Editorial
O Globo
Números mostram queda do investimento na economia brasileira no primeiro semestre, trajetória que precisa ser revertida rapidamente
Os números confirmaram as expectativas. A economia desacelerou fortemente desde o segundo semestre do ano passado, e a retomada vem ocorrendo em ritmo bem lento. No primeiro trimestre de 2012, o Produto Interno Bruto evoluiu apenas 0,1% sobre os três meses anteriores. E no segundo trimestre, o crescimento não passou de 0,4% sobre o primeiro. Anualizada, a taxa foi de 1,2%.
Esta lenta recuperação é atribuída pelas autoridades econômicas a efeitos da crise internacional, desmontando a tese — que chegou a ser defendida enfaticamente pelo governo — que o país conseguiria passar ao largo das turbulências. Em vários pronunciamentos, a presidente Dilma repreendeu chefes de governo de país desenvolvidos por não terem adotado medidas para estimular a economia, como o Brasil fizera.
Na verdade, percebe-se que o problema é muito mais sério, e que tais estímulos ao consumo têm efeitos passageiros, cada vez mais curtos. Mesmo com a aceleração esperada para o semestre em curso, as previsões relativas à evolução do PIB brasileiro em 2012 se situam abaixo de 2%, o que não é um resultado desastroso, pois trata-se do patamar que deverá ser registrado pelos Estados Unidos e pela Alemanha, o que muitos analistas internacionais classificam hoje como recuperação. No entanto, o desempenho do Brasil está longe de servir de paradigma para o chamado mundo desenvolvido.
A crise afetou a economia brasileira especialmente pelo comércio exterior. As exportações se enfraqueceram e as importações não não perderam o fôlego em igual proporção. Neste sentido, entende-se que o Banco Central tenha aumentado suas preocupações com o câmbio, evitando a valorização do real por meio de uma gradual redução nas taxas de juros, para não atrair capitais financeiros especulativos. Esta semana, o Comitê de Política Monetária (Copom) cortou a taxa Selic para 7,5% ao ano, a mais baixa da era do real, alertando, porém, que, se houver novo corte, o fará com “máxima parcimônia”. O comunicado revela que as autoridades do Banco Central também estão preocupadas com o comportamento da inflação. Embora às vezes seja criticada, a conduta da diretoria do BC já é vista pelo mercado como responsável, sem risco de derivar para uma aventura na política monetária.
Mesmo assim, não se pode esperar que a economia brasileira se recupere mais rapidamente por meio de estímulos ao crédito — pois o grau de endividamento das famílias recomenda um crescimento mais cauteloso — destinado a financiar uma antecipação de consumo de bens que tiveram preços temporariamente reduzidos pela desoneração de impostos. Esta não está esgotada, mas não deveria ser vista como a fonte principal de impulso da economia. A alavanca adequada é o investimento e, neste aspecto, os números mais recentes do PIB foram preocupantes, pois mostraram uma trajetória de queda que precisa ser revertida, o quanto antes.