terça-feira, julho 31, 2007

Jobim deu o mote para si mesmo: Faça ou vá embora

Josias de Souza
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A nomeação de Nelson Jobim foi a primeira boa notícia produzida pelo governo desde que estourou a encrenca aérea, há dez meses. Primeiro porque marcou o despertar de Lula para uma crise que o governo negava existir. Segundo porque Waldir Pires foi demitido. Terceiro porque o petista Paulo ‘Motim dos Sargentos’ Bernardo não foi nomeado. Quarto porque Jobim é, desde a criação do ministério da Defesa, o primeiro civil a reunir credenciais para apresentar-se aos comandantes das três Forças Armadas com a uma cara de chefe.

Sob Lula, a pasta da defesa vinha oscilando entre o impensável e o inaceitável. O diplomata José Viegas demitiu-se do cargo depois de dois vexames: a tentativa de reescrever a história justificando as atrocidades cometidas contra o jornalista Vladimir Herzog e o lero-lero acerca dos documentos sigilosos da guerrilha do Araguaia. Nessa matéria, inovou: disse que, além de o papelório em si, foram à fogueira até os registros da incineração foram à fogueira.

A “solução” José Alencar soou esdrúxula desde o nascedouro. Nunca na história desse país um presidente da República ousara nomear um ministro que, por parceiro de chapa, era indemissível. No princípio, os militares enxergaram no vice-presidente a chance de abrir os cofres do Tesouro para os seus pleitos. Mas, assim como fazia com os queixumes do vice Alencar em relação aos juros, a equipe econômica continuou “escutando” a pregação do ministro Alencar com ouvidos moucos.

Com a saída de Alencar, Lula inaugurou uma brincadeira desnecessária. Achou que poderia entregar o comando das Forças Armadas a políticos cassados e militantes esquerdistas. Ensaiou a nomeação de Aldo Rebelo (PC do B-SP). Seria um prêmio de consolação à derrota na briga pela presidência da Câmara. Rebelo teve o bom-senso de dizer ‘não’.

Foi-se, então, de Waldir Pires. Em situação de normalidade, o ministro até poderia ter sido mantido na pasta, como um fantoche, até 2010. Mas sobreveio o caos aéreo. E a inapetência gerencial de Waldir, já entrado em anos, tornou-se evidente. No instante da demissão, o ministro encontrava-se em avançado estado de decomposição política. Não foi propriamente demitido. Apodreceu agarrado ao cargo.

Jobim assumiu falando grosso: “Quem manda é o ministro”. Uma boa declaração inaugural para alguém que se dispôs a chefiar um setor em que, fingindo falar a mesma língua, ninguém se entende. Acenou com a troca de comando na Infraero e com a reestruturação da Anac. Mira, com acerto, em dois descalabros que têm nome e sobrenome. Chamam-se Lula da Silva, o personagem que os criou, com a omissão cúmplice até dos partidos de oposição.

A força do “maestro” Jobim será medida, sobretudo, pelo ritmo que ele for capaz de imprimir à orquestra da Aeronáutica. Está claro, límpido como água de bica, que o aerocaos não nasceu em setembro de 2006, quando o jatinho Legacy pôs abaixo o Boeing da Gol. O acidente apenas transformou em notícia um descontrole que, dadas as proporções que assumiu, vinha sendo construído há décadas. Ainda que o brigadeiro Juniti Saito faça cara feia, é preciso lançar um facho de luz nos porões do sistema aéreo brasileiro. Uma providência que pode avariar a tese da infalibilidade da FAB, tratada como um dogma.

Por ora, Jobim sobrevoa o noticiário com ares de reconstrutor. A julgar pela atmosfera de caos que o circunda, matéria-prima para o renascimento não lhe faltará. Resta pôr mãos à obra. É como diz o próprio ministro: "Aja ou saia. Faça ou vá embora". Para além da devolução do sossego dos usuários de avião, o que está em jogo é a sobrevivência de uma boa idéia: o ministério da Defesa, sob controle civil.