Lucia Hipólito, Blog do Noblat
É grave a crise. Já sabemos disso. Até mesmo algumas autoridades brasileiras, que brincavam de general Geisel (“o Brasil é uma ilha de tranqüilidade num mar de turbulências”), finalmente enfiaram a viola no saco e reconheceram a gravidade do momento.
Deixou de ser “uma crise lá do Bush” para ser um momento preocupante.
Mas é preciso não perder a perspectiva histórica, sob pena de confundirmos alhos com bugalhos.
Senão vejamos. A comparação com a crise de 1929 e a depressão que a sucedeu não se sustenta. Por algumas razões:
Primeira, em 1929 o mundo vivia em plena economia liberal, o reinado do laissez-faire. Isto se traduzia em zero intervenção do Estado na economia.
Quando houve o crash da Bolsa de Nova York, o governo não interferiu, deixando ao mercado a responsabilidade de se recuperar.
E o mercado se esborrachou sozinho, arrastando consigo a economia americana e a economia do mundo capitalista ocidental.
Nem assim os governos interferiram.
Na crise atual, assim que descobriram que a “mão invisível do mercado” tem artrite, os bancos centrais de todos os países agiram rapidamente para evitar que o fogo se alastrasse.
Bancos vêm sendo absorvidos por outros, financeiras vêm sendo estatizadas, tudo isto sob a orientação e às vezes imposição dos bancos centrais.
Se não regularam o mercado antes, para conter a exuberância (leia-se especulação desenfreada), estão bastante ativos agora.
A segunda diferença importante em relação a 1929 tem a ver com a condução política de todo o processo.
O presidente americano Herbert Hoover tinha sido eleito em 1928 e, portanto, estava no primeiro ano de mandato. Com isso, a economia americana sangraria ainda durante quatro anos, porque Franklin Roosevelt só seria eleito em 1932 e empossado em 4 de março de 1933.
Só aí é que se pôde implementar o New Deal, programa de recuperação da economia americana, baseado em forte regulação e algum intervencionismo estatal.
Na crise atual, mesmo que George W. Bush seja, sem favor algum, o pior presidente da história dos Estados Unidos, ele deixa o cargo em 20 de janeiro. Portanto, daqui a três meses e meio.
Melhor assim. O mundo não terá que esperar quatro anos para iniciar um processo de saneamento financeiro.
O dado mais complicado da crise atual reside justamente na completa perda de confiança do cidadão americano em seu presidente. George Bush é hoje um presidente inteiramente desacreditado.
Mas é o presidente. O novo presidente ainda não foi eleito, por isso mesmo os dois candidatos não podem “sentar na cadeira antes da hora”. Não podem usurpar uma atribuição que pertence, única e exclusivamente, ao presidente em exercício.
A atribuição de liderar a administração da crise e a busca de soluções.