Adelson Elias Vasconcellos
Dei uma passada pelos principais sites de notícias e alguns blogs, os mais sérios é claro, e pude perceber certa indignação no ar contra a lei geral da copa que está sendo votada no Congresso. Muitos não aceitam ao que chamam de intromissão da FIFA na institucionalidade do país.
Gente, vamos por partes. Em primeiro lugar, ninguém obrigou o Brasil a fazer todo aquele movimento, de norte a sul, para ser a sede escolhida para 2014. E, surpresa, TODAS, repito, TODAS as imposições, contra as quais alguns agora se rebelam, eram conhecidas antes da candidatura ser postulada. Todas as autoridades envolvidas, políticas e esportivas, sabiam e conheciam os cadernos de encargos antes do anúncio final. Portanto, se o Brasil aceitou participar da corrida para receber a Copa do Mundo em 2014, é porque concordava com os termos e exigências impostas pela FIFA. E, tanto quanto eu lembre, ninguém e até dentre os indignados de agora, levantou a voz para protestar. Por que só agora?
Também sou contra bebida alcoólica nos estádios. Mas fui e sou contra que o Brasil recebesse a Copa do Mundo agora, por entender que não estávamos preparados e que o valor que seria gasto era imprescindível em outras áreas. Entendia, e continuo entendendo que o Brasil deveria se preparar melhor, e postular uma candidatura tendo resolvido algumas questões de infreaestrutura, por exemplo. Sequer para a Copa a questão dos aeroportos estará resolvida. E este é um problema já bem antigo que o governo petista vem empurrando com a barriga sem dar solução.
Visitem o arquivo do blog, e vocês encontrarão lá atrás todas estas questões lá expostas. Não é novidade. Vejam o caso dos estádios. Os valores não param de aumentar, como o último tapa no orçamento motivado pela grama natural, que já era do conhecimento de todos, e que agora o Brasil quer tapear e arranjar um jeito de, na Copa das Confederações, adaptar um tipo diferente, para cumprir a exigência apenas na Copa do Mundo. Lembram-se que se dizia que não haveria dinheiro público nos estádios? Pois então, é só isto que existe e está sendo aplicado, dinheiro público. O único estádio que está sendo construído sem dinheiro público é a nova Arena do Grêmio, de Porto Alegre, mas é o único não convidado para a festa.
Vejam o caso dos aeroportos. Acreditem, não há milagre que recupere o tempo perdido. E tem mais os investimentos em mobilidade urbana, comunicações, rede hoteleira, e por aí vai. E que tal falarmos da tão prometida "transparência" de gastos? O site oficial do governo não é atualizado desde novembro!!!! Surpresa? Nenhum pouco, tudo era terrivelmente previsto, sabíamos que seria assim, mas teimamos em acreditar que talvez não fosse.
Continuo defendendo que a quantidade de cidades-sedes que o Brasil exigiu, 12 no total, era uma insanidade. O Brasil poderia perfeitamente até dar conta do recado se apresentasse metade disso. Racinalizaria os investimentos, com melhor retorno para as subssedes escolhidas, já que abrigariam maior número de jogos. Tem cidades que estão gastando uma fortuna para receberem não mais do que 3 ou 4 jogos insignificantes. Em consequência, o Maracanã, templo do futebol brasileiro, somente assistirá nossa seleção uma vez, e assim mesmo se chegarmos à final.
Portanto, esta certa indignação quanto à lei geral da Copa é um choro com pelo menos quatro anos de atraso. Deveríamos ter discutido isto lá atrás, antes de assinar com a FIFA qualquer compromisso. O mesmo se pode dizer quanto a lei que facilitou a realização de obras, passando por cima da lei de licitações. Além, é claro, da desoneração sobre tudo o que envolve o evento. Repito, todas estas condições foram aceitas pelo Brasil quando se meteu nesta aventura.
É claro que a FIFA acabará aceitando alguns arremedos que não comprometam a realização do evento. Por exemplo, a questão do país ter que assumir os prejuízos decorrentes de acidentes naturais. Hoje, o governo faz jogo duro, querendo que a FIFA assuma ou no todo ou em parte os prejuízos. Imposição atrasada e fora do lugar. Era uma das questões do caderno de encargos com os quais o país concordou ao postular sua candidatura. Reclamar agora? Dizer que não vai aceitar? Que não concorda, que é um absurdo e coisas que tais é pura conversa fiada. O país já está obrigado a tudo isso, e o responsável (ou seria o irresponsável?) por toda a baderna institucional decorrente da realização da Copa em nosso país chama-se Lula, então presidente do Brasil, que concordou com tudo isso. Pensava não nos benefícios para o povo brasileiro, mas apenas em seu capital político. Se haveria dinheiro suficiente, se os investimentos acarretariam prejuízos ou não, isto para ele pouco importava. Compensava, na sua estreita visão de estadista de araque, o lucro político que poderia tirar da empreitada.
Agora, temos uma missão a cumprir e por mais dolorosa que seja precisaremos reduzir todas as “mudanças” que estamos fazendo a transitoriedade da copa do Mundo. Terminado o evento, o país volta ao seu normal e a vida continua. Assim, creio ser um pouco tarde para o país acordar se esta ou aquela exigência é pausível ou não. Deveriam ter visto isto tudo antes, como também deveriam ter medido as consequências para o país desviar tanto dinheiro público da educação, segurança, saúde, saneamento e infraestrutura para bancar jogos de futebol. Deveriam ter acordado antes, e não quatro anos depois, para a realidade de nossa infraestrutura deficiente e caótica. E o que é pior: sem um plano de ação coerente à disponibilidade dos recursos do país. Como, ainda, deveriam ter refletido melhor no absurdo de se impor ao país o sacrifício que seria preparar doze cidades ao invés da metade, para abrigar o evento.
E aí fica a lição: precisamos medir melhor a nosa megalomania. Nossa arrogância. Nossa mania de acharmos que somos melhores, que podemos fazer melhor do que outros, quando, na verdade, não passamos de um país ainda pobre, sem estrutura, sem recursos suficientes, com imensas deficiências básicas, que não aprendeu a se planejar em relação ao seu proóprio futuro. Talvez a copa sirva ao menos para isso:para mostrar ao Brasil o próprio Brasil, sua real dimensão e o quanto estamos distantes para nos equipararmos a nações mais desenvolvidas.
Porque, na verdade, todo o projeto que apresentamos para a FIFA como sendo obra pronta, não passava mesmo de mera fantasia, meros projetos, extensas e bonitas cartas de intenção, distante, muito distante da nossa própria realidade e capacidade de construção. Talvez alguns se sintam ofendidos com a verdade dolorosa para a qual o país pouco a pouco vai despertando. Mas antes tarde do que nunca. Precisamos parar de sonhar e andar com os pés mais no chão. A isto se chama amadurecimento. E, acredito, para o próprio brasileiro seria muito melhor assistir a Copa na televisão, mas podendo ter saúde decente, transporte urbano decente, aeroportos decentes, rodovias decentes, saneamento básico suficiente. Este sonho, sim, é o de que mais precisamos, e não seria nenhuma vergonha adiar o outro, o da Copa, por mais alguns anos.
E não se culpe só a megalomanaia de Lula: políticos, esportistas, grande parte da imprensa e os próprios brasileiros queriam a Copa aqui. Esqueceram de avaliar que isto tinha um preço. Chegou a hora de pagar por ele e não ficarem reclamando algo que poderiam ter recusado lá atrás. O choro agora chega um pouco tarde demais.