quarta-feira, fevereiro 29, 2012

Vocês acreditam na seriedade do governo de Cristina Kirchner na Argentina? Pois vejam as maracutaias com estatísticas

Ricardo Setti, Veja online


Amigos do blog, há, entre os leitores, alguns admiradores fanáticos do kirchnerismo na Argentina — uma mistura de populismo com autoritarismo, de com pitadas de esquerdismo demagógico, concebida pelo falecido presidente Néstor Kirchner (2003-2007), a que deu continuidade a partir de 2007 sua mulher, a ex-senadora e hoje presidente Cristina Fernández de Kirchner.

Pois bem, vejam só o que diz a respeitadíssima revista britânica The Economist, um pilar de seriedade e credibilidade no trato de questões de economia e finanças, a respeito das manipulações estatísticas que o governo de Cristina realiza, com péssimas intenções.

O título da matéria, calcado no refrão da famosa canção do musical Evita:

“Não minta para mim, Argentina”

Imagine um mundo sem estatísticas. Os governos iriam mergulhar na escuridão, os investidores perderiam dinheiro e eleitores iriam engalfinhar-se para que seus dirigentes lhes prestassem contas.

É por isso que The Economist publica mais de 1.000 cifras de uma série de países toda semana, a respeito de temas como produção, preços e empregos. Não podemos ter certeza de que todos esses números sejam confiáveis. Os órgãos de estatísticas variam em relação a sua sofisticação técnica e sua capacidade de resistir a pressões políticas. Os números da China, por exemplo, podem ser marotos; a Grécia subdimensounou seu déficit, com consequências desastrosas. No geral, porém, os estatísticos de governos obtêm seus números de boa fé.

Há uma gritante exceção. Desde 2007, o governo da Argentina vem publicando índices de inflação em que quase ninguém mais acredita.[Autoridades] dizem que os preços subiram entre 5% e 11% por ano. Economistas independentes, funcionários de órgãos de estatística das províncias argentinas e levantamentos sobre expectativas de inflação, porém, asseguram, todos eles, que o índice real é mais do que o dobro do que dizem os números oficiais. (…)

O que parece ter começado como um desejo de evitar manchetes negativas num país com uma história de hiperinflação acabou levando ao aviltamento do INDEC, que um dia foi um dos melhores institutos estatísticos da América Latina.

Sua sede está atualmente coberta de cartazes de apoio à presidente Cristina Fernández de Kirchner. Técnicos independentes foram substituídos por outros que se auto-designam “cristinistas”. Num extraordinário abuso de poder por parte de um governo democrático, economistas independentes foram forçados a para de publicar suas próprias estimativas de inflação por meio de multas e ameaças de serem processados. Preços e indicadores adulterados fraudaram em bilhões de dólares detentores de títulos vinculados aos índices de inflação.

Não vemos qualquer perspectiva de um rápido retorno a números críveis. O secretário argentino do Comércio, Guillhermo Moreno, que conduziu o assalto ao Instituto Nacional de Estadísticas y Censos (Indec), continua sendo um dos assessores mais próximos da presidente. O FMI assinalou que a Argentina tem faltado à sua obrigação de proporcionar-lhe números confiáveis, fez recomendações e estabeleceu prazos para que isso seja feito. A Argentina, porém, ignora recomendações e prazos, o Fundo apenas torce as mãos, lamenta a “ausência de progressos” — e debilmente fixa novos prazos.

Em 2010, nós acrescentamos uma nota de advertência [sobre a Argentina] em nossos quadros estatísticos. A partir desta semana, decidimos abrir mão completamente dos números do Indec.

Estamos cansados de ser parte do que parece ser uma deliberada tentativa de enganar eleitores e fraudar investidores.

Para datos sobre preços ao consumidor na Argentina, nos basearemos agora na PriceStats, uma empresa especializada em inflação, que produz número sobre 19 países publicados pela State Street, uma empresa de serviços financeiros.

Se tivéssemos nos voltado para um dos institutos de estatística das províncias argentinas que ainda produzem números confiáveis, tememos que ele passaria a sofrer pressão do governo.

Um dos melhores analistas independentes do país nos fez uma generosa — e corajosa — oferta para fornecer seus dados, mesmo contra a opinião de seus advogados e sob a condição de que ocultássemos a fonte e disfarçássemos um pouco os números. Isso, porém, certamente geraria confusão.

A  PriceStats tem sede nos Estados Unidos, e está além do alcance do governo argentino. A grande quantidade de preços on-line em que se baseia é a prova de adulteração. A Argentina vai sem dúvida alegar que a empresa mede o consumo dos ricos, e não dos pobres, que podem não comprar pela internet. Nas os métodos da PriceStats são baseados em pesquisa sólida e rechecada por especialistas (…).

Esperamos poder em breve voltar a recorrer a um índice de preços ao consumidor oficial na Argentina.

Para isso, seria necessário que o Indec fosse dirigido por estatísticos independentes, trabalhando com liberdade. Até então, os leitores estarão mais bem servidos por números não oficiais, mas com credibilidade, do que estariam por indicadores espúrios.