No Brasil, como se sabe, essas coisas não acontecem. Deus é brasileiro. E só existe um Lula. Sem contar que o aquecimento global pareceu ridículo há 19 anos, quando James Hansen, diretor do Instituto Goddard para Estudos Espaciais, da NASA, declarou-se convencido de que o clima do planeta estava mudando a olhos vistos, num depoimento ao Congresso americano.
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Isso foi em 1988. Por acaso, no mesmo ano em que a Constituição “cidadã” do deputado Ulysses Guimarães anunciou, no artigo 255, que “a Floresta Amazônica brasileira, a Mata Atlântica, a Serra do Mar, o Pantanal Matogrossense e a Zona Costeira são patrimônio nacional”, que só poderia ser explorado “dentro das condições que assegurem a preservação do meio ambiente, inclusive quanto a seu uso dos recursos naturais”.
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Agora, a prioridade do governo para a Amazônia é incorporá-la à frente de obras para acelerar o crescimento. Sua preservação foi uma daquelas idéias insensatas dos constituintes que, na prática, não emplacaram. Como os juros de 12%. Mas, vistos em retrospectiva, os políticos brasileiros daquele tempo pelo menos eram visionários. Às vezes, davam até a impressão de estar à frente de sua época. Em menos de duas décadas eles deram um passo de gigante em direção ao atraso.