quarta-feira, agosto 18, 2010

Oposição que não faz oposição, não ganha eleição!

Adelson Elias Vasconcellos

Não tenho bola de cristal para adivinhar quem vencerá a eleição presidencial deste ano, se Dilma ou Serra. Creio que faltando cerca de 45 dias para o primeiro turno e com todo o período da propaganda eleitoral no rádio e televisão pela frente, nem o mais renomado comentarista político pode se atrever a vaticinar qual será o resultado final. Muito embora, existam por aí alguns “comentaristas” que mais parecem torcer do que analisar friamente a situação.

Contudo, o quadro atual, com Dilma ligeiramente à frente de Serra é indicativo de uma certa tendência de momento, e representa muito mais o intenso – ilegal e depravado – uso da máquina do Estado em favor de um partido político, do que propriamente fruto de uma campanha bem desenvolvida pela candidata de Lula.

De minha parte, por enquanto, posso afirmar ter os nomes daqueles em quem certamente não votarei. Dilma figura entre estes nomes. A meu ver, ela está muito longe de ser a presidente que o Brasil precisa. Não apenas por seu perfil pessoal, mas, sobretudo, por seu perfil ideológico.

É duro, para mim, ao menos, antever um Brasil sobre o comando desta senhora. Mesmo dentre os atuais candidatos, dá para escolher coisa um pouco melhor.

Mas não é apenas o uso ilegal da máquina e dos recursos do Estado, cuja ilegalidade apenas o TSE insiste em vendar os olhos para não ver, que explicam a dianteira da candidata do governo. Também a antecipação da campanha fora do prazo legal. Tudo conta em seu favor.

Porém, é a falta de oposição que explica este crescimento. Ora, oposição que não faz oposição, que se omite de fiscalizar e criticar as ações do governo Lula, poderia desejar melhor sorte? E, mesmo neste preâmbulo da campanha, a oposição continua e insiste numa estratégia vazia.

Não apenas na gestão dos serviços do Estado dá para bater duro no governo Lula. No plano institucional, o que não faltaram foram inúmeros escândalos de corrupção e sempre envolvendo gente graúda do PT, muitas das quais bastante próximas e íntimas de Lula. E você não percebe ninguém da oposição martelando em cima disto. Serra tenta não criticar Lula por temer que sua popularidade acabe produzindo efeito adverso.

Mas, venham cá: é possível fechar os olhos para o mensalão, os aloprados, as cartilhas, os gastos secretos cada dia mais crescentes da presidência, a fábrica de dossiês, o aparelhamento vergonhoso do estado, as alianças espúrias com o que existe de pior no cenário político do país, a política externa em alianças com os mais detestáveis e sanguinários ditadores do planeta, a clonagem vergonhosa de programas do governo anterior com a mudança apenas de apelido, afora as reformas que não se fizeram, o crescimento menor do que os países do mesmo porte, a deterioração das contas públicas, os pacs empacados, a agressão à fiscalização do TCU, a Gamecorp, afora os cadáveres insepultos dos quais Celso Daniel é o mais representativo, afora o crescente gigantismo do Estado sufocando com seu peso opressivo a sociedade que o sustenta com uma carga extorsiva de impostos, o crescente endividamento interno, dentre tantas outras safadezas cometidas nos porões e submundo do poder, onde a quebra ilegal de sigilo fiscal e telefônico dos adversários tem sido constantes? Sem falar na infra-estrurtura estrangulada do país, as repetidas tentativas de cerceamento da liberdade de expressão, a insegurança pública e jurídica, também, quase fugindo ao controle, o cada dia mais deficiente sistema público de saúde, isto tudo não é munição suficiente para colocar a candidata do governo no corner, inundando a opinião pública de informações preciosas da inconveniência de se ter Dilma na presidência? Contudo, nada disso é apresentado no discurso da oposição.

Ora, oposição que se nega a fazer oposição, não ganha eleição. Há uma avalanche de bons motivos para endereçar-se pesadas críticas ao governo Lula. Desde que assumiu, Lula vem encontrando uma oposição cada dia mais vazia, inconsistente, razão porque, sem tal contestação, a tendência é sua aprovação aumentar sem parar. O que a oposição parecer não se ter dado conta é que 90% da população não lê, não se informa, não acompanha o dia a dia dos dirigentes políticos do país. É evidente que a fabulosa e milionária fábrica de propaganda do governo federal acaba vendendo à sociedade uma visão distorcida de seus atos. Como todo o auto-retrato tende a ser colorido, e como a oposição tem se omitido de servir como canal de fiscalização e informação, fica fácil Lula mentir sem ser contestado. Tanto ele quanto sua candidata-criatura, Dilma Rousseff.

