quarta-feira, fevereiro 25, 2009

Dívidas de alto custo

Estadão

Os brasileiros estão aumentando seu endividamento pessoal mediante o uso de cartões de crédito e operações com cheque especial - as mais caras do mercado -, segundo pesquisa da Associação Nacional dos Executivos de Finanças, Administração e Contabilidade (Anefac). Isso tanto pode indicar que é insuficiente a oferta de crédito a juros módicos como o agravamento da inadimplência, que empurra os devedores para qualquer crédito disponível, a despeito dos altos juros.

As operações com cheque especial, que cresceram apenas 6,6% entre janeiro de 2007 e janeiro de 2008 - de R$ 17,52 bilhões para R$ 18,69 bilhões -, aumentaram nos últimos 12 meses, até janeiro deste ano, 23%, atingindo R$ 23 bilhões, conforme estimativas da Anefac. Já as operações com cartão de crédito evoluíram de R$ 9,70 bilhões, em janeiro de 2008, para R$ 13,50 bilhões, no mês passado, com aumento de 39,1%.

Cotejando os porcentuais com os da expansão geral do crédito às pessoas físicas - de 33,4%, entre 2006 e 2007, e de 24,3%, entre 2007 e 2008 -, pode-se supor que o aumento das operações mais caras não é tão grande. Ocorre que as operações com cheque especial acusavam desaceleração até 2007 - e esta era uma tendência natural, recomendada pelos analistas.

No mês passado, os juros médios do cheque especial atingiram 7,91% ao mês, ou 149,31% ao ano. No cartão de crédito, as operações não quitadas na data do vencimento estavam sujeitas à cobrança de um juro médio de 10,56% ao mês, correspondente a 233,56% ao ano. Em apenas um mês, portanto, o custo de uma operação dessas é bem superior à taxa anual de inflação, que serve como base para os reajustes de salários. Maiores do que estas taxas, só as dos empréstimos pessoais oferecidos pelas financeiras independentes, de 11,74% ao mês ou 278,88% ao ano, em janeiro, ou as cobradas por agiotas.

Os próprios bancos, levando em conta que juros tão elevados se tornam insuportáveis para os clientes, já estariam reduzindo os montantes do crédito disponível para cada tomador. Limites de cheque especial têm sido cortados em até 30% e no cartão de crédito, em 10%. Os bancos argumentam que os cortes de crédito se justificam pelo aumento da inadimplência, mas isto acaba acontecendo por causa dos juros estratosféricos, que tornam os devedores incapazes de pagar as prestações mensais dos financiamentos.

O aumento do volume das operações mais onerosas é um indício claro das dificuldades crescentes dos consumidores habituados a pagar as contas em dia. É um fenômeno que se repete a cada ano, em janeiro, quando se acumulam os gastos com mensalidades escolares, IPTU, anuidades de clubes e o recolhimento do IPVA sobre os veículos. Uma despesa a mais, neste ano, em São Paulo, é a da inspeção dos veículos, para o controle de poluição de emissões de gases dos motores.

O mais provável é que o endividamento crescente via cartões de crédito e cheque especial anteceda um aumento ainda mais grave da inadimplência.

Contra a inadimplência os bancos dispõem de um mecanismo contábil: ampliam as provisões para devedores duvidosos e, graças a isso, pagam menos Imposto de Renda (IR). Foi o que demonstrou análise do economista Amir Khair, ex-secretário de Finanças da Prefeitura de São Paulo. Comparando 2007 com 2008, houve redução real de 11% no IR recolhido pelas instituições financeiras.A Anefac recomenda cautela aos investidores. Sem planejar cuidadosamente sua vida financeira, as pessoas físicas correm o risco de cair em situação de endividamento excessivo.

O site do Banco Central passou a divulgar informações sobre os juros cobrados pelos bancos em cada tipo de operação, o que ajuda a tomar decisões.

O maior risco é o de que o endividamento excessivo dos consumidores acabe por tolher o consumo de bens essenciais, afetando o ritmo da atividade econômica.Créditos como os do cartão e do cheque especial são um resvaladouro para o empobrecimento.

