sábado, abril 12, 2008

A oposição atira com munição de pólvora seca

Villas-Bôas Corrêa, Jornal do Brasil

O baixo nível de bate-boca de fim de feira em que despencou o debate na Câmara e no Senado, com culpas partilhadas entre a maioria governista e a esquálida minoria de oposição e, que se esparrama como a varredura do lixo da sarjeta para o deprimente comportamento do governo não está fazendo bem à instituição que purga uma mais adversas fases do período republicano e ameaça o regime democrático com a crise sistêmica que nada poupa e a todos denigre.

Não é necessário remexer no lodo do passado, remoto ou recente, como é costume do presidente Lula nas suas comparações entre o êxito do seu governo e a herança maldita deixada pelo ex-presidente Fernando Henrique. Neste momento, Lula esmurra o peito com as bancadas do remorso com o vazamento dos dados do dossiê montado nos computadores recolhidos pela Polícia Federal no gabinete da ministra-candidata Dilma Rousseff com o cuidado de selecionar o uso discutível dos cartões corporativos para o pagamento de despesas pessoal de FH da ex-primeira dama, dona Ruth Cardoso.

Como o lustre que balança na ventania das picuinhas e ameaça despencar na cabeça de quem sopra as verrinas da maledicência, a febre da intrigalhada não aproveita aos encrenqueiros de um ou de outro lado.

E contamina o Congresso, com o organismo debilitado pela orgia com o dinheiro público e as muitas mazelas que degradam o mandato parlamentar com a rejeição recordista da sociedade.

A pantomima apadrinhada pelos de sempre, ostensivos ou embuçados da equipe oficial e completado pela gritaria da oposição de indigente fragilidade numérica, não é apenas o show da vez na vexatória sessão legislativa que vai chegando aos seus últimos meses de inutilidade e desatinos.

O gongórico ministro da Justiça, Tarso Genro, deleita-se em aplicar o adjetivo institucional a respeito de tudo e de qualquer coisa. O bate-bate entre a maioria governista e a anêmica minoria oposicionista é institucional, tal como a atuação da pasta que ocupa com garbo e eloqüência. Mas, a busca e apreensão dos seis computadores no Gabinete Civil da Presidência, nos quais suspeita-se que tenha sido montado o dossiê dos gastos com os cartões de crédito corporativos será da mais translúcida inconstitucionalidade enquanto não levar a sua bisbilhotice às contas do casal presidencial.

Por tais distorções da ética pelo atalho da astúcia, é que se chega à grotesca montagem da CPI Mista dos Cartões, com o recrutamento dos incondicionais que votam no escuro, dos dóceis luminares do baixo clero para a singela obrigação de votar sempre como manda o governo, podendo manter o bico calado durante os cochilos das monótonas sessões da patusca CPI de mentira.
E que gera o monstrengo da duplicidade com a criação da CPI dos Cartões do Senado, convocada pela minoria oposicionista para a montagem de um palco paralelo onde os seus três representantes enfrentarão os oito membros indicados pelo governo.

Mas então para que a dobradinha de CPIs controladas pelo governo?

A rigor, para muito pouco. Um espaço mais civilizado, com senhores e senhoras de cabelos grisalhos ou negros como a asa da graúna trocam desaforos em linguagem de salão, com escorregões sempre lamentados.

Ora, o governo pendular que comemora os êxitos inegáveis na política econômica, no Bolsa Família, de alto objetivo social que garante a freqüência dos menores às aulas e melhora a refeição da família necessita de uma chuveirada de humildade para olhar abaixo da linha do umbigo.

A ocasião é da maior oportunidade. Escondido atrás do tapume da inépcia de muitos governadores e prefeitos, o presidente Lula voa nas asas do Aerolula para a autopromoção das visitas das obras do Programa de Aceleração do Crescimento, o PAC amadrinhado pela ministra-candidata Dilma Rousseff e não tem olhos para ver o fracasso do Sistema Único de Saúde – o sucateado SUS das filas da epidemia de dengue de velhos e crianças que morrem à espera de socorro que busca de porta em porta.

A ausência do presidente negou o conforto do estímulo da sua presença aos milhões de vitimas das enchentes, expulsos de casa com perda dos seus miseráveis pertences.

O governo não tem nada a ver com o engarrafamento das capitais e grandes cidades, martírio de todos os dias de milhões na ida e na volta do trabalho e vítimas da violência que ocupou favelas com as gangues que controlam o tráfico de drogas.

O que o governo dá com uma das mãos nega com a outra.

E o Congresso desmoralizado, lacerado pelo desapreço da sociedade é o mais sério risco à democracia, que só é forte e consolidada na oratória da demagogia.