segunda-feira, novembro 15, 2010

Charada a decifrar

J.R.Guzzo, Revista Veja

Em seu primeiro discurso como nova presidente da República, a candidata vitoriosa nas eleições presidenciais, Dilma Rousseff, disse uma porção de coisas interessantes. Prometeu que em seu governo não haverá compromisso com o erro, o desvio e o malfeito. Disse que não guarda ressentimento pela pancadaria que vem levando da mídia nos últimos meses, e que prefere “o barulho da imprensa livre ao silêncio das ditaduras”. Comprometeu-se com uma política econômica responsável, de combate à inflação e seriedade nas contas públicas. “O povo brasileiro”, afirmou, “não aceita que governos gastem acima do que seja sustentável.” Melhor do que tudo, talvez, fez votos de ser a presidente de todos os brasileiros, e não apenas dos que gostem dela. Já antes, num raro momento de luz de sua campanha, havia dito que um dos piores problemas do Brasil é o fato do governo ter uma “grande estrutura de fiscalização e uma baixa qualidade de execução”. Belas palavras, sem dúvida – quem poderia ser contra qualquer uma delas? O único problema, e trata-se de um problema de primeira grandeza, é saber o que disso tudo é real – ou seja, vai resultar em atos concretos da presidente eleita quando assumir o cargo – e o que é mera continuação das palavras ao vento usinadas de sua marquetagem política. Qual a Dilma que está valendo? A do discurso ou a da campanha?

A origem da dificuldade está nela mesma, e nos gestores de sua candidatura. Dilma Rousseff é um caso raro na política brasileira, talvez único de personagem que chega à Presidência da República sem ter precisado apresentar aos eleitores nenhuma justificativa lógica para ocupar o posto; vai presidir o Brasil a partir de 1º de janeiro de 2011 exclusivamente porque a maioria dos eleitores aceitou votar no que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva escolheu para ficar em sua cadeira no Palácio do Planalto. Dilma, como a maioria dos seres humanos, deve ter suas virtudes e defeitos, e é possível, inclusive, que as primeiras sejam maiores que os segundos. Mas não dá para distinguir uma coisa da outra: a nova presidente no empenho de apagar a si própria e desempenhar o papel de clone daquele a quem chama de “mestre” e “guia”, conseguiu esconder tão bem a pessoa que realmente é que acabou se transformando numa charada. Estamos, a partir de agora, em território não mapeado, jamais percorrido antes – e o país só vai descobrir quem, de fato, foi colocado na Presidência quando Dilma começar, na prática, a tomar decisões de governo.

De tudo o que se viu até agora, não há grande coisa que possa servir de pista útil para ter uma ideia mais clara do que nos espera. Dilma foi apresentada ao Brasil, conforme a conveniência do momento, como a bondosa mãe de todos nós, ou, no papel de implacável “gerente” dp “PAC”, como uma verdadeira águia da administração pública; aoa final da campanha, desempenhava os números de militante antiaborto e devota de Nossa Senhora Aparecida. O que há de comum entre essas imagens é o fato de serem todas inventadas – não é por aí, portanto, que se vai saber algo de realmente concreto sobre Dilma ou sobre aquilo que pensa. Não ajuda em nada, nesse nevoeiro, o notório enigma que é o currículo da presidente eleita. Um currículo é o que existe, na vida real para mostrar o que alguém fez ou não fez. Ter uma biografia é fácil; há redatores de sobra para escrever tudo o que se quiser, sobre qualquer pessoa. Difícil é a obra. Ou o cidadão tem a obra ou não tem. Se tem, a obra aparece; se não aparece, provavelmente é porque não existe. A lei não exige de ninguém experiência prévia, realizações de sucesso ou boas notas na escola para ser presidente da República. Mas Dilma foi apresentada todo santo dia, desde que Lula pôs seu nome no cenário eleitoral, como a autora de uma obra colossal. É aí, justamente, que temos o problema: onde está a obra?

É uma complicação, também, a circunstância de que a nova presidente trava, até o momento sem o maior sucesso, uma prolongada rixa com a língua portuguesa, cujo resultado mais visível, quando fala sem ter à frente um texto por escrito, é a produção de frases inteiras que não fazem sentido.

Soma-se a isso a rigorosa dieta mental imposta a ela pelo dono da sua candidatura e pelos tutores de sua campanha e o resultado é a frequente escassez, nas falas de Dilma, de qualquer pensamento coerente.

A partir de agora, Dilma Rousseff não precisa mais de marqueteiros, nem de Lula, para ser eleita: pode ir revelando, quem é. Esperemos.