Ricardo Setti, Veja online
Dilma e o governador Sérgio Cabral posando com a camisa do Fluminense
no estádio das Laranjeiras, logo após o sobrevoo à tragédia da região serrana do Rio
Tal como prometido aos amigos do blog, relaciono em seguida 11 aspectos do novo governo de que, apesar de a presidente Dilma Rousseff estar há menos de 3 semanas no cargo, não gostei ou não estou gostando. É claro que é cedo demais para qualquer julgamento sobre o novo governo.
Falo de indícios, de tendências e impressões. Então, não gostei ou não estou gostando:
1 – Do Ministério chinfrim, mixuruca, escolhido pela presidente. Pelo menos dois terços dos ministros são inexpressivos, virtuais desconhecidos e detêm currículos na melhor hipótese medianos.
2 – De Dilma exagerar, citando o ex-presidente Lula 13 vezes em seu discurso de posse, no Congresso. Homenagear seu benfeitor, tudo bem. Estar a um passo da subserviência, porém, não é adequado a uma presidente da República.
3 – Da incompreensível, inteiramente dispensável e muito pouco desejável manutenção do professor Marco Aurélio Garcia como “assessor especial para assuntos internacionais”. Além de ter sido um dos formuladores da política externa conduzida por Lula – que incluía dar caneladas nos grandes países capitalistas, sobretudo os Estados Unidos, abster-se de condenar violadores de direitos humanos na ONU e uma nefasta aproximação com ditaduras como as de Cuba, da Venezuela e do Irã –, o “assessor especial” acaba se constituindo em fonte potencial de conflitos com o Itamaraty. Para que Marco Aurélio para quem dispõe, como chanceler, de um diplomata profissional experiente, como o ministro Antonio Patriota?
Marco Aurélio Garcia:
presença no governo inteiramente dispensável
4 – De Dilma ter se sujeitado a um ato constrangedor em meio à tragédia que assola o Rio: posar ao lado do governador Sérgio Cabral, com sorriso amarelo, ostentando diante do corpo a camiseta do Fluminense, em cujo campo de futebol seu helicóptero pousou – justamente na volta do sobrevôo à região serrana arrasada pelas chuvas.
É evidente que a presidente não quis molestar ninguém com o fato, mas tratou-se de um péssimo gesto de relações públicas. Faltou a Dilma jogo de cintura para, polidamente, recusar a oferta da camiseta feita pelo vice-presidente do Flu, José Mohamed, deixando claro que esse tipo de foto, nas circunstâncias, não cabia. Onde estava a assessoria da presidente naquele momento?
5 – Do fato da presidente ter jogado a toalha quanto à iniciativa de uma reforma tributária, indispensável para baixar o “custo Brasil” dos produtos que exportamos, melhorar o desempenho e a competitividade das empresas, tornar menos infernal a vida dos cidadãos e diminuir a sonegação. O argumento de que o empenho por uma reforma teria um alto custo político e faria o governo gastar uma energia que poderia ser mais bem utilizada em outras questões é absurdo: justamente para enfrentar os grandes desafios é que são eleitos os governos.
6 – Do fato de a presidente haver arremessado a toalha também quanto à iniciativa de uma reforma política, apesar da importância que conferiu ao assunto em seu discurso de posse. Pior do que jogar a toalha: há sinais de que acabará delegando a Lula a coordenação das articulações para uma reforma política.
7 – Da recusa do BNDES, já sob o governo Dilma, a fornecer informações sobre a redução das exigências para conceder um empréstimo de 4 bilhões de reais à empresa petroleira estatal da Venezuela, a PDVSA. Para proteger os interesses de seu controlador, que é o governo, e dos verdadeiros donos de boa parte do dinheiro que empresta, que são os trabalhadores brasileiros via recursos do Fundo de Amparo ao Trabalhador (FAT), o BNDES exige de tomadores de empréstimos vultosos a apresentação de cartas de fiança de grandes bancos com prazo de validade de 20 anos. Para a empresa do companheiro Hugo Chávez, o banco inclina-se a aceitar cartas de fiança com validade de apenas 5 anos – mais do que isso a estatal venezuelana não consegue, devido ao caos técnico e operacional que vive.
8 – Da festa que Dilma fez, na cerimônia da posse, para sua sucessora na Casa Civil, Erenice Guerra, catapultada do cargo por tê-lo transformado num balcão de oferta de facilidades para seus parentes fazerem negócios. Os sorrisos e beijinhos entre as duas trombaram de frente com a solene declaração da presidente no discurso de posse: “Serei rígida na defesa do interesse público. Não haverá compromisso com o erro, o desvio e o malfeito. A corrupção será combatida permanentemente, e os órgãos de controle e investigação terão todo o meu respaldo para aturem com firmeza e autonomia.”
Dilma e Erenice Guerra na cerimônia de posse:
sorrisos e beijinhos com a responsável por transformar
a Casa Civil num balcão de facilidades
9 – Da decisão do Itamaraty de estabelecer cotas para candidatos negros ao Instituto Rio Branco, escola de formação superior dos diplomatas. Onde fica a meritocracia que a presidente Dilma diz defender?
10 – No mesmo sentido, da proposta da ministra da Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial, Luiza Bairros, para que haja cotas para candidatos negros nos concursos públicos em todos os ministérios. Quer dizer, se adotadas as cotas, não teremos garantia de contratação dos melhores candidatos a funcionários, independentemente da cor de sua pele.
11 – Da esdrúxula reunião que a presidente manteve antes da posse com os comandantes do Exército, da Marinha e da Aeronáutica, quando lhes cobrou ou pediu, conforme a versão, lealdade e a “não glorificação” do golpe de Estado de 1964. Lealdade dos comandantes militares à presidente é obrigação estabelecida na Constituição. Ela é comandante suprema das Forças Armadas, e fim de conversa. E, como tal, não precisa pedir nada sobre o golpe de 1964 – mas só ordenar.


