Fernanda Dias
Opinião & Notícia
Divulgação de estudo sobre mutações causa temor sobre atos de terrorismo biológico
(Aaron Tam/AFP)
Mutações no vírus da gripe aviária poderiam fazer
com que ele se tornasse contagioso entre os humanos
Apenas algumas poucas mutações ou uma potencial pandemia? Em um artigo publicado na revista Science, no fim de junho, uma equipe de cientistas revelou como conseguiu, através experimentos com furões, alterar geneticamente o vírus da gripe aviária (H5N1) para que ele fosse capaz de se espalhar por meio de tosses e espirros, sendo transmissível pelo ar. Foram seis meses de discussão até que a revista revolvesse publicar o estudo. Aos olhos de alguns críticos, os detalhes do texto são a receita para uma perigosa arma biológica. Por essa razão, um conselho científico chegou a sugerir a censura dos dados.
As mutações foram criadas por um laboratório da Holanda que está tentando compreender como o vírus da gripe aviária, que normalmente não é contagioso entre as pessoas, pode sofrer alterações no ambiente selvagem e começar a se espalhar em seres humanos. Mas foi só o anúncio do experimento sair para começarem a ser publicadas manchetes assustadoras sobre a “super gripe”.
O homem no centro da polêmica é o virologista holandês Ron Fouchier. Ele mostrou que apenas um punhado de mutações, mais especificamente cinco, poderia transformar o vírus em uma ameaça pandêmica. Fouchier alega que compreender essas alterações é essencial para se preparar para uma possível pandemia.
Para submeter o estudo à Science, o pesquisador teve de obter uma autorização especial do governo holandês, que só é normalmente utilizada para a exportação de tecnologias que poderiam ser usadas como armas. Ele aceitou a condição, mas sob protesto.
O estudo foi financiado pelo governo dos EUA, mas assim que a polêmica em torno dos dados começou, um conselho consultivo do país sugeriu que os detalhes fossem mantidos em segredo. Membro da comissão, o microbiologista da Universidade de Stanford David Relman ainda acha que é uma má ideia revelar publicamente as mutações que podem fazer o vírus ser transmitido pelo ar. Relman reconhece que, em teoria, o trabalho traz benefícios, mas acredita que, a curto prazo, eles são superados pelos riscos – não só a ameaça do bioterrorismo, mas também acidentes de laboratório simples, que poderiam deixar escapar uma gripe mutante.
O infectologista Edmilson Migowski, diretor do Instituto de Pediatria da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), lembra, no entanto, que, do ponto de vista histórico, pandemias surgem em intervalos longos, entre dez e 30 anos. A gripe espanhola aconteceu entre 1918 e 1919. Depois foi a vez da gripe asiática, entre 1957 e 1958, da gripe de Hong Kong, entre 1968 e 1969, e por fim da gripe suína, denominada oficialmente gripe A (H1N1), entre 2009 e 2010. É claro que um cenário de terrorismo biológico poderia alterar o quadro, mas, para Migowski, não divulgar dados de uma pesquisa é ainda mais arriscado:
“Quem trabalha com guerra biológica é capaz de descobrir os maiores segredos, de furar qualquer segurança. Manter em sigilo o estudo só vai favorecer quem atua na clandestinidade. Quem é do bem pode, numa situação de omissão dos dados, não ter acesso a informações relevantes para novas pesquisas”.
Migowski explica que o vírus H5N1 vem se comportando em adultos com elevada letalidade (de 50 a 70% nas pessoas que desenvolveram a gripe). Embora haja desvantagem do ponto de vista individual, em termos de população, o vírus não consegue se perpetuar, pois o infectado fica acamado, circula pouco, o que diminui a capacidade de proliferação da doença:
“Quanto maior a replicação do vírus, em diferentes hospedeiros, maior a possibilidade de que se desenvolva um vírus mutante. Uma mutação poderia dar a ele maior transmissibilidade. Isso realmente seria preocupante”.
Para o pneumologista e alergista da Santa Casa da Misericórdia do Rio de Janeiro, José Roberto Zimmerman, não há qualquer registro no mundo que dê conta de preocupação com pandemia de gripe aviária. Na opinião do especialista, o artigo da Science não tem sequer relevância médica:
“Não há eminência de acometimento humano de gripe aviária. Inclusive os furões sobreviveram, toleraram as mutações. A gripe suína (H1N1) é o que tem efetivamente preocupado os médicos pelo surto no Sul do Brasil, que já matou centenas de pessoas”.
****** COMENTANDO A NOTÍCIA:
De fato, a gripe aviária, ao menos no Brasil, não é motivo para pânico ou preocupações. O mesmo não se pode dizer em relação à gripe suína, ou H1N1, em razão do número de infectados com as dezenas de mortes que já provocou.
Faz algum tempo que estamos tentando alertar as autoridades de saúde para este surto. Infelizmente, seja pela falta de ações preventivas ou até de informações de orientação à população, dá para se dizer que trataram o surto como coisa menor, total descaso. Não deram a devida atenção para o crescente número de mortes causadas pela gripe.
Houve até certa época em que a população de Porto Alegre sequer encontrava vacinas nos postos de saúde. Neste sentido, é fácil concluir que a população do sul do país foi largada à própria sorte. Irresponsabilidade total, além de tudo, criminosa.
