Carlos Chagas, Tribuna da Imprensa
A gente não sabe se por ingenuidade ou malícia, se por ignorância ou malandragem, o PT continua demonstrando ser a imprensa o seu maior adversário. Ainda agora, na reunião do Diretório Nacional do partido, não apenas o presidente Ricardo Berzoini, mas o ex-presidente José Genoíno e outros sustentaram que os meios de comunicação precisam ser controlados. Por pudor, ou por etapas, reduziram o controle aos períodos eleitorais, a ser exercido pela Justiça Eleitoral. O que pretendem, na verdade, é cercear a imprensa. E por muito tempo, já que supõem permanecer no poder por 20 ou 30 anos.
Sobressai da manifestação petista o viés autoritário registrado desde sua fundação. Expulsaram a deputada Bete Mendes por votar em Tancredo Neves. Fizeram o mesmo com a senadora Heloísa Helena, ironicamente porque ficou com o programa partidário e não admitiu a redução de direitos dos aposentados.
Como não podem expulsar a mídia, que é apartidária, partem para a tentativa de controlá-la. Só deve ser divulgado o que é a favor. Trata-se das célebres "notícias boas" de que fala o presidente Lula, em contraposição às "notícias más". O diabo é saber como vão agir para a concretização de seus intentos. Restabelecer a censura dos tempos da ditadura? Intimidar jornalistas com processos absurdos, por supostos crimes de opinião? Estrangular empresas não apenas com a suspensão da publicidade oficial, mas com pressões sobre as empresas privadas para não anunciarem em determinados veículos?
Tudo isso já aconteceu e, felizmente, saiu pelo ralo. Não nos intimida. Se a imprensa erra, pau nela, através da aplicação da lei, que existe. Mas se a imprensa expõe as entranhas da corrupção, o remédio será exaltar as virtudes da democracia. Engolir sapos. Rebater aquilo que julga injustiça. Enfim, seguir a lição de saudoso chefe político, também presidente de um partido, o senador Amaral Peixoto, do extinto PSD, para quem "notícia não se contradita nem se desmente. Dá-se outra..." Estará o PT sem notícias?
Privilégios
Deveriam rever suas notas de protesto as Associações de Juízes Federais de São Paulo e Mato Grosso do Sul, quando exortam o ministro da Justiça e o Conselho Nacional de Justiça a determinar que a Polícia Federal não use armas e nem avise à imprensa, quando prender um integrante do Poder Judiciário. Primeiro por tratar-se de regalia inadmissível, já que qualquer outro suspeito de cometer crime recebe a visita de policiais armados, quase sempre é algemado e flagrado pela televisão. Mais grave é a admissibilidade pelas representações de classe de que juízes cometem crimes, ou são suspeitos de cometê-los. É claro que todas as categorias possuem em seu meio gente desclassificada.
O que não dá é estabelecer regras gerais para as exceções. Acresce não ter garantia de que um juiz, ao receber ordem de prisão, passada por outro juiz, não perca a cabeça e decida resistir. Desarmados, aos policiais só restaria pedir desculpas e retirar-se. Da mesma forma, é preciso entender o papel da imprensa, que é de registrar fatos inusitados. Enfim, o corporativismo parece ter ultrapassado os limites do bom senso. Se os juízes reivindicam privilégios para seus maus companheiros, por que não estendê-los aos padeiros?
Difícil aceitar
Outro que perdeu excelente oportunidade de ficar calado foi o senador Marcelo Crivella, que justificou como desinformação os artigos anteriores do novo ministro Mangabeira Unger, denominando o governo Lula de "o mais corrupto na história do País". Disse que Mangabeira não conhecia o governo, ao redigir as diatribes. E aproveitou para criticar a imprensa, que teria inspirado os artigos ao denunciar o mensalão. Sem querer, Crivella desqualificou o novo ministro como alguém incapaz de perceber as excelências do governo. Como agora é convidado para equacionar o futuro se desconhecia o passado?
No reverso da medalha, se há que louvar Lula pela grandeza de não levar desaforos para casa e de oferecer a mão aos adversários, também é preciso indagar os motivos da convocação de Mangabeira. Terá sido para agradar o partido de Crivella e do vice-presidente José Alencar? Ou para devolver com mão de luva as farpas antes recebidas do futuro ministro? Pois para prever e prover o futuro, num país onde não sabemos o que acontecerá na próxima semana, fica difícil aceitar.
