Ricardo Neves, Revista Época
Uma pesquisa feita pela Associação de Magistrados do Brasil revelou que apenas 11% das pessoas no Brasil acreditam nos políticos. Muita gente acha que isso vai ser resolvido por meio de complexas reformas eleitorais e partidárias. E assim nascem propostas como fidelidade partidária, voto distrital, simples e misto, além de financiamento público de campanha ou fim da reeleição etc. Tudo isso pode ser muito bem-intencionado. Mas é complicação desnecessária, que não resolve a crise de credibilidade em nossos políticos e deixa o eleitorado mais confuso, descrente, apático e indignado.
Uma pesquisa feita pela Associação de Magistrados do Brasil revelou que apenas 11% das pessoas no Brasil acreditam nos políticos. Muita gente acha que isso vai ser resolvido por meio de complexas reformas eleitorais e partidárias. E assim nascem propostas como fidelidade partidária, voto distrital, simples e misto, além de financiamento público de campanha ou fim da reeleição etc. Tudo isso pode ser muito bem-intencionado. Mas é complicação desnecessária, que não resolve a crise de credibilidade em nossos políticos e deixa o eleitorado mais confuso, descrente, apático e indignado.
Por outro lado, clamar por mais ética na política é conversa de sacristão. Nós, seres humanos, somos essencialmente jogadores. Nossas atividades sociais são, no fundo, jogos que devem seguir leis e regras. De preferência simples e poucas, com punição assegurada no caso de transgressão. Olhe para o futebol: mesmo craques, como Maradona, vão fazer gol de mão. Até o Pelé dará cotoveladas se não estiver sendo monitorado e punido.
O principal problema da boa governança da política no Brasil é que o governo se tornou grande demais e, por conseqüência, há verba pública demais ao alcance dos políticos. Isso está em contradição com os tempos atuais. Vivemos um mundo de competição globalizada, em que qualquer atividade pode ser feita de forma mais barata, mais rápida e com maior qualidade pela iniciativa privada. Não há mais razão para governos serem provedores de energia, serviços financeiros, telecomunicações, operações postais, nem mídia e comunicação. Governos não têm de fabricar produtos ou operar e construir infra-estrutura, nem meios de transporte, sejam aeroviários, rodoviários ou ferroviários. Nesse contexto, empresas públicas e estatais, de forma geral, perderam qualquer razão de existir.
Os governos devem dedicar-se a uma agenda básica cujas prioridades são: manter a estabilidade da moeda nacional, garantir a manutenção da ordem e da segurança pública, zelar pelo cumprimento da lei, cuidar da educação básica, da saúde e da assistência social. É para isso que deve existir um setor público eficiente.
Governos só devem cuidar de segurança, educação, estabilidade da moeda e assistência social.
Onde o Estado se intrometer fora dessa agenda básica, qualquer boa intenção vai acabar se pervertendo. A política desanda em negociação espúria de cargos para apadrinhados de políticos em empresas estatais – o que é bem exemplificado pelas brigas partidárias para dirigir Petrobras, Banco do Brasil, Caixa Econômica, Correios, Furnas, Infraero e até fundos de pensão das estatais. Dá espaço para o surgimento de esquemas de financiamento de campanhas na base do caixa dois.
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Mesmo um governo constituído unicamente por pessoas virtuosas, ao tentar fazer mais que a agenda básica, acabará perdido em demasiadas frentes, sem foco no essencial. Vai se tornar presa de um ciclo vicioso de ineficiência e corrupção, com contas cada vez mais altas para nós, contribuintes. No lugar de pateticamente ficar clamando por ética na política, precisamos admitir que é tempo de reestatizar atividades que são próprias e prioritárias do setor público e têm sido feitas de forma porca e mal-acabada. Em especial tomar conta da segurança pública, da educação básica e fundamental e da saúde. Esse deve ser o território do jogo da política. É tempo de maturidade e pragmatismo cívico. Sem essa de clamor por reformas mirabolantes, de caras-pintadas e de cobrança por mais ética na política. Está na hora de subir no banquinho para cobrar uma grande reengenharia lipoaspiradora dos governos e uma privatização completa. Nada mais fora da agenda básica deve ficar na mão de políticos.