Thomas Pappon, BBC Brasil
Não bastou a Colombo ter descoberto as Américas e a pimenta. O grande navegador genovês a serviço da corte espanhola também nos trouxe o peru, a ave que na Europa viria a se consagrar como a grande pedida do Natal.
Colombo chegou a batizar a ave de ‘galinha da Índia’ por acreditar que tinha descoberto as Índias. Aliás, o nome em francês poulet d’Inde deu na abreviação dinde, como é chamado o peru até hoje na França.
O nome em inglês turkey tem a ver com a Turquia sim. No século 16, os ingleses (e europeus) chamavam de turkey fowl tipos de galinha-d’angola vindos da África, que entravam no continente através da Turquia.
E o nome em português peru vem de Peru, o país. No século 16 acreditava-se em Portugal que a ave era importada do Peru, então colônia espanhola.
O fato é que, ao longo dos últimos três séculos, o peru foi aos poucos dominando a ceia de Natal em tudo que é lugar, pelo menos no Ocidente. Na Grã-Bretanha ele desbancou o ganso no século 19, e há acadêmicos que dizem que o sucesso do Conto de Natal, de Charles Dickens – quem não lembra do cardápio clássico na mesa dos Cratchit e de Ebenezer Scrooge pedindo que um garoto compre, para ele, ‘o maior peru’ do açougue local –, ajudou nisso.
Mas há bolsões de resistência ao domínio do peru. Li no Independent nessa semana que vários países cristãos preferem peixes ou carnes cozidas.
Nos Bálcãs, come-se repolho recheado ou um cozido com carnes e repolho, e as sobras são aproveitadas por vários dias. Na Letônia, a ceia consiste em um cozido de porco com feijão e uma seleção de repolhos, tortas e salsichas. Na República Tcheca, serve-se carpa frita com salada de batata. Nas Filipinas , na noite do dia 24, a pedida é presunto acompanhado de queijo-bola e chocolate quente. Em Portugal, sabemos que Natal é época de bacalhau com batatas.
E chamem-me de francófilo, mas, na boa, nada bate o Natal à moda francesa, com ostras, patê de fígado e queijos. Eles comem peru, sim, mas ouvi relatos de que o que marca mesmo a gastronomia local nessa época de festas de fim de ano são as caixas e caixas de ostras expostas pelas ruas das cidades francesas.
Um Natal repleto de ostras. É o que desejo a vocês, caros leitores do BBC à Mesa.