O Globo
País poderá manter protegidos 800 itens no comércio com o bloco. Tributos só cairão em 2018
AGÊNCIA O GLOBO / AITONO DE FREITAS
Dilma Roussef recebe Hugo Chávez durante a
cerimônia oficial de chegada ao Planalto em Brasília
BRASÍLIA- O presidente da Venezuela, Hugo Chávez, desembarca em Brasília na terça-feira para uma cerimônia para a qual o Paraguai não foi convidado: vai assinar o ato formal que dará a seu país o status de membro pleno do Mercosul. Ao lado de Chávez, estarão a anfitriã, a presidente Dilma Rousseff, além dos líderes Cristina Kirchner, da Argentina, e José Mujica, do Uruguai. Em conversa com integrantes do governo brasileiro, há dois dias, o líder venezuelano informou ter determinado a sua equipe que acelere o processo de adequação de seu país à união aduaneira, previsto inicialmente para começar em 2014.
O novo sócio já entrará devendo para o bloco. A expectativa é que cerca de 800 itens continuarão protegidos no intercâmbio com os demais associados. Esses setores sensíveis, que não sobreviveriam à abertura total do mercado, só terão tributos reduzidos a partir de 2018, dentro de prazos que ainda serão estabelecidos. Estão na lista bens de capital, autopeças, automóveis, flores, petroquímicos e eletroeletrônicos.
Empresários estimam que comércio com Brasil dobrará
A razão para isso é que a Venezuela, que tem no petróleo a locomotiva de sua economia, possui uma indústria nascente. Mesmo diante do fato de que a abertura total do mercado venezuelano levará um tempo maior em se tratando de produtos industrializados, Brasil e Argentina serão os grandes beneficiados, já que terão preferências nas compras feitas pela Venezuela. O país hoje importa boa parte do que consome, cerca de 70% do total. Nessa gama, há desde alimentos a bens de alta tecnologia. Quem deve sair perdendo é a Colômbia, tradicional fornecedora dos venezuelanos.
A expectativa de empresários dos dois países ouvidos pelo GLOBO é que o fluxo de comércio (soma de exportações com importações) entre Brasil e Venezuela, que em 2011 foi de US$ 4,6 bilhões, dobrará entre três e quatro anos. Dados oficiais de Caracas mostram que, no ano passado, os vizinhos importaram US$ 34,861 bilhões e exportaram US$ 3,207 bilhões.
— A adesão da Venezuela trará mais comércio e investimentos nas nossas relações bilaterais — afirmou o presidente da Federação das Câmaras de Comércio Brasil-Venezuela, José Francisco Marcondes.
Esse otimismo também faz parte do imaginário dos homens de negócios venezuelanos. É o que garantiu o presidente da Federação das Indústrias daquele país, Miguel Peres Abade.
— Nosso ingresso no Mercosul é uma medida acertada tanto em termos políticos, como produtivos e sociais. Vemos no Mercosul a possibilidade de recuperar nossa indústria e nossa vocação exportadora, por meio do aumento da capacidade produtiva — destacou Abade.
Críticos à adesão do novo sócio dizem que o Mercosul ganhará uma roupagem política. Para os defensores, incluindo o governo brasileiro, o aspecto econômico é o preponderante. O Produto Interno Bruto (PIB, soma dos bens e serviços produzidos) da Venezuela, hoje em US$ 315 bilhões, é o quarto maior da América do Sul. Com a entrada dos venezuelanos no bloco, o Mercosul passará a contar com 270 milhões de habitantes e um PIB de US$ 3,3 trilhões.
Há mais argumentos do lado positivo: a Venezuela possui uma das maiores reservas de petróleo do mundo, superando a Arábia Saudita. Por fim, o estoque de investimentos de empresas brasileiras naquele país é de US$ 20 bilhões.
Segundo o secretário-executivo do Ministério do Desenvolvimento, Alessandro Teixeira, a partir de 1 de agosto, será criado um grupo de trabalho para discutir prazos e formas de adequação.
