Sebastião Nery
RIO – Esmeraldo Tarquínio, paulista de Santos, deputado do MDB, depois cassado pelo AI-5, tinha um secretário que resolvia tudo, já levava os assuntos mastigados. Um dia, entra no gabinete dele uma robusta senhora empurrando um garoto de mais ou menos dez anos:
- Quero falar com o deputado, pois secretário não resolve. Sou eleitora dele e vim de muito longe.
O rapaz consultou o mapinha eleitoral, verificou que realmente fora o único voto que Esmeraldo tivera na cidade da rotunda senhora, e se desfez em gentilezas, querendo saber do assunto para ir encaminhando as providências. E a senhora irredutível: só falaria com o homem, o deputado, demorasse o que demorasse. Depois de quase três horas de espera, chega o deputado e a senhora mostra um santinho com a propaganda dele.
Tarquinio
Tarquínio manda que ela se sente e diga qual o problema.
- Deputado, estou em dificuldades e quero que o senhor consiga uma bolsa de estudos para o meu filho.
- Pois não, onde ele estuda, em que colégio?
- Colégio estadual.
- Minha senhora, colégio do Estado é gratuito, não há bolsa de estudos, não há necessidade.
A robusta senhora se levanta nervosa:
- Olha, deputado, no colégio em que meu filho estuda, todos têm bolsa de estudo. Se o senhor não quer arrumar, não tem importância. Era só uma bolsinha para ele pôr os livros dentro e não ter que levar na mão.
Esmeraldo Tarquínio mandou o secretário correndo ir comprar uma “bolsa de estudos” para o filho da eleitora carregar os livros até a escola.
Presidente
Todo esse barulho que Ciro Gomes está fazendo é para ver se Lula, Dilma, o PT e o PSB percebem a “bolsa de estudos” que ele quer, o jogo político dele. A candidatura a governador de São Paulo nunca existiu. A candidatura a presidente da Republica seria uma hipótese de desespero de Lula, se as pesquisas continuarem mostrando Dilma sem crescer, perdendo no primeiro turno, e precisando de Ciro para forçar um segundo turno.
Sem ser candidato também de Lula para ajudar Dilma, Ciro nem sairia. Ele sabe que não tem comando nem decisão no PSB. O presidente, governador Eduardo Campos, de Pernambuco, uma jovem, forte e surpreendente liderança, não iria jogar o partido numa aventura solitária, sem tempo de TV, sem aliança com qualquer outro partido e sobretudo com a capacidade de Ciro de fazer inimigos e desinfluenciar pessoas.
Vice
O que Ciro quer mesmo, a “bolsa de estudos” dele, é ser vice na chapa de Dilma. Ele acredita que, se for o vice, Dilma cresce e os dois ganham juntos: soma os 15% de Dilma com os 15% dele, ganham mais 10% na campanha, e chegam aos 40% de Serra.
Mas, para conseguir isso, Ciro precisa tirar da frente o paquiderme dormindo na calçada : o PMDB. Daí a fúria dele contra o PMDB. Ciro vinha devagar, tentando passar com jeito por cima ou pelo lado do paquiderme. Quando Lula mostrou que essa historia de Michel Temer já ser o candidato a vice é uma enganação e pediu três nomes para ele escolher um (desde que seu querido banqueiro Henrique Meirelles seja um dos três), Ciro endoidou.
PMDB
Ciro achou que era a hora de pôr fogo no pasto (Folha) :
1. – “A coalizão do PT e PMDB tem feito mal ao Brasil, Enquanto a imprensa distrai a população com escandalos de polichinelo (os Mensalões do PT e de Arruda), não se percebe a dimensão do real escândalo que é a hegemonia da coalizão do PT com o PMDB”.
2. – “Michel Temer é o representante maior dessa atual hegemonia (dessa coalizão). Na Camara, quanto mais despreparado e menos decente (!), maior é o prestigio”. (Michel, presidente, é o maior prestigio).
3. – “Os escândalos no Congresso são pequenos perto do que realmente prejudica o Brasil, a aliança PT-PMDB”.
4. - “Eu na Camara nunca tive nada. Sou ex-prefeito, ex-governador, ex-ministro da Fazenda e da Integração Nacional, mas nunca tive nada ali”.
Resta saber se Lula daria de presente a Serra seu pedaço de PMDB.
Aloprado
E Ciro vai forçando a barra. Oferece-se a Lula para ser o “aloprado” da campanha e bater em Serra. Quinta-feira, abriu o jogo no “Globo”:
- “Ciro Candidato – Já não há mais divergência : o PSB fechou a favor da candidatura de Ciro à presidência. A candidatura é considerada estratégica para ampliar a bancada socialista na Camara dos Deputados. E vista como fundamental para sustentar seus candidatos aos governos estaduais. O PSB quer ser protagonista. Não se conforma com o papel de satélite do PT. Alegam ainda que Ciro larga com 15%” (Ilimar Franco).
Se for assim, é hora de tirar as crianças da sala. Aliás, da casa.
Dilma
Pode ser que a Conferencia de Copenhague não derrube o aquecimento global um centímetro. Mas a imagem de Dilma diante do pais, como candidata ou como capacidade de liderança, volta de lá com muitos centímetros a menos. Foi para estufar a candidatura e volta murcha.