quarta-feira, fevereiro 10, 2010

Na democracia, cada um tem direito ao esterco que quiser

Adelson Elias Vasconcellos

O que significa para você assistir televisão? Diversão? Cultura? Informação? Entretenimento? Pode ser tudo isso, e pode não ser nada. Tem quem goste, alguns muitos outros nem tanto, e há aqueles que não gostam, não veem, não assistem. Dentre os que assistem e gostam, o cardápio de preferências é imenso, variado. O gosto individual de cada um determina a grade de programas que cada um vai assistir. Assim, você como indivíduo estará exercendo, plenamente, seu direito de escolha, escolha esta que será influenciada pelos hábitos, pela cultura, pela atividade profissional, que varia de indivíduo para indivíduo.

Mesmo as emissoras de tevê aberta, possuem bastante variedade. E a grade das emissoras procura atender e atingir os mais diferentes tipos de pessoas, diria até que o objetivo é proporcionar uma variedade capaz de alcançar toda a família.

Claro que se pode pretender a produção de outros programas alternativos, oferecer melhor qualidade, etc. Mas, e é bom considerar este aspecto, evolução, progresso qualitativo não se faz apenas com boa vontade. Isto se obtém ao longo do tempo, com experimentações, com aproveitamento de maior e melhor criatividade, e o elemento humano para a televisão não é produto pronto e acabado que se encontre no supermercado ou na farmácia mais próxima. Mesmo assim, dando-se o devido desconto, a tevê aberta brasileira se não chega a atingir em qualidade o que se pode desejar, ela oferece muitas opções de programação.

Porém, têm pessoas que, por formação, cultivam assistir uma outra variedade. E, se podem bancar, fazem assinatura de tevê a cabo. Se na tevê aberta fica difícil escolher assistirmos só cinema, ou só esportes, ou só informação jornalística, ou de cunho institucional como as atividades do legislativo e judiciário, ou ainda programas mais educativos e culturais voltados para história, geografia, vida animal, os canais a cabo podem satisfazer esta exigência. Claro que em contrapartida, se cobra deste telespectador mais digamos ... exigente, uma assinatura, o que não deixa de ser justo. E mesmo as tevês a cabo, ofertam pacotes variados em diferentes faixas de preços que acabam se ajustando ao gosto e ao orçamento de seus assinantes.

Particularmente, sou um assinante de tevê a cabo desde 1998 que, juntamente com os canais abertos, posso dizer ter uma gama bem interessante de opções de entretenimento dentro da minha casa, sejam de filmes, esportes, informação ou mesmo cultura. Junte-se a isto o acesso a internet com o velho, bom e saudável hábito de leitura, seja ela informativa, educativa ou simplesmente literária, e acredito poder me situar numa categoria da população detentora de um grau de informação satisfatório.

E tudo isto é possível porque vivo num país que se quer democrático, onde o Estado não tem o direito de fazer por mim escolhas do que quero ver, ler, ou simplesmente.assistir.

Toda esta introdução vem a propósito da fala prá lá de patética do senhor Marco Aurélio Top Top Garcia sobre sua opinião a respeito das tevês a cabo. Num primeiro momento a impressão que se tem é que este senhor ou só assiste aqueles canais de programa só para adulto, incluído em pacotes especiais que permitem aos pais impor senha de acesso para impedir que seus filhos o assistam. Outra alternativa que pode justificar a posição do senhor Top Top é que ele não assiste tevê a cabo e não tem a menor noção da variedade de programas a disposição de seus assinantes.

A terceira alternativa eu até não gostaria sequer de imaginar, qual seja, a de Marco Aurélio esteja pretendendo que haja uma intervenção do Estado para impor aos canais a cabo uma programação engessada, tirando do assinante o seu sagrado direito de escolha pessoal., que ele paga inclusive para poder garantir. Ocorre que, neste caso, Marco Aurélio nivela estes assinantes talvez mirando-se em sua própria figura, isto é, por baixo.

