terça-feira, fevereiro 28, 2012

A estupidez contra o idioma

Comentando a Notícia

Era só o que faltava: no país que já tentou censurar Monteiro Lobato, que já manteve sob censura um órgão de imprensa apenas porque ele divulgou “mal feitos” de um antigo clã nordestino cujo estado vive com um dos piores IDHs do país, estava faltando mais uma preciosidade na imensa coletânea de ataques à liberdade de expressão: censurar o dicionário.

Pois é, gente, esta estupidez não falta mais. Simplesmente, o Ministério Público, em Juiz de Fora, quer agora que a Justiça determine a retirada de circulação de ninguém menos do que o Dicionário Houaiss, um dos mais tradicionais e completos dicionários da Língua Portuguesa.  

A alegação para o pedido imbecil é que o  dicionário contém expressões "... pejorativas e preconceituosas, pratica racismo aos ciganos e não atendeu recomendações de alterar o texto, como fizeram outras duas editoras com seus dicionários...”

Bem, eu tenho um exemplar do dicionário Houaiss e, a menos que esteja enganado, um dicionário nada mais é do que o conjunto dos vocábulos dispostos em ordem alfabética e contendo a sua respectiva significação. Assim como o dicionário contém o vocábulo merda, tem também o significado para burrice, ignorância, estupidez, imbecilidade, analfabetismo, intolerância, gordo, magro, negro, baiano, gaúcho, patético, e todos estes termos  poderão ter um ou mais significados, que nada mais são do que os significados que a linguagem popular lhes atribuiu, às vezes sequer guardando qualquer semelhança ao significado culto.  Assim como seu emprego pode não representar coisa alguma, ser apenas uma forma de expressão, eles todos poderão ser empregados com sentido pejorativo. E, daí, vão querer retirá-los todos, também? E, sinceramente, adoraria saber em que ponto das 917 páginas do meu exemplar se configura prática de racismo! 

Não admira que os livros didáticos admitidos nas escolas brasileiras estejam repletos de erros grosseiros de matemática, linguagem, história e até ciências. Não se admira, ainda, que haja livro ensinando que não é errado falar errado, ou seja, que ser ignorante pode não guardar nenhuma semelhança com ignorância. 

Com tamanho apetite para estupidez, também, não admira que nossos jovens se classifiquem nos últimos lugares nas provas de avaliação internacional nos quesitos de leitura, matemática e ciências. Com este espírito de porco que viceja no país,  não há nível de ensino que consiga evoluir, melhorar, qualificar-se.

Ora, senhores, para quê serve então um dicionário se não é para expor os diferentes significados em que os vocábulos são usados pelo linguajar corrente?  Será que o termo “veado”, por exemplo,  que popularmente é atribuído   aos “homoafetivos” deverá ser banido do idioma, apenas por que as pessoas lhe atribuem um significado pejorativo? Não é o dicionário que está politicamente incorreto em ofender o animal.  São as pessoas que fazem uso de seu idioma da maneira que bem entendem, ou será que o Ministério Público deseja banir o povo também? Ou irá proibir o povo de falar? Ou exigirá que a Justiça determine que o idioma no país mude sei lá, para tupi-guarani, ou até inventem um novo, só para o Brasil, tipo tupiniquim? O álcool, por exemplo, tanto pode ser usado para o bem ou para mal. Os vocábulos da mesma forma, depende do sentido que as pessoas os empregam. E, se ao falar, a pessoa expressar, aí sim, algum tipo de racismo ou discriminação, neste caso, senhores, não são os vocábulos que deverão ser presos, e sim a pessoa que os empregou para atingir a honra ou caráter de alguém. E, neste caso, o dicionário não tem culpa alguma do mau instinto de certos indivíduos.  

O que parece faltar a certos servidores públicos é algo de mais útil para fazer para o bem do país e, assim,  passam, em sua ociosidade, a se dedicar a inventar “tragédias” e “casos” apenas para terem com o que se ocupar. 

O dicionário, pelo papel que lhe cabe representar, conterá,OBRIGATORIAMENTE, todos os vocábulos empregados em um idioma e, OBRIGATORIAMENTE, deverá indicar os diferentes significados com que cada um dos vocábulos é empregado. Do contrário, senhores do Ministério Público, o dicionário deixará de ser dicionário para se tornar um libelo ideológico que, no frigir dos ovos, me parece ser o desejo dos que pleiteiam, na justiça, a retirada de circulação do dicionário Houaiss. 

