terça-feira, março 20, 2007

Posições invertidas

por Denis Rosenfield, filósofo, Blog Diego Casagrande
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O mundo político e, no caso, o da diplomacia é uma caixa de surpresas. Quem iria imaginar que o Presidente Bush, do Partido Republicano, faria uma defesa do não-livre-comércio, e o Presidente Lula, do Partido dos Trabalhadores, se tornaria um arauto do livre-comércio. A propósito da comercialização do etanol, foi isto que efetivamente aconteceu quando da reunião entre ambos, o primeiro procurando proteger, com tarifas protecionistas e subsídios, agricultores americanos pouco produtivos, enquanto o segundo advogou por uma liberalização do mercado da maior economia do planeta, apoiando empresários brasileiros, cujas empresas ostentam invejáveis índices de produtividade. Lula se torna “neoliberal” e Bush “petista tradicional”. Dá para dormir com um barulho desses?
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Contrariando as posições de seu partido, que chegou a participar oficialmente de manifestações contra o presidente americano, ostentando bandeiras “anti-Bush” e publicando textos acerbos contra o “imperialismo americano” em seu site, Lula recebeu o seu “companheiro” republicano com a cordialidade que tem caracterizado o relacionamento entre os dois. Já se escreveu, inclusive, que Bush prefere a sua relação pessoal com um sindicalista que se fez sozinho na vida, um “self made man” do que com um sofisticado intelectual, fluente em inglês, ex- presidente do Brasil. Tudo diria que por afinidade política e condição social, Bush teria melhores relações com Fernando Henrique Cardoso do que Lula. Não é isto, porém, que aconteceu. Bush se torna mais assistencialista, aproximando-se do bolsa-família de Lula, enquanto este se torna, estreitando ainda mais as relações entre os dois, partidário da livre empresa e do comércio enquanto meio de redução das desigualdades sociais. Pode-se prever no futuro um grande colóquio internacional entre o PT e o Partido Republicano, com vistas a uma aproximação programática!
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A administração Bush procura ver com novos olhos o que se passa no continente, porque o seu fracasso no Iraque tem sido acompanhado pela recrudescência das velhas posições de esquerda na América Latina.
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Paradoxalmente, pode-se dizer que graças a Chávez os EUA voltaram a se preocupar com o que acontece entre nós. O curioso é que devamos ao ditador venezuelano esse súbito interesse pelos destinos – relegados – da América Latina. Provavelmente, devemos creditar a Lula esse grande feito, pois ao se aproximar de Chávez fez com que Bush voltasse a vê-lo com novos olhos. A saudade bateu à porta. Os petro-dólares estão respaldando a diplomacia chavista na região, onde meios não são medidos para a consecução de seus objetivos. Logo, os EUA se viram obrigados a reagir. Mas essa reação está se fazendo de uma maneira “populista”, como se um ultrapassado modelo latino-americano devesse servir como “modelo”, pois: 1) os recursos oferecidos são claramente inferiores aos disponibilizados pelo ditador venezuelano; 2) suas medidas são de cunho nitidamente assistencialistas, barco-hospital, por exemplo, ou bolsas de estudo para jovens aprenderem inglês, incapazes, portanto, de alterar minimamente as condições sociais ou a correlação de forças políticas; 3) em vez de abrir o mercado americano para o etanol, o presidente Bush se mostra praticamente contra o livre-comércio que diz retoricamente defender. A abertura do mercado americano agrícola seria uma efetiva medida para o desenvolvimento econômico e social da América Latina, algo que poderia contra-restar a influência de Chávez. E isto não está sendo feito. Desta maneira, Bush terminará por fortalecer as posições esquerdistas no continente. O PT aplaude o presidente americano, numa jogada provavelmente ensaiada.
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Paradoxalmente também, é Lula que está defendendo o livre comércio, tanto para o etanol, quanto para os produtos agrícolas em geral. O presidente brasileiro, neste sentido, se distingue de seus congêneres latino-americanos, porque se coloca contra a corrente dominante de seus “companheiros” socialistas e populistas presidentes e contra posições de seu próprio partido. Sob esta ótica, a diplomacia brasileira está ardilosamente sendo favorecida por um conjunto de circunstâncias, começando por um presidente dos EUA que defende o não-livre-comércio, até a amabilidade exibida entre si pelos presidentes brasileiro e americano, passando pelo benefício suplementar de Lula poder se diferenciar de Chávez. O problema, no entanto, reside em que a diplomacia brasileira tem caracterizado sua atuação no governo Lula por desperdiçar oportunidades deste tipo, optando por uma ideologização de suas posições. Talvez um sopro de pragmatismo comece a soprar. Ou de cinismo.