domingo, setembro 09, 2007

Brasil é parada fácil para exportação colombiana

Líder de um mercado que movimenta 3% do PIB mundial, a Colômbia produz hoje 80% da cocaína consumida no mundo. De melhor qualidade que a boliviana, a droga colombiana é para exportação. Um trânsito que tem o Brasil como escala obrigatória se o destino for Europa.

As rotas de tráfico entre Venezuela e Brasil triplicaram nos últimos anos, a agência americana de combate às drogas chamou atenção em março. O crescimento explica o aumento das apreensões de cocaína pela Polícia Federal brasileira, divulgadas recentemente.

- Hoje, muito do que é produzido na Colômbia é escoado pelos portos de Santos e Rio de Janeiro - conta o delegado Victor Carvalho dos Santos, chefe da delegacia de repressão de entorpecentes no Rio de Janeiro. - Já desenvolvemos uma investigação documental em Santos que pretendemos estender ao Rio.

A ONU afirma que a tendência para utilizar a região latina no tráfico de cocaína começou há cinco anos, e que as novas estruturas dos traficantes complicam a prevenção.

- Hoje, luta-se contra senhores de guerra que têm vínculos muito mais fortes com as máfias internacionais - conta o colombiano Francisco Thoumi. - Desde as capturas de Pablo Escobar e Rodríguez Orejuela, a estrutura interna do tráfico mudou. Os grandes cartéis se desmembraram e os pequenos grupos passaram a contar com homens armados para garantir o cumprimento dos contratos. Contrataram, então, os paramilitares e guerrilheiros, que rapidamente ganharam o controle das armas e drogas.

Para a simbiose ser desfeita, é preciso de políticas sociais, atenta:

- Não adianta desarmar as milícias se seus homens não têm educação e outra formação além das armas para serem absorvidos pelo mercado de trabalho.

O paradoxo é que, atualmente, o governo financia as guerrilhas e os paras, ilustra Thoumi:

- Estes grupos controlam zonas longínquas do país, sem produção econômica e às quais o Estado não consegue chegar. As autoridades locais, que recebem parte do orçamento estadual, o repassam aos grupos criminosos que garantem a segurança local. O Estado sabe disso, mas nunca pôde controlar as áreas distantes. Vivemos uma situação pré-moderna, feudal, onde o senhor local é a lei.

Para o colombiano, o problema do país não é a coca, mas o crime:

- Somos o primeiro produtor de assassinos de aluguel. O segundo produtor de dólares falsos. O segundo exportador de prostitutas latinas. Nosso problema é o desrespeito à lei. A cocaína está longe de ser nosso principal problema.

Por sua vez, o delegado brasileiro ressalta que o Brasil é um destino visado porque "a lavagem de dinheiro aqui é fácil. A pessoa entra, abre uma empresa e pronto".

Estima-se que, com a implementação da Lei do Abate - que permite que a Força Aérea Brasileira derrube aviões que entrem no espaço aéreo do Brasil sem autorização - grande parte do envio de droga tenha passado a ser feito por terra, facilitando as apreensões.

- A Lei do Abate criou duas alternativas: ou se desce da Colômbia até o Paraguai e se entra no Brasil por Ponta Porã e Foz do Iguaçu, ou se usa a rede fluvial amazônica e daí se chega à rodoviária. Temos algumas bases móveis no Rio Solimões - explica Victor.

Quaglia sublinha que o refinamento artesanal no Brasil é fácil porque "se vende legalmente os produtos químicos que são usados na produção da droga":

- O cloridato, por exemplo, que é vendido para as indústrias químicas, também é empregado no refinamento da pasta de crack. O Brasil é o 10° produtor mundial destes produtos químicos.

O delegado ressalta que a ONU se preocupa com o Brasil porque olha para o tráfico internacional, mas que no país "estamos preocupados com a Europa, de onde vêm as drogas tóxicas que chegam aqui".