Adelson Elias Vasconcellos
Nesta edição, publicamos um editorial do Estadão sobre a milésima vez em que o Brasil, depois de bancar o valente, afrouxou para os argentinos. Sempre lembrando de que somos parceiros e sócios no Mercosul, o país vizinho não se cansa de chutar protocolos e impor barreiras comerciais aos nossos produtos. De tanto apanhar, chega o dia em damos o troco: aplicar uma pequena parte de imposições comerciais das muitas que ele nos afligem. Pronto, lá vem chiadeira e choradeira. E, pronto também... Em seguidinha, aliviamos o chicote e nos deixamos levar. De onde nossos negociadores tiraram tanta valentia e tanta esperteza (!?) é que gostaria de saber.
Evo bateu pé, apropriou-se da usina da Petrobrás, colocou o exército lá dentro e rasgou um contrato bilateral. “Vamos discutir a relação”. E lá fomos nós, rabo entre as pernas, aceitar todas as imposições do boliviano. Neste ano, com o Brasil atingindo a auto suficiência de abastecimento de gás, a Bolívia mandou avisar: o Brasil deve continuar comprando o volume de gás previsto em contrato, mesmo sendo auto suficiente. Lá fomos nós de novo, aceitando novos preços e novas “exigências”. O contrato para Evo só vale quando ele se beneficia, apesar de haver dois lados de uma mesma moeda.
Mais recente, infringindo dispositivo constitucional, nos intrometemos em assuntos internos de Honduras concedendo abrigo e apoio ao golpista Zelaya, muito embora ficasse claro que o chapeludo foi deposto seguindo-se todos os ritos previstos na constituição hondurenha, por tentativa de golpeá-la. Lá se realizaram eleições livres e que já estavam previstas enquanto Zelaya fora presidente, observadores internacionais validaram a lisura com que as mesmas foram realizadas, o presidente eleito democraticamente já assumiu o poder, e o Brasil até agora não reconheceu o novo mandatário hondurenho.
Estes são apenas três fatos a demonstrar a fraqueza da nossa diplomacia. Lula e Amorin sairam mundo afora apregoando a liderança brasileira, exigindo assento permanente no Conselho de Segurança da ONU. Porém, quando instada a demonstrar esta liderança, quando cobrado para se exibir como país sério e confiável, o que apareceu foi apenas fragilidade além de uma estranha compulsão a formar alianças com regimes repressivos e ditadores, como Chavez, Fidel Castro e o maluco do Mahmoud Ahmadinejad.
Já falamos muito sobre o ridículo da atuação de Celso Amorin. É o nosso maior colecionador de derrotas e patetadas em nível internacional de toda a história brasileira. Ninguém nunca lhe chegou aos pés neste sentido.
Ontem, diante de mais um confronto do presidente iraniano com a comunidade internacional, cuja vitória eleitoral Lula rapidamente reconheceu em 2009, muito embora os próprios ayatolás admitissem a fraude, esta mesma comunidade cobrou do Brasil uma posição para impor sanções ao Irã. A pressão tem sido grande, e com justa razão: se os Estados Unidos tem seu arsenal nuclear, a exemplo da Rússia, isto se faz necessário muito mais como arma de persuasão do que de deliberado ataque a qualquer país. É muito mais uma questão de defesa do que de confronto contra quem quer que seja. Ahmadinejad, ao contrário, além de financiar claramente o terror no Iraque, Líbano e Israel, a quem jura destruir, é um maluco que age sem limites. Se a comunidade internacional permitir ao iraniano produzir armas nucleares, o confronto será inevitável. A que custo? O conflito poderá atingir proporções mundiais. E a ameaça com probabilidade de realmente acontecer é real.
Ontem, comentando o fato, afirmei que, não apenas a pressão sobre o Brasil se intensificaria, como ainda, em não se alterando a posição inicial do governo brasileiro, acabaríamos isolados.
Não é de hoje que a comunidade internacional observa atentamente o rumo que vem sendo dado à política externa brasileira. Por mais desculpas infames que o Itamaraty venha apresentar para defender seus “critérios” e “escolhas”, corremos o risco de sofrermos consequências desagradáveis em razão destas alianças injustificáveis a terroristas e ditadores.
Alinhar-se ao restante do mundo para impor sanções contra um país que ameaça a segurança mundial, não é um caso de submissão ao mundo civilizado. Primeiro, é uma questão de princípios, de valores, de respeito à nossa história. Em tempos outros, muito embora mantivéssemos relações amistosas com países enquadrados nesta categoria, jamais costurou-se aliança e contratos de cooperação mútua. Jamais nos imiscuímos em assuntos internos da política de outras nações, como foi o desastroso caso de Honduras.
O Itamaraty, é bom notar, não é um departamento interno do Petê, é uma instituição do Estado brasileiro. Neste sentido, não pode a política externa brasileira ser rebaixada a uma ideologização partidária de quinta categoria. Porque se assim for, acabaremos fechando portas que, amanhã, até por necessidade, será difícil reconquistar confiança para abri-las em favor do país. Por isso que nossa política externa sempre foi mais republicana do que partidária. E exatamente por isso sempre foi respeitada até pelas nações mais desenvolvidas.
O artigo do Reinaldo Azevedo (ver post abaixo), em seu conjunto, deixa clara a nossa opção pelo terrorismo, pelo autoritarismo, pela repressão, pelo esquerdismo bocó já naufragado e sepultado no restante do mundo, com as exceções de sempre como Cuba e Venezuela. Até o regime de terror da Coréia do Norte já acena uma busca de entendimento com o restante do mundo.
É doloroso ver que, no campo da diplomacia, podendo avançar uma liderança natural e respeitável, até pela seriedade como o mundo nos vê no campo econômico, pelos avanços obtidos no campo social, a dupla Lula-Amorin tenha optado pelo ranço do atraso.
Assim, dentro em pouco, os mesmos líderes mundiais que acenam reverências a Lula, o olharão como o presidente bananeiro de um emergente metido a besta que tentou no grito ser o que ainda não é: presidente sério de um país de respeito.
E este isolamento não tardará a acontecer. Aliás, já está acontecendo. Ao não concordar com sanções ao Irã, e apostar em negociação com quem não se dispõem negociar coisa alguma, a alternativa que resta qual é? Acertou quem pensou em conflito. A pergunta seguinte, e final, é apenas consequência: é isso que a comunidade internacional quer, um conflito de proporções imensuráveis, e para o qual o Brasil, direta e indiretamente, está dando seu apoio? Podendo escolher entre o bem e o mal, chutamos e descartamos o bem... Logo...