sexta-feira, outubro 19, 2007

Sem motivo para comemorar

Denise de Almeida, Jornal do Brasil

Festejado por uns, criticados por outros, os médicos têm pouco a comemorar hoje, no dia dedicado à categoria. Ontem, o presidente do Sindicato dos Médicos, Jorge Darze, revelou que, por causa da precariedade das condições da rede pública, os profissionais de saúde estão abandonando o emprego. De 2001 para cá, 65% dos médicos concursados deixaram os postos de trabalho.

Dos 3 mil aprovados no exame de 2001, para as unidades hospitalares do Estado, 2 mil pediram demissão. Os fatores que influenciaram a evasão foram os baixos salários e a falta de infra-estrutura para trabalhar. O presidente do sindicato estima que 10 mil médicos desistiram do emprego. Segundo Darze, há uma carência de 40 mil profissionais, principalmente na Zona Oeste, Baixada e São Gonçalo.

Para Márcia Rosa de Araújo, presidente do Conselho Regional de Medicina do Estado do Rio de Janeiro (Cremerj), a crise na saúde só será resolvida quando os salários aumentarem. A remuneração inicial na rede municipal, estadual e federal é de R$ 1.300, para uma jornada de 24 horas semanais. Além de o salário ser baixo, ainda é pago com atraso. Márcia disse que recebeu ontem e-mail de seis médicos que trabalham na emergência do Hospital Getúlio Vargas, na Penha, denunciando que não receberam o pagamento de abril e maio. Segundo a presidente do Cremerj, os profissionais foram admitidos pelo Estado por meio de seleção em abril e só começaram a receber em junho. Márcia reclamou também dos contratos temporários e do atraso do pagamento dos contratados pelas cooperativas, que afastam ainda mais os profissionais.

- Com esse dinheiro não dá para comprar livros, participar de congressos e pagar as contas - critica Márcia Rosa. - E o primeiro salário do cooperativa atrasa até dois meses.

Por causa da situação adversa, boa parte dos médicos que continuam a trabalhar na rede pública acabam adoecendo. O presidente do Sindmed alertou que os casos de enfarte, estresse, depressão e até suicídios aumentaram 30%, nos últimos anos. A contaminação por doenças infecto-contagiosas, principalmente tuberculose, também cresceu.

- Os médicos têm de ter mais de um emprego, exercem a função em lugares insalubres e ficam doentes - resumiu Darze.

Mesmo sem motivos para festejar, a Assembléia Legislativa vai conceder a medalha Tiradentes, post-mortem, para o médico Roberto Chabo. A Câmara também vai homenagear Chabo, com a medalha Pedro Ernesto e os 80 anos do Sindicato.