Adelson Elias Vasconcellos
Adoraria não precisar nem escrever muito menos publicar o que segue. Mas fazer o quê? Hoje, a presidente Dilma, talvez perturbada pelas questões internas que afligem o interior de seu governo, resolveu desviar o foco das atenções sobre estas questões, num discurso que classifico de, no mínimo, inconsequente e destrambelhado. O seu conteúdo, juro por Deus, imaginava não mais precisar ouvir de um governante brasileiro. Infelizmente, para todos nós, não aprenderam as lições do passado recente. E, a persistir nos erros, estará condenando o país e seu futuro.
Confesso que ignoro até onde vão os conhecimentos de economia da presidente, como também o quão profundo é o seu domínio sobre questões nacionais. Mas seu discurso revelou uma superficialidade tanto irritante quanto preocupante. Irritante, porque revela que toda a história recente, ao menos no seu caso, não serviu para o aprendizado de lições indispensáveis para quem governa um país como o Brasil. E preocupante porque demonstra que a senhora Dilma Rousseff está longe de perceber quais são os projetos e carências que exigem a atenção prioritária do governo e, mais ainda, os caminhos que devemos perseguir para resolver estas questões e atender as nossas principais carências.
Não pode um governante vir de público fazer uma avaliação tão cheia de equívocos como fez a presidente Dilma. O Brasil não é uma republiqueta de fundo de quintal, exerce importante papel dentre as nações, tem um círculo de influência bastante amplo para, fruto de um desequilíbrio momentâneo de sua principal governante, resvalar em acusações que imputo muito mais pela falta de melhor informação do que resultado da ignorância do seu próprio papel.
Comecemos por avaliar as razões que nos colocam nesta situação tão confortável em relação às principais economias mundiais. Ora, está visto e revisto que todas as reformas decorrentes do Plano Real resultaram em um Estado saneado do ponto de vista fiscal, com um sistema financeiro saudável e muito bem regulado, com as contas públicas disciplinadas – muito embora ainda falte avançar um pouco mais -, dentre tantas outras reformas e resultados não menos importantes e virtuosas, com o controle da inflação se destacando dentre todas. Muito bem: contra todo este quadro, criado e implementado no governo Fernando Henrique, quem, senão o partido de dona Dilma, o PT, se indispôs e abriu guerra ? Portanto, se a economia brasileira navega em mar de cruzeiro, esta estabilidade não foi conquista do PT, e sim apesar do PT.
Durante os dois mandatos de Lula, a economia mundial viveu uma das fases mais prósperas da história, prosperidade que ajudou a retirar milhões de cidadãos ao redor do mundo da pobreza e da fome, e que alavancou as economias de países como Índia, China, África do Sul, Rússia e Brasil, os tais emergentes que, para atingirem este honroso posto, precisaram passar por reformas internas profundas. No caso brasileiro, o plano de reformas que se iniciara com FHC encontrou, no período Lula, resistência, estagnação e, em alguns aspectos, retrocesso. Mesmo assim, o Brasil foi um dos maiores beneficiados deste período de fartura e, se recuperarmos nossos índices de crescimento, veremos que o Brasil ficou muito abaixo da média mundial, e muito mais ainda de seus parceiros do BRIC’s. Ou seja, faltou-nos fazer mais e “este mais” dependia já do governo do PT.
Quando estourou a crise em 2007, e ela veio nos atingir em 2008, ali o país convivia ainda com suas dificuldades internas e, em função delas, nossa taxa de juros estava na estratosfera. O que os países do mundo desenvolvido fizeram e estão fazendo nada mais é do que adotarem medidas visando revitalizar suas economias, medidas que, já se vê, estão resultando positivas nos Estados Unidos. E quanto a Europa, meus amigos, os problemas se centram muito mais no descontrole fiscal de alguns governos que se endividaram muito além de suas próprias capacidades.
O volume de dinheiro que está sendo injetado, ponto central da irritação de dona Dilma, não atingiria o Brasil não fosse ainda convivermos com desacertos internos. Exemplo disto são os juros aqui praticados. Praticamente todos os países desenvolvidos convivem com taxas de juros próximas a zero. Pergunto: que culpa tem estes países do Brasil ainda praticar taxas três a quatro vezes maores? Nenhuma, é óbvio, nossas taxas são altas por culpa de quem, então? Nossa, apenas nossa.
Há alguns dias publiquei um artigo aqui no blog em que reafirmava que o Brasil, por inação do governo federal, estava perdendo excepcional oportunidade de carrear o imenso volume de dinheiro que circula no mundo para alavancar investimentos aqui dentro, principalmente na recuperação de nossa infraestrutura. Sabemos que não temos poupança suficiente para bancar estes investimentos. E o que se percebe? A falta de total ousadia do governo Dilma, como também já fora nos oito anos de Lula, para atrair estes investimentos. Dinheiro procura oportunidades, mas estas oportunidades devem ser criadas por quem precisa destes recursos. Tais oportunidades precisam ser claras, bem definidas, oferecendo segurança jurídica, carga tributária decente, burocracia racional, ou seja, tudo aquilo que nós não oferecemos ainda a ninguém. E a quem compete criar este clima favorável para a atração destes investimentos senão o Poder Público?