A gente não sabe se por ingenuidade ou malícia, se por ignorância ou malandragem, o PT continua demonstrando ser a imprensa o seu maior adversário. Ainda agora, na reunião do Diretório Nacional do partido, não apenas o presidente Ricardo Berzoini, mas o ex-presidente José Genoíno e outros sustentaram que os meios de comunicação precisam ser controlados. Por pudor, ou por etapas, reduziram o controle aos períodos eleitorais, a ser exercido pela Justiça Eleitoral. O que pretendem, na verdade, é cercear a imprensa. E por muito tempo, já que supõem permanecer no poder por 20 ou 30 anos.
Sobressai da manifestação petista o viés autoritário registrado desde sua fundação. Expulsaram a deputada Bete Mendes por votar em Tancredo Neves. Fizeram o mesmo com a senadora Heloísa Helena, ironicamente porque ficou com o programa partidário e não admitiu a redução de direitos dos aposentados.
Como não podem expulsar a mídia, que é apartidária, partem para a tentativa de controlá-la. Só deve ser divulgado o que é a favor. Trata-se das célebres "notícias boas" de que fala o presidente Lula, em contraposição às "notícias más". O diabo é saber como vão agir para a concretização de seus intentos. Restabelecer a censura dos tempos da ditadura? Intimidar jornalistas com processos absurdos, por supostos crimes de opinião? Estrangular empresas não apenas com a suspensão da publicidade oficial, mas com pressões sobre as empresas privadas para não anunciarem em determinados veículos?
Tudo isso já aconteceu e, felizmente, saiu pelo ralo. Não nos intimida. Se a imprensa erra, pau nela, através da aplicação da lei, que existe. Mas se a imprensa expõe as entranhas da corrupção, o remédio será exaltar as virtudes da democracia. Engolir sapos. Rebater aquilo que julga injustiça. Enfim, seguir a lição de saudoso chefe político, também presidente de um partido, o senador Amaral Peixoto, do extinto PSD, para quem "notícia não se contradita nem se desmente. Dá-se outra..." Estará o PT sem notícias?
Privilégios
Deveriam rever suas notas de protesto as Associações de Juízes Federais de São Paulo e Mato Grosso do Sul, quando exortam o ministro da Justiça e o Conselho Nacional de Justiça a determinar que a Polícia Federal não use armas e nem avise à imprensa, quando prender um integrante do Poder Judiciário. Primeiro por tratar-se de regalia inadmissível, já que qualquer outro suspeito de cometer crime recebe a visita de policiais armados, quase sempre é algemado e flagrado pela televisão. Mais grave é a admissibilidade pelas representações de classe de que juízes cometem crimes, ou são suspeitos de cometê-los. É claro que todas as categorias possuem em seu meio gente desclassificada.
O que não dá é estabelecer regras gerais para as exceções. Acresce não ter garantia de que um juiz, ao receber ordem de prisão, passada por outro juiz, não perca a cabeça e decida resistir. Desarmados, aos policiais só restaria pedir desculpas e retirar-se. Da mesma forma, é preciso entender o papel da imprensa, que é de registrar fatos inusitados. Enfim, o corporativismo parece ter ultrapassado os limites do bom senso. Se os juízes reivindicam privilégios para seus maus companheiros, por que não estendê-los aos padeiros?
Difícil aceitar
Outro que perdeu excelente oportunidade de ficar calado foi o senador Marcelo Crivella, que justificou como desinformação os artigos anteriores do novo ministro Mangabeira Unger, denominando o governo Lula de "o mais corrupto na história do País". Disse que Mangabeira não conhecia o governo, ao redigir as diatribes. E aproveitou para criticar a imprensa, que teria inspirado os artigos ao denunciar o mensalão. Sem querer, Crivella desqualificou o novo ministro como alguém incapaz de perceber as excelências do governo. Como agora é convidado para equacionar o futuro se desconhecia o passado?
No reverso da medalha, se há que louvar Lula pela grandeza de não levar desaforos para casa e de oferecer a mão aos adversários, também é preciso indagar os motivos da convocação de Mangabeira. Terá sido para agradar o partido de Crivella e do vice-presidente José Alencar? Ou para devolver com mão de luva as farpas antes recebidas do futuro ministro? Pois para prever e prover o futuro, num país onde não sabemos o que acontecerá na próxima semana, fica difícil aceitar.