Adelson Elias Vasconcellos
Apesar da torcida a favor, o que se percebe nas análises de alguns jornalistas que se comportam como próceres oficiais do petismo (ou do lulismo), o resultado da pesquisa DATAFOLHÁ, ter revelado um Serra com vantagem de 14 pontos sobre Dilma, a esta altura do campeonato, deve preocupar muito mais os governistas do que a oposição.
Vamos alinhar alguns fatos expostos na mídia, e que deveriam ter forçado um crescimento de Dilma, com redução da diferença que poderia ter tornado esta distância bem menor.
Primeiro, o cenário de avaliação de agora é diferente. Nesta pesquisa, o DATAFOLHA riscou fora Heloísa Helena, do Psol que, em agosto, aparecia com 12%. Olhando-se a pesquisa recente, aqueles 12% migraram em partes quase iguais para Marina e Dilma, o que seria natural, dado que ambas, para o eleitor, representam as esquerdas.
Segundo, os pesquisadores foram às ruas logo após o programa partidário do PT, na televisão, programa feito com o esmero de ser flagrantemente campanha pré-eleitoral. Ah se no Brasil houvesse um Tribunal Eleitoral! Como é que é, tem um ? Bem, ou eles não devem ter assistido, ou se o fizeram, devem ter dormido durante boa parte dele. Porque a campanha ali estava com todas as letras e imagens.
O tom do programa do PT foi, de um lado, cantar as “glórias” do governo Lula e apresentar ao país que estas “glórias” continuarão se multiplicando através de Dilma. E, de outro lado, dentro da estratégia proposta para a campanha, tratou de demonizar o governo FHC, procurando tornar a campanha como eles definem “plebiscitária”, truque vagabundo que, olhado em profundidade não faz o menor sentido.
Terceiro, a pesquisa aconteceu dentro do turbilhão do escândalo em rede nacional do panetonegate do governador José Arruda, do DEM, no Distrito Federal. O Democratas, todos sabem, é aliado da primeira à ultima hora dos tucanos.
Quarto, a cobertura intensa da mídia sobre os vendavais que castigam São Paulo. Quem ficar apenas no noticiário, achará que as chuvas fazem estragos só na capital. Onde houver prefeitura petista, pouco ou nada se ouvirá, apesar dos estragos em iguais proporções. Mas só se fala da cidade de São Paulo, onde na prefeitura tem Kassab, democratas, e no governo estadual tem Serra, do PSDB.
Quinto, Lula e Dilma, Dilma e Lula não saem da exposição intensa na mídia. Quando eles não dão motivos, os próceres do oficialismo se encarregam de noticiar. Afora, é claro, a máquina de propaganda do governo investindo horrores de dinheiro para condicionar a opinião pública..
Sexto, em contrapartida à exposição de Lula e Dilma, Serra segue quieto no seu canto, fazendo o seu papel que é governar São Paulo.
Ora, diante destes cenários todos, Dilma deveria estar beirando a casa dos trinta pontos. Não sai do lugar, ou melhor, até saiu, mas pelo fato de ter herdado metade do patrimônio eleitoral de Heloisa Helena, que saiu da disputa.
Se a gente for olhar um pouco mais a fundo, a pesquisa revela outro dado preocupante para a candidata Dilma: num provável segundo turno, Serra vence com larga margem.
O único cenário em que Dilma aparece bem na foto, é quando o candidato da oposição é Aécio Neves. Ele perderia tanto para Dilma quanto para Ciro Gomes, diferentemente de Serra que vence a ambos.
Deste modo, fica difícil entender porque os petistas comemoraram efusivamente a saída de cena anunciada pelo mineiro Aécio Neves. E, no noticiário que se seguiu ao anúncio, não faltou analista insuflando Aécio à traição, ou seja, que não compusesse com Serra a chamada chapa puro-sangue.
De um lado, no fundo, alguns petistas sonham com um reviravolta na oposição para que Aécio seja o candidato escolhido na corrida presidencial. De outro lado, os que não acreditam mais nesta possibilidade, tentaram a todo custo evitar que Aécio seja o vice na chapa de Serra.