Exemplo claro foi a questão dos aeroportos. Nem vou me referir aos compromissos que temos com as Copas de Confederações e do Mundo e as Olimpíadas. Refiro-me apenas para atender a demanda interna. Ora, por birra, ignorância, estupidez, o Brasil precisou chegar ao fundo do poço em matéria de infraestrutura aeroportuária para que o governo se convencesse de que era necessário conceder espaços à iniciativa privada, delegando os investimentos de três dos maiores aeroportos do país para que eles pudessem atender à demanda de maneira decente. Foi o mundo desenvolvido que nos obrigou a agir com tamanho atraso? Claro que não, então por que atribuir a terceiros problemas internos que competiam somente a nós resolvê-los? Imaginem se Lula não fosse tão irresponsável, quanto deste enorme volume de dinheiro que, avidamente, procura pista para aterrissar, poderiam ter sido canalizados para investimento direto no país? Quantos milhões de empregos poderiam ter sido criados? Quanto de renda poderia ter sido gerada?
Assim, as políticas monetárias que os países desenvolvidos estão realizando visam unicamente recuperar suas economias, para trazer benefícios aos seus povos. A diferença, e isto dona Dilma precisa aprender rapidamente, é que os governantes europeus governam para seus povos, e não para fazer bonito aos seus vizinhos como tem sido praxe com o governo petista. E a observar que, com suas economia recuperadas e com crescimento retomado, quem, senão os próprios emergentes, é que serão os primeiros e maiores beneficiados?
Não se vive mais numa ilha isolada, se o que se quer é qualificar o nível de vida dos povos. Aqueles que pensam o contrário, só trouxerem miséria para seus povos, casos de Cuba e Coréia do Norte, por exemplo. Todos precisam de todos, todos vivem em comunidade. Contudo, quando um é afetado, as consequências só atingirão os demais se estes padecerem das mesmas doenças e desequilíbrios.
Se o governo Dilma persistir nesta mania, que se supunha já estivesse sepultada entre nós, que é a de culpar terceiros por problemas que são exclusivamente de nossa responsabilidade resolver, creio que o Brasil retrocederá em pelo menos trinta anos e perderá as melhores oportunidades de, não apenas manter sua estabilidade, mas de dar sustentabilidade ao seu crescimento e desenvolvimento. Este excesso de Estado, sufocando a riqueza que a sociedade produz, vide Grécia, é o pior dos caminhos. E quem insiste nele se manter, os países desenvolvidos ou o Brasil teimoso da cegueira retrógrada da ideologia de esquerda?
Portanto, não se espere que as economias europeia e norte-americana venham aqui resolver nossas principais questões. A solução destas depende apenas e unicamente de nós. Mas é preciso tirar a venda da burrice ideológica dos olhos, do contrário, a caravana passará e nós ficaremos, feitos cachorros, a latir inutilmente comendo poeira.
Poderia incluir como exemplo desta visão curta, a questão cambial. Se o leitor voltar no tempo, encontrará advertências feitas aqui já em 2006, sobre os perigos do país manter nas nuvens sua taxa de juros, polo atraente de capital especulativo. Fosse o volume de exportações o culpado, como por tanto tempo o governo Lula insistiu e teimou, coitada da China! E, no entanto, eles vão bem, obrigado, neste aspecto. E note: o câmbio já era aflição antes mesmo da crise, antes mesmo dos países desenvolvidos injetarem bilhões de dólares na economia mundial. Ora, se o problema cambial ainda persiste, apesar das mudanças da economia mundial, é de destacar que as causas estavam todas aqui, são estruturais, e não fruto de tsunamis monetários, e sim de tsunamis de incompetência interna.
E, por mais doloroso que seja, precisamos vestir imediatamente a roupa da incompetência governamental. E qual melhor modelito do que a nossa “preparação” para a Copa do Mundo? Disse que não entraria em detalhes, mas é preciso considerar que neste quesito, não há mãos estrangeiras nos atrapalhando, brigou-se muito para realizar a Copa de 2014 aqui, assumimos compromissos com a comunidade internacional e, no balanço final, o que estamos vendo é justamente o quanto somos incompetentes e estamos distantes da nossa própria realidade. Querem mais? Então vamos nós: há quanto tempo os leitores leem e ouvem falar de desindustrialização e desnacionalização no Brasil? Ajudo o leitor: desde que o câmbio, agregado a todo um enorme conjunto de fatores, começou a provocar o fechamento de fábricas e transferência das plantas para outros países, ou a conversão de indústrias em meras importadoras, ou ainda a absorção de nossos fábricas pelo capital internacional. Quando cobrado, o governo sempre dizia que esta situação não existia, que não era bem assim, que o governo iria agir para evitar que isto acontecesse e muitos outros et ceteras. Pois bem, hoje, ainda que timidamente, o governo resolveu agir, mas de forma insuficiente para evitar o desastre, e optando pelo pior dos caminhos que é o protecionismo pré-histórico. E o problema vai continuar. Até quando? Até que o governo se convença de que nossos problemas são internos, derivados de falta de ação governamental e que compete apenas ao Poder Público tratar de resolvê-los. Transferir responsabilidade é o pior dos mundos. É não querer fazer o próprio dever.
Por fim, um último lembrete: para o bem do Brasil, e já disse aqui várias vezes, dona Dilma precisará, no curtíssimo prazo, fazer uma escolha. Ou ela dá prioridade, em seu mandato, a um projeto para o país, e suporta a pressão dos socialistas e esquerdistas empedernidos, ou dá prioridade ao projeto de poder de seu partido. As duas coisas não podem ser atendidas, são contrárias entre si, se atritam até por definição. A existência de uma anula a existência da outra.
E aí, dona Dilma, o que vai ser, o Brasil e seu desenvolvimento, ou o PT e seu projeto de poder sufocando o país?
