segunda-feira, março 10, 2008

Evasão escolar cresce entre beneficiados do Bolsa-Família - I

Adelson Elias Vasconcellos

Excelente a reportagem de Lisandra Paraguassú, para o jornal O Estado de S. Paulo, que comprova todas as críticas que o programa Bolsa-Família tem recebido desde que o Luiz Inácio resolveu “adapta-lo”, centrando vários programas num só, retirando algumas barreiras que impediam o acesso, o que, na prática, serviu para ampliar o número de beneficiados de 6 para 11 milhões de famílias. Claro que o Bolsa-Família acabou por se converter no carro chefe de todos os programas eleitoreiros do Luiz Inácio, e por conta disso, ele se encontra na base da popularidade de 60,0% do presidente.

Porém, mesmo que nada escrevêssemos sobre o programa, os resultados que, pouco a pouco vão sendo divulgados e que escapam do controle de estatísticas oficiais que a propaganda oficial mantém, há três pontos por si só suficientes não apenas para embasar as críticas, mas também para que se exija do governo federal a revisão urgente do programa em si.

É lógico que, para o Luiz Inácio e seu marketing político, a grandeza dos números acaba sendo muito mais importante do que a tristeza dos resultados. Assim, fica muito pomposo dizer-se que cerca de 25% da população brasileira é diretamente beneficiada pelo Bolsa-Família, muito embora isto seja demonstrativo de que o crescimento econômico ainda precisa comprovar-se na prática, tendo em vista que ele ainda não reduziu a pobreza enorme de grande parte do povo brasileiro. E note-se: Luiz Inácio viveu cinco anos de poder nos quais o país poderia ter avançado muito mais em seu desenvolvimento porque, internamente, estávamos preparados para tanto, e externamente, as oportunidades nunca foram tão favoráveis. Faltou, sim, um projeto de país, sobrando, por outro lado, muito projeto de tomada do poder.

Reparem nos seguintes pontos: o trabalho infantil, depois de 10 anos de redução crescente, a partir de 2006 voltou a crescer; existe tanto no Nordeste quanto no sudoeste, imensa dificuldade de contratação de mão de obra no campo por conta da negativa dos trabalhadores em terem suas carteiras de trabalho assinadas, sob o medo de perderem o direito ao Bolsa Família; e, conforme a reportagem do Estadão demonstra, a evasão escolar cresce dentre os beneficiados pelo programa social.

Na semana passada, reproduzimos aqui artigo do Ali Kammel, para O Globo, sob o título “Bolsa Eletro-doméstico”, onde ele provou de forma irretocável o quão distante estava o Bolsa Família de converter-se em um programa social de verdade, e o quanto sua missão essencial se havia desvirtuado. (Clique aqui para ler)

Portanto, não poderá o governo federal alegar que se tenha má vontade para com o seu programa eleitoreiro, tampouco ficar amuado pelo rótulo de “eleitoreiro” que o programa recebeu. Até porque o dinheiro não sai do bolso do governo, que nada produz para tanto. Sai, sim, do bolso de toda a sociedade brasileira que trabalha duro, vê dia após dia seu salário perder valor quando comparado com a renda de há dez anos atrás, e ainda precisa repassar cinco meses de tudo o que recebe para um governo que, além do desperdício e da corrupção, cada dia se agiganta em tamanho e se reduz no cumprimento de sua missão básica. E esta sociedade expropriada na renda pelo gigantismo de um estado perdulário, ainda é obrigada a sustentar 25% de si mesma em troca de coisa alguma. Se o programa tornasse os beneficiados também contribuintes, os fizesse mais produtivos para o próprio crescimento do país, sem sacrificarem crianças - trabalho infantil e evasão escolar- e contribuintes, conforme os dados reproduzem, ainda se poderia compreender. Porém, uma classe que trabalha, estuda, produz e se desenvolve, não pode, de maneira alguma, se ver mantenedora de uma parte da sociedade que nada faz, que pouco trabalha e não estuda, e que ainda assim é beneficiada com o sacrifício e empobrecimento de quem praticamente lhe sustenta. Isto é andar na contramão do que deveria ser justiça social. Assim, este clichê empolado que tanto as esquerdas defendem de “justiça social” para 1/3 da sociedade, não pode ser argumentado para o cometimento da enorme injustiça social que se pratica contra os 2/3 restantes, registrando-se, ainda, que estes 2/3 se encontram em todas as camadas sociais.

Todo e qualquer programa social deve ser visto e entendido como um auxílio temporário para pessoas em situação de dificuldade emergencial. Quando estas pessoas não desenvolvem esforços para melhorarem-se a si mesmos porque os tais programas não lhes cobram mudança de atitude, acabando tornando-se clientelistas do Estado, eternas dependentes do Poder Público, e isto não desenvolve indivíduos, desenvolve massa de manobra para políticos inescrupulosos e em parias da sociedade que, dado os resultados que vamos assistindo, é o caminho para onde o programa Bolsa Família está conduzindo seus “beneficiados”.

A seguir, post abaixo, a reportagem do Estadão. Que os resultados que ali se expõem, juntados ao do trabalho infantil crescente e a maneira nada virtuosa como o programa vem sendo aplicado pelos beneficiários, sirva de alerta para toda a sociedade brasileira e, principalmente, para o próprio Governo Lula, no sentido de ainda buscar agregar ao Bolsa Família características “sociais” ao programa que,por ora, é apenas eleitoreiro.