terça-feira, fevereiro 14, 2012

"Pense grande, comece pequeno, ande rápido"

Nathalia Goulart, de Veja online

Essas são as palavras de ordem para Caio Braz, de 22 anos, criador de startup que ensina inglês a brasileiros das classes C e D – e dá lucro

D Sharon Pruitt/Creative Commons
Com menos de um ano de vida, a empresa de Caio Braz
 já foi eleita uma das 20 melhores startups da América Latina

São Paulo - Ainda menino, o carioca Caio Braz, hoje com 22 anos, alimentava o desejo de mudar, em alguma medida, o mundo. A chave para a ação, contudo, só apareceria anos depois, quando Caio topou com uma frase proferida por Guy Kawasaki, uma das mais importantes figuras do Vale do Silício, polo americano das indústrias de tecnologia: "Tente resolver um problema seu e você estará resolvendo um problema da humanidade". Imediatamente, o jovem se voltou a seus problemas. "'O inglês é o meu problema', pensei.

Eu sempre fui bom em matemática, mas não aprendera inglês'." Assim, surgiu o Backpackers, curso on-line do idioma, que utiliza o conceito de edutainment, combinação de educação e entretenimento. Voltado a estudantes das classes C e D, o negócio é rentável e, com menos de um ano de vida, já foi citado como uma das vinte melhores startups – as nascentes empresas de inovação – da América Latina.

De fato, a Backpackers pode empreender mudanças que Caio tanto almejava. Segundo a empresa de recrutamento Catho Online, profissionais que falam inglês têm um incremento salarial da ordem de 18%. "As pessoas das classes C e D precisam, em especial, de capacitação para crescer profissionalmente", diz Caio. "Importantes ferramentas de informação, como a internet, exigem a compreensão do inglês. Para quem não fala o idioma, esse é um mundo em preto e branco."

De família modesta, Caio ingressou em 2007 no Instituto Tecnológico de Aeronáutica, o ITA, uma instituição de excelência, como bolsista da Fundação Estudar – que, neste ano, em parceria com VEJA, promove o Prêmio Jovens Inspiradores, que vai selecionar estudantes ou recém-formados com espírito de liderança e compromisso permanente com a busca da excelência: os vencedores ganharão iPads, bolsas de estudo no exterior e um ano de orientação profissional com nomes de destaque do meio empresarial e político (mentoring).

Um ano depois de entrar no ITA, no curso de engenharia mecânica, Caio criou uma organização de ex-alunos da universidade e os convenceu a investir em projetos em desenvolvimento na instituição. É um modelo de financiamento muito comum nos Estados Unidos, mas ainda raro no Brasil. É também uma maneira de profissionais que se destacam no mercado colaborarem com as instituições que os ajudaram a se formar. Mas Caio queria mudar mais coisas a seu redor.

Mergulhado em discussões sobre responsabilidade socioambiental, decidiu se dedicar ao assunto durante um ano da vida, em 2009. Trancou matrícula no ITA pelo período e seguiu para Santa Catarina com outros 300 jovens com um só objetivo em mente: ajudar a reconstruir seis cidades afetadas pelas enchentes que devastaram parte do estado no ano anterior.

Aos 19 anos, palestrava para prefeitos e lideranças regionais sobre gerenciamento e utilização de recursos naturais. Voltou ao ITA transformado. Decidiu levar a responsabilidade social ao mundo dos negócios: buscava não só um projeto que desse lucro, mas algo que exercesse impacto no país.

A inspiração veio do bengalês Muhammad Yunus, pai do conceito de microcrédito – o empréstimo de pequenas quantias de dinheiro a pessoas muito pobres, que teriam dificuldades para levantar qualquer montante em bancos convencionais. Em 1976, quando ainda era professor universitário, Yunus fez a primeira experiência desse tipo ao oferecer 27 dólares a um grupo de 42 artesãos.

A soma exígua foi suficiente para que eles comprassem matéria-prima, vendessem sua produção de tamboretes de bambu e garantissem a continuidade do negócio. Animado com as possibilidades que a iniciativa apresentava, o intelectual virou banqueiro no ano seguinte. Fundou o banco Grameen, que significa "banco da aldeia" em bengali, e passou a fomentar a atividade econômica local.

O interesse por Yunus levou Caio a Bangladesh. Também o levou a criar a rede Pólens. Ele enviou um e-mail a cerca de 50 amigos sobre suas ideias e, em seguida, criou uma rede de interessados em criar negócios com objetivo de reduzir a pobreza e, ao mesmo tempo, gerar renda. Atualmente, a rede envolve quase 200 jovens e atende pelo nome de Polinize. O resto da história é conhecida: nasceu a Backpackers, uma parceria entre Caio e dois amigos. "Sei que as minhas ações tiveram um componente fundamental: o estudo. Se eu não tivesse ingressado no ITA, não seria capaz de montar esse negócio. Foram o estudo e o ambiente da universidade que me deram o empurrão para o empreendedorismo e a liderança."

Para aqueles que também pensam em promover alguma mudança no espaço a seu redor, Caio reserva uma outra frase, desta vez proferida por Fábio Barbosa, presidente do Grupo Abril, que publica VEJA. "Pense grande, comece pequeno, ande rápido."