***** COMENTANDO A NOTÍCIA:

Já comentei isto aqui várias vezes: o crescimento sustentado do consumo que, por sua vez, alimenta o desenvolvimento do país, é aquele proveniente do crescimento da massa salarial. Quando o aumento do consumo se dá, como agora por opção do atual governo, baseado exageradamente a partir do crédito, e um crédito caro ainda por cima, não estamos diante de “denvolvimento econômico”, e, sim, assistimos ao crescimento de uma bolha que não se sustenta ao longo do tempo.

Muito se fala sobre o auamento no número de geração de empregos. Claro que isto é louvável, porém, tal crescimento se deve, sobretudo, não a um projeto de desenvolvimento parido nos subterrâneos do poder central. Grande parte destes empregos novos são fruto do crescimento da economia intenacional, que criou uma enorme demanda por comodities das quais o país é um expoente mundial. Ou seja, a bonança econômica lá fora tragou as nossas potencialidades, principalmente minérios e o agronegócio, tão demonizado pelas esquerdas estúpidas e tão maltratado pelo governo. E, apesar do tão decantado aumento de “pessoas classe média”, fruto dos programas sociais, o que se constata é o que o trabalhador médio brasileiro, em janeiro de 2009, ainda tem um ganho real inferior ao que teve em 1996.

Agora imaginem o quanto decresceu o rendimento da classe média neste mesmo período?

A questão do aumento de consumo sustentado no crédito apenas, tem prazo de validade: ele se expande até olimite da capacidade depagamento dos tomadores destes empréstimos. Se sua renda decresce ao longo do tempo, é evidente que estamos diante de uma bolha que, além dos seus limites naturais de expansão, ainda penaliza o brasileiro com uma carga tributária excorchante e juros proibitivos.

Quando Lula fica rezando para o “santo“ Obama para por fim à crise, na verdade, ele está é agradecendo pela crise: ela vem atender o interesse do próprio Lula de agora ter a crise internacional para justificar um menor crescimento do país. Na verdade, a crise é secundária até certo ponto, no nosso caso. Nossas dificuldades já eram visíveis antes da crise se instalar por aqui. E, mesmo que ela não nos atingisse, certamente, teríamos necessidade de reduzir o ritmo de forma quase abrupta.

O crescimento da inadimplência demonstra, no fundo, que muita gente vinha tomando empréstimos novos para pagamento de empréstimos antigos. Com os juros nas alturas, é fácil constatar que, cedo ou tarde, a farra iria acabar. Não condenamos o crescimento do crédito farto, o que condenamos é ele ser farto num país de juros exorbitantes e onde a massa salarial não conseguiu repor seu nível de dez anos atrás.

Exemplo bem claro disto se dá, conforme noticia a Folha de São Paulo nesta quarta-feira, sob a manchete “Bancos têm 100 mil carros de inadimplente”, informando que “...Os bancos brasileiros têm em conjunto um estoque de pelo menos 100 mil carros recuperados de clientes inadimplentes, o equivalente à metade das vendas mensais de veículos novos no país, para desovar no mercado de autos usados. Esse estoque é mais um motivo de pressão no segmento de usados, que vive queda sem precedente nos preços e cuja falta de liquidez trava as ações para retomar a venda de carros novos...”

A lógica, como se vê, aponta não para dificuldades de créditos, pois afetariam, como de fato afetaram, o mercado de carros novos. A recuperação, é bom que se diga, por mais óbvio que possa parecer, é sobre vendas realizadas antes do aperto no crédito, pessoas que fizeram financiamentos um pouco além de sua real capacidade de pagamento.

É fácil para o governo apontar como a causa maior das dificuldades que o país enfrenta em alguns segmentos, a crise internacional e sobre a qual o Brasil em nada contribuiu. Porém, é preciso fazer um diagnóstico mais realista para, detectadas as causas para os problemas do presente, sabemos corrigir a rota para, no futuro, não encontrá-los novamente. Mas terá este governo coragem para tanto?