Querem um exemplo bem acabado do comportamento do eleitorado brasileiro? Ontem no blog do Noblat, constava uma declaração infeliz de uma eleitora de Alagoas. Dizia ela sobre sua preferência de votar em Fernando Collor: "Mesmo roubando, eu voto nele." O nome da eleitora informado pelo Noblat era Edineide Silva, uma simples dona de casa. Tal manifestação não é apenas um caso isolado. Iguais à dona Edineide existem milhões de eleitores que seguem o mesmo caminho. O “Apesar de...” pode até ser lamentável, e é sem dúvida, mas num país com grande e imensa massa de analfabetos e desinformados, as escolhas se fazem nunca pela competência mas sim por razões despropositadas como as da dona Edineide. Quantos milhões não estarão votando movidos pelo Bolsa Voto, ou melhor, Bolsa Família? Quem dentre seus beneficiados há de se lembrar do Bolsa Escola, ou o PETI (erradicação do trabalho infantil), dentre outros programas sociais os quais Lula junto tudo num único balaio, afrouxando as regras para ingresso com o propósito de expandir ao máximo o número de beneficiados?

Desde 2003, contudo, as oposições têm sido alertadas para sua candura e leniência em relação ao governo Lula. Jamais tiveram a coragem de defenderem as muitas conquistas do governo FHC, sobre quem Lula depositou todo o seu fel e repertório de maldades na tentativa de desconstruí-lo.

Lula e Dilma mentem, desbragadamente, todo o dia, a toda hora. E a oposição o que faz? Resmunga daqui, resmunga dali, nada muito exaltado, sem muita firmeza e só. Em terreno tão fértil, Lula vem deitando e rolando e, caso a oposição continue insistindo neste “devagar quase parando”, vai permitir a Lula empurrar, de forma imperial, goela abaixo do país, uma verdadeira impostura chamada Dilma Rousseff. E reclamar depois, já será tarde.

Passa da hora, portanto, a mudança de atitude, de discurso e de ação em favor do país por parte da oposição. Porque, se não o fizer, terá que engolir muito mais sapos gordos nos próximos quatro anos. Repito o título: oposição que não faz oposição, não ganha eleição.

Salta aos olhos de qualquer observador o quanto o povo repudia, por exemplo, a política externa do atual governo, ou mais propriamente, as alianças espúrias com ditadores e sanguinários mundo afora. Qual a reação da oposição?

E para fechar este artigo: há pouco, Lula afirmou que “...Quando tinha de fazer campanha contra o Plano Real, o povo votava no Real e eu me lasquei,,,”. Fosse Lula uma pessoa de caráter um pouquinho melhor e poderia ter acrescentado que ele e seu partido lutaram não apenas contra o Plano Real, mas tentaram sabotar todos os governos que desde 1985 o antecederam no Poder. E que, apesar de sua luta – e de seu partido – contra o Plano Real, acabou, por ironia, sendo beneficiado por todas as mudanças que então se produziram no País, porque, no fundo, são elas as garantidoras da nossa estabilidade econômica. Contudo, fizesse isto e, certamente, Lula não seria o cretino que se tornou,

Mas reparem que, ao mesmo tempo em que Lula faz este mea culpa, não se vê na campanha do Serra ninguém apontando justamente as inúmeras sabotagens praticadas por Lula e os petistas contra os governos anteriores. O que neste campo não faltam são verdadeiras montanhas de bons motivos para pressionar o governo atual e condená-lo.

Portanto, se o comando da campanha de Serra quer encontrar razões que justifiquem a ascensão da petista e queda do tucano nas pesquisas deve reconhecer que, grande parte da população, espera ouvir do candidato de oposição, opiniões e críticas contra as mazelas do governo petista, que são muitas. Enquanto Serra se mantiver esquivando-se desta briga, perderá terreno e não conseguirá evitar o naufrágio.