E isto nos leva a pensar que, hoje, entre os petistas, a preocupação maior é com que roupa a oposição vai se apresentar para a campanha. Se só com Serra, ou com Serra e Aécio juntos, ou uma remota possibilidade de Aécio voltar atrás e decidir sair candidato à presidência. Ninguém fala com convicção extremada pela candidatura de Dilma. A sorte dela, aos olhos governistas, depende muito mais do candidato que a oposição escolher do que por sua preferência junto ao eleitor. Dentre todos os possíveis candidatos é a que reúne maior índice de rejeição. Serra é o menor.
Claro que o ar de desencanto com a Conferência sobre o clima em Copenhague, onde Lula entrou no jogo batendo duro, e a atuação de Dilma foi um pouco abaixo do desastre, tira da candidata governista uma importante peça deste tabuleiro. O apelo ao meio ambiente não jogará em favor dela, nem tampouco Lula terá algo a acrescentar a não ser discurso.
Serra, por outro lado, mesmo com a desistência de Aécio Neves, continua na de que não é candidato, que a escolha se fará mais adiante, e que sua preocupação maior, no momento, é o governo do seu estado. Ele sabe que não pode se expor ao tiroteio direto dos petistas, antes da campanha propriamente dita. Assim, se preserva e cultua sua própria imagem, no que, pelo se viu até aqui, ele está absolutamente correto.
Claro que estamos falando de um cenário visto em dezembro, faltando ainda noventa dias ou pouco mais do que isso, para que as candidaturas sejam, de fato, definidas. Daqui prá frente, os pré-candidatos se dedicarão ao jogo dos bastidores, para costurar alianças políticas consistentes. O resultado do DATAFOLHA também, e vocês notarão em seguida isto, vai influenciar, sobremodo, as ações do governo Lula na tentativa de aproximar Dilma ainda mais do eleitorado cativo do PT, projetar o saquinho de bondades com que jogará para captar o máximo de simpatia para a sua candidata, além, é claro, de empurrar a militância para aquelas ações nebulosas de plantar notícias, de “vazar” dossiês, de semear discórdias, mentiras e calúnias contra seus adversários. Ou, em outras palavras, o governo, com o uso intenso da máquina pública, vai tentar achar “motivos” para bater duro em Serra.
Lá por março de 2010, tudo poderá ser diferente. Pode-se dizer que, rigorosamente, o jogo nem começou. Mas uma realidade salta aos olhos: o marqueteiro vai ter muito trabalho para tentar emplacar Dilma Rousseff como sucessora de Lula. Não apenas pela campanha e todos os truques de se pode valer, mas também precisará contar com o imponderável, como derrapadas da oposição em relação as suas escolhas, além da possibilidade de poder contar com algum escândalo gigantesco que possa destruir a imagem de Serra em nível nacional.
Tudo é possível, mas a continuar mantidos os atuais cenários, logo veremos alguns aliados governistas impondo um reajuste de preços na tabela das alianças. Por mais safados que sejam os políticos brasileiros em geral, e são, também eles são inteligentes o suficiente para perceberam quando um barco começa a vazar. Tem a sensibilidade aguçada (não por outra razão continuam impunes apesar dos seus crimes) para sentirem quando é hora de pular fora. Dilma continua sendo “maquiada” para ser a CANDIDATA que nunca precisou ser. Contrariamente, Lula quando ganhou, concorria pela quarta vez, tempo suficiente para aprender com seus próprios erros e corrigir-se. Este aprendizado, que vale apenas para ele, não pode ser “passado” simplesmente. Só a vivência política de inúmeras campanhas é capaz de ensinar. E isto, estejam certos, fará falta a Dilma. Pode até ganhar, mas convenhamos, não será nunca por seus próprios méritos. Precisará contar com a indispensável incompetência da oposição. E isto, bem sabemos, já na campanha de 2006, não é difícil de acontecer.