domingo, maio 11, 2008

O risco do culto à personalidade

Ruth de Aquino, Revista Época

A maior vítima do personalismo do presidente Lula acabará sendo ele mesmo.

Nunca deu certo a idolatria. O Brasil vive hoje uma polarização. Quem ousa criticar Lula é chamado de “pig” (partido da imprensa golpista), de tucano e direitista reacionário. Quem dá algum crédito aos acertos do presidente é acusado de não enxergar um palmo à frente do nariz. Todo mundo perde nessa disputa de patrulhas. Amizades azedam. O raciocínio se embota, o debate emburrece. Mas a maior vítima do personalismo de Lula acabará sendo ele próprio.

Refém do imbatível discurso “sou igual a vocês, passei fome e não estudei, mas cheguei lá”, Lula não produz um sucessor forte nem aproveita a falência da oposição. Nunca antes no país um presidente tão popular teve tamanha dificuldade para destravar o Congresso.

No mês passado, em Brasília, dezenas de prefeitos e vereadores pagaram R$ 20 por fotomontagens com o presidente. Sério. Era um evento, depois de uma marcha. O prefeito primeiro se arrumava diante do espelho para posar sozinho. Um cartaz ao fundo tinha o logotipo da marcha. Depois, no computador, a imagem era montada com a do presidente. A foto de Lula era meio antiga, porque tinha sido feita na marcha do ano passado. Mas a montagem ficava perfeita. Esgotou-se o tamanho maior, passou-se para o menor. O fotógrafo que cuidava do estande estava eufórico. Ele disse ter vendido centenas de fotos porque “esse ano, está demais; o homem (Lula) está forte”. Marchas e fotomontagens lembram o culto a déspotas iluminados? Dão medo de um terceiro mandato? Sim e não, dependendo de que lado você está nesta sociedade partida.

O cientista político Sérgio Abranches enxerga na internet uma legião de desocupados sindicais que tentam desqualificar qualquer crítica ao lulismo, mesmo a mais amena, equilibrada e fundamentada. O artigo nem é lido, é tachado de conspiratório. Os mesmos que acusam a mídia de golpista e maniqueísta santificam o presidente e demonizam os críticos. É o amor cego e feroz, que dispensa a razão ou o argumento.

Se Lula toma uma medida “de direita” e se articula com conservadores, seu cortejo de admiradores o considera um presidente arguto, dotado de “realismo político”. Se Lula demite ministros acusados de corrupção, diz-se traído e depois estende a mão aos ex-malditos, é por lealdade, por não abandonar nunca os amigos. Se Lula muda totalmente de idéia, é aplaudido como metamorfose ambulante. O cortejo não percebe que governos melhoram quando há cobrança. Nenhum governo, de qualquer partido, pode prescindir de críticas.

A adoração a Lula embute um risco institucional. O lulismo é hoje, segundo Abranches, mais prejudicial ao PT que à oposição – até porque esta, sozinha, mete os pés pelas mãos.

Todo o apetite de Lula pelo calor popular, todo o carisma derramado nos palanques acabam sendo válvulas de escape de um presidente que se realiza nas ruas e na identificação com o povo. Lula tem inapetência para a relação com o Legislativo. Não consegue pautar nem Câmara nem Senado. Sua autoridade, como presidente, é menor que sua popularidade. Lula ficou maior que o PT, mas não consegue transformar adesão pessoal em recurso político no Congresso. Por isso escapole das negociações políticas em Brasília, e sai pelo país ou pelo mundo, ora cometendo gafes, ora dizendo boas verdades em linguagem simples. Lula é hábil negociador, tem flexibilidade e uma enorme capacidade de angariar apoio e simpatias.

Os fiéis seguidores de Lula deveriam fazer a ele um favor: parar com a idolatria. Ela faz mal ao presidente e a seu futuro político. Faz mal ao país.