Ora, qualquer pesquisa que se fizer sobre a escolaridade, formação profissional e nível de renda da grande maioria dos assinantes de tevê a cabo, se perceberá que pertençam as classes sócio - econômicas mais elevadas da população. Portanto, não são pessoas que uma programação possa interferir no seu intelecto, ou na sua opinião política, por exemplo. Tratam-se de cidadãos bem formados e informados que buscam na tevê a cabo opções de entretenimento que as tevês abertas, por suas características, não podem oferecer. Imaginem uma tevê aberta transmitindo diariamente apenas esportes! Ou apenas jornalismo informativo! Ou apenas programação educativa! Da mesma forma, as grandes revistas de circulação nacional, também têm suas especializações, e cada um compra a que melhor lhe convier. Mas reparem: sempre a palavra final do que se assistirá ou não, não é da competência no Estado ou de qualquer órgão a ele ligado. O que se deve fiscalizar é a relação das empresas que fornecem contratos e pacotes de tevê por assinatura com seus assinantes para não haver abusos. Por exemplo, o dos excessivos intervalos comerciais em alguns canais. E só.

Não tem competência o Estado tampouco o direito de determinar o que devo assistir na televisão em minha casa. Isto faz parte da minha privacidade. E desde que ela não afete a terceiros, a ninguém é dado o direito de palpitar ou intrometer-se.

Se o senhor Marco Aurélio não gosta das tevês a cabo, é simples: que não seja assinante. Ninguém é obrigado a sê-lo. Contudo, o seu não gostar não pode ser imposto como regra nacional. Por exemplo, Marco Aurélio adora conviver e ser amigo de ditadores, repressores e governantes assassinos. De minha parte, os detesto e quero mais que vão para o inferno. Porém, nem a minha tampouco a opinião dele, devem interferir na opinião e nas escolhas de amizades das demais pessoas deste país. Marco Aurélio, por exemplo, adora o comunismo, aquele regime que trucidou mais de 30 milhões de inocentes apenas na Rússia. Eu o detesto e desprezo. Podemos conviver pacificamente com nossas diferenças? Sim, podemos, mas isto só é possível num país plenamente democrático, em que vigora a plenitude do estado de direito, onde as escolhas e as opiniões pessoais de Marco Aurélio não interferem nas minhas escolhas e opiniões.

A comparação que Top Top Garcia faz das tevês a cabo com a 4ª Frota Americana não beira o ridículo: é a essência suprema do próprio ridículo. Como disse lá em cima, há canais institucionais como tevês educativas e as que transmitem as atividades legislativa e judiciária. Há o canal da própria TV Traço, isto é, da TV Brasil, aquela que Lula criou e que ninguém assiste. Há canais informativos com telejornais quase que em tempo real, mas que apresentam, também,  programas de debates que, 90% das vezes, versam sobre temas de interesse nacional.

Na verdade, há no fundo desta crítica imbecil, a tentativa de torpe de se criar mais uma  linha de interferência do Estado na vida do cidadão, alimentado pelo entendimento desta gente que a censura à liberdade de expressão é “algo saudável para a democracia”. Vade retro!!!

Ao afirmar que os canais despejam “esterco cultural”, parece que Marco Aurélio está endossando e justificando uma das alternativas que apresentei acima para seu posicionamento patético: a de que ele esteja assistindo muita sessão erótica nos canais adultos...

Porque, a bem da verdade, esterco é o lixo da ideologia que Marco Aurélio apregoa, abraça e defende. Esterco é a mentalidade que Marco Aurélio tenta impor, a de que o Estado tem o direito de interferir na minha privacidade e determinar as minhas escolhas. E, por fim, esterco mesmo, é o lixo da sua opinião ofensiva e repressora ao afirmar que “...No entanto, temos um deserto de ideias, um deserto de produção cultural. Isso é um problema no qual temos que pensar...”.

Em resumo: esterco cultural, lixo de pensamento é o próprio Marco Aurélio Top Top Garcia... Esta é a sua escolha, e a respeito, claro, afinal sou bastante democrático neste ponto. Ele tem o sagrado direito de ser e se tornar no lixo cultural que quiser e que bem entender. Ninguém deve se intrometer na sua escolha. Só não lhe cabe o direito de interferir nas minhas escolhas que, já se vê, são bem diferentes das dele...