domingo, agosto 22, 2010

Petrobrás em perigo

Sebastião Nery

Lúcio Bittencourt, querido professor da Faculdade de Direito de Minas, fundador do PTB, deputado federal, senador, era um bravo nacionalista. Quando nós, estudantes, faziamos em Minas a campanha “O Petróleo é Nosso”, em 1953, convocamos um comício para a praça da estação e convidamos os parlamentares mineiros.
A polícia proibiu, alegando que era um comício dos comunistas. Nenhum deputado federal apareceu. Apenas alguns estaduais e dirigentes estudantis na praça cheia, cercada pela polícia. Lá na frente, servindo de palanque, vazio, um caminhão sem as laterais e, em cima, o microfone.

De repente, chega o deputado e já candidato a senador Lúcio Bittencourt, alto, magro, terno claro, bigodinho preto, e vai direto para o caminhão. Fomos juntos, A polícia não teve coragem de barrá-lo.

Lucio Bittencourt
Alguns de nós falamos. Ele pegou o microfone e começou:

- Ontem, chegando a Minas, li nos jornais que a polícia havia proibido este comício. Liguei para o governador Juscelino, ele me disse que eram ordens militares, do Rio. Confesso que tive dúvidas de vir. Mas à noite, dormindo, ouvi o povo me dizendo: - Vai, Lúcio! Vai! Vai!

E Lúcio foi. Deu um passo à frente e caiu embaixo do caminhão. Ainda tentei segurá-lo pela ponta do paletó, não adiantou. Desabou. Acabou o comício. No dia seguinte, no Palácio, Juscelino gargalhava:

- Eu bem que disse a ele: - Não vai, Lúcio, não vai! Não vai!

Não adiantou a repressão. O Congresso aprovou e, no dia 3 de outubro de 1953, Getulio promulgava a Lei 2004, criando a Petrobrás.

E em meio século a Petrobrás se fez o mais forte sinônimo de Brasil.

Newton Monteiro
Mas um dos mais experientes técnicos que ajudaram a construí-la, o engenheiro Newton Reis Monteiro, com pós-graduação em engenharia de petróleo pela Universidade de Stanford, nos Estados Unidos, competente funcionário da Petrobrás por 38 anos, de 1963 a 2001 e do corpo técnico da ANP (Agencia Nacional de Petróleo)de 2001 a 2008, faz um alerta grave:

1. - “A subordinação da Petrobrás a interesses políticos e eleitorais não é saudável. A carnavalização do pré-sal gera serias preocupações nos grupos técnicos, nos profissionais de carreira da empresa.A campanha para a exploração do pré-sal terá de ser revista. É necessário saber o que vai ocorrer no Brasil. Se o país continuar a crescer e o pré-sal continuar com projeções para dez anos, corremos o risco de perder a autossuficiência”.

Tecnicos
2– “De uns anos para cá, a Petrobrás perdeu grande parte do pessoal especializado. De acordo com a turma do recursos humanos, quase 50% do pessoal da Petrobrás tem cinco anos de experiência. São caras competentes, mas falta vivencia. Em petróleo há muito de empirismo e de experiência.”

3 - Nos anos 60, quando a gente entrava na Petrobrás, precisava fazer curso intensivo de inglês para poder falar com os chefes. Não vamos ter gente para tocar tanto projeto. Caso contrário, vamos voltar ao passado, quando entrávamos em uma plataforma e só tinha gringo”.

Capital
Nos últimos meses, com a desvalorização acionária, a Petrobrás teve o seu valor de mercado encolhido em US$ 52,9 bilhões. As incertezas e indefinições sobre o seu processo de capitalização pela emissão de novas ações no valor de US$ 50 bilhões vem afetando a valorização dos títulos.

O governo, acionista majoritário, não tendo recursos necessários para aportar no novo aumento de capital, optou, via Congresso, pela cessão, onerosa à Petrobrás, de reservas de petróleo e gás ainda a serem exploradas na camada do pré-sal, em volume equivalente a 5 bilhões de barris de óleo.

Até agora, a ANP, encarregada de identificar os reservatórios para a cessão onerosa, não se manifestou. E o que é fundamental: o volume de reservas exige certificação internacional. Vale dizer, na capitalização da empresa a União subscreverá as suas ações com saque no futuro, enquanto os acionistas minoritários subscreverão ações possuídas em dinheiro vivo.

Refinarias
Na área de refino, objetivos políticos expressados pelo próprio Presidente determinam investimentos desaconselháveis, como a construção de quatro novas refinarias no Maranhão, Rio Grande do Norte, Pernambuco e Rio.

Em 9 de junho, em Natal, Lula disse que “as novas refinarias em construção não seriam feitas se a decisão dependesse da Petrobrás.”

Lula investe contra os estudos e orientação técnica da empresa. que sustenta que as refinarias existentes atendem à demanda no Brasil. No jornal “Valor”, o próprio Lula afirmou que determinou a mudança dos planos da Petrobrás. Ao atropelar o parecer da empresa, que garante existir capacidade técnica mais do que suficiente nas atuais refinarias para atender à demanda,deixa uma bomba de efeito retardado que terá de ser desarmada.

Nos próximos anos, a Petrobrás se defrontará com o mais gigantesco programa de investimento petrolífero em todo o mundo. Para isso terá de agenciar recursos humanos, tecnológicos e financeiros crescentes. Competência e capacidade para esses desafios ela tem comprovado possuir.

Daí a necessidade de priorizar investimentos na exploração do pré-sal, expansão da Bacia de Campos, oleodutos, transportes, petroquímica, banindo a nociva subordinação da empresa a objetivos políticos e eleitorais.