terça-feira, março 06, 2012

Réquiem para a indústria

Jose Luiz Alqueres, O Globo

Neste jornal foi publicado em dezembro um artigo no qual advogávamos a adoção de procedimentos simples, previstos nas regras do Banco Mundial, para ensejar que a licitação para novos trens de subúrbio no Rio de Janeiro pudesse oferecer uma chance real para a indústria nacional sair vencedora. O procedimento seria a atribuição de uma margem de preferência de 15% ao fornecedor nacional — o que é aceito, quase incentivado pelo Banco Mundial, que hoje se preocupa com o equilíbrio no desenvolvimento global e redução de pobreza via criação de empregos.

A citada margem no caso brasileiro é, aliás, exígua para quem tem que pagar, dentre outros, o alto custo de capital no Brasil, os juros durante a fabricação, a penalização pela logística proibitiva e pela inflexibilidade nas leis laborais.

Nada foi feito e o jornal dá noticia que os organizadores da licitação, da qual participaram 5 grupos, celebraram no dia 27 a vitória de uma empresa chinesa por um preço inferior em 19% ao da mais bem colocada nacional.

E ainda tentam se justificar: “Mesmo com os 15%, se concedidos, o nacional não ganharia.” A empresa vencedora é a mesma que acumula atraso de mais de dois anos na entrega do lote anterior de trens, causando enormes transtornos para o Rio.

A indústria brasileira aponta que sairia vencedora se existisse isonomia na competição (no caso bastaria ela poder receber a parte importada do seu fornecimento em moedas de origem e nesta parte não incidissem os impostos de importação — não incidentes sobre os chineses — fazendo com que os 19% se reduzissem a uns 6 ou 7 %, que estariam dentro da margem dos 15%).

Mas o caso específico — grave — não é o principal. Aqui importa a reflexão estratégica.

O resultado foi anunciado no mesmo dia que o onipresente Banco Mundial lançou o relatório “China 2030 ” — elaborado em parceria com o governo chines — onde se advoga a mudança do modelo de desenvolvimento daquele país, dentre outras coisas limitando a mistura de interesses de governo com o das suas estatais, pouco eficientes e gravosas, que só se sustentam às custas da imposição de uma enorme carga à parcela pobre da China, privada dos benefícios sociais que o desenvolvimento poderia lhe trazer. Parece que por lá eles começam a criticar a tese do ” vamos fazer crescer o bolo antes de dividi-lo”, tese esta que sabemos bem a que leva: mais centralismo, mais corrupção (também circulou o dado sobre a concentração de bilionários chineses no seu parlamento…).

Enquanto eles estão tratando dos meios de corrigir isto, nós aqui vamos oferecendo a destruição da nossa indústria na ilusão de reduzir o déficit na balança comercial com a China, altamente superavitária para o Brasil. Como eles necessitarão cada vez mais de commodities é de se esperar que pouco reste, em breve, da nossa indústria de transformação e de bens de capital no Brasil.

É uma tragédia porque um país não se faz sem domínio de tecnologias de engenharia e de processos e estas fábricas que ora se contrairão, e algumas desaparecerão, são as mesmas que ensejaram a formação de uma capacitação na iniciativa privada que tanto diferencia para melhor o Brasil de seus vizinhos latino-americanos. E como visto, em condições isonômicas, elas são competitivas.

Ao se despedir da sua presidência no CNI, no final de 2010, Armando Monteiro fez um discurso profético para 500 empresários em São Paulo: “O próximo governo terá que arbitrar entre interesses conflitantes e de todos os segmentos que vêm a Brasília apresentar suas posições o mais despreparado, o menos estruturado nas suas proposições é o industrial.”

Deve ser por isso que a participação da indústria no PIB reduziu-se à metade em poucos anos. Deve ser por isso que uma pequena bolha de crescimento no setor real expõe a falta de engenheiros (para não falar na de pedreiros, soldadores, contramestres etc ). E parece que um novo avatar daquele Brasil do passado — “Uma grande fazenda exportadora de café e minérios” no dizer de Celso Furtado — vai voltar a acontecer.