terça-feira, outubro 23, 2012

Com pressão do governo, setores perderam R$ 59 bilhões na Bolsa


Bruno Villas Bôas
O Globo

Energia, teles e bancos estão entre os mais atingidos por medidas

CARLOS IVAN/7-01-2011
Salles, da Lopes Filho: 
crise foi secundária na queda dos bancos

RIO — Se a crise internacional foi o fator mais importante para o desempenho da Bolsa brasileira abaixo do esperado este ano, o dedo do governo na economia foi o que mais incomodou investidores. Pressão sobre os juros de bancos, tarifas do setor elétrico, operadores de celular, royalties da mineração. Medidas que podem ser boas para os consumidores, mas ruins