Caramba, um país onde não se consegue ter segurança mínima, e o Ministério Público quer se preocupar com o conteúdo correto de um dicionário respeitado e respeitável? Vão combater a criminalidade, gente boa, vão por na cadeia os corruptos que pipocam às centenas e que desviam bilhões de reais dos cofres públicos, dinheiro, aliás, que é tirado do povo mas que não retorna a ele em segurança pública, por exemplo. Será que faltam bandidos para prender?  Será que o crime organizado já foi banido de nosso território? Deixem de atacar o idioma pátrio, deixem de censurar a liberdade de expressão, deixem de lado os holofotes dos quinze minutos de fama e tratem de devolver ao povo a segurança que lhe foi tirada e que lhe é negada. 

No exemplar do Houaiss que tenho, por exemplo, o vocábulo cigano vem acompanhado de três significados. Um, o primeiro, é o significado histórico do termo e descreve a origem do povo cigano. Os demais são figurados e empregados de norte a sul no país, muito embora, nas últimas décadas, um destes “sentidos figurados”, o que associa o termo à velhacaria, venha perdendo força, até por conta da redução no número de ciganos. 

Uma observação: racismo, gostem ou não, legal ou ilegal, crime hediondo ou não, é um vocábulo do nosso idioma. Até porque, o uso da expressão pode não ter relação com o sentimento que, este sim, poderá ser racista, pejorativo, agressivo, maldoso, discriminatório, calunioso e outras maldades mais. Ou será que agora por que o sentimento pode ser racista, vão querer arrancar a alma dos maus indivíduos que o cultuam? Em nome de uma causa ideológica, vão querer bani-lo do dicionário também? É impressionante como a estupidez vai tomando conta do país.   

A seguir, o texto de Marcelo Portela para  Agência Estado.

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MPF quer tirar de circulação o dicionário Houaiss
BELO HORIZONTE - O Ministério Público Federal (MPF) entrou com ação na Justiça Federal em Uberlândia (MG) para tirar de circulação o dicionário Houaiss, um dos mais conceituados do mercado. Segundo o MPF, a publicação contém expressões "pejorativas e preconceituosas", pratica racismo aos ciganos e não atendeu recomendações de alterar o texto, como fizeram outras duas editoras com seus dicionários.

O caso teve início em 2009, quando a Procuradoria da República recebeu representação de uma pessoa de origem cigana afirmando que havia preconceito por parte dos dicionários brasileiros em relação à etnia. No Brasil, há aproximadamente 600 mil ciganos. Desde então, segundo o MPF, foram enviados "diversos ofícios e recomendações" às editoras para que mudassem o verbete. As editoras Globo e Melhoramentos, de acordo com o órgão, atenderam às recomendações.

No entanto, o MPF afirma que não foi feita alteração no caso do Houaiss. A Editora Objetiva alegou que não poderia fazer a mudança porque a publicação é editado pelo Instituto Antônio Houaiss e que ela é apenas detentora dos direitos relativos à publicação. Diante disso, o procurador Cléber Eustáquio Neves entrou com ação solicitando que a Justiça determine a imediata retirada de circulação, suspensão de tiragem, venda e distribuição do dicionário.

"Ao se ler em um dicionário, por sinal extremamente bem conceituado, que a nomenclatura cigano significa aquele que trapaceia, velhaco, entre outras coisas do gênero, ainda que se deixe expresso que é uma linguagem pejorativa, ou que se trata de acepções carregadas de preconceito ou xenofobia, fica claro o caráter discriminatório assumido pela publicação", afirmou. "Trata-se de um dicionário. Ninguém duvida da veracidade do que ali encontra. Sequer questiona. Aquele sentido, extremamente pejorativo, será internalizado, levando à formação de uma postura interna pré-concebida em relação a uma etnia que deveria, por força de lei, ser respeitada", acrescentou o procurador.

Para Neves, o texto afronta a Constituição Federal e pode ser considerado racismo. Ele lembrou que o Supremo Tribunal Federal já se pronunciou a respeito desse tipo de situação e ressaltou que "o direito à liberdade de expressão não pode albergar posturas preconceituosas e discriminatórias, sobretudo quando caracterizadas como infração penal".

Além da retirada da publicação do mercado, o MPF também pediu que a editora e o instituto sejam condenados a pagar R$ 200 mil de indenização por danos morais coletivos. A Justiça Federal ainda não se manifestou sobre a ação. A reportagem procurou o Instituto Antônio Houaiss, no Rio de Janeiro, mas a informação foi de que a pessoa que poderia falar sobre o caso não estava no local. Não houve retorno até o fim da tarde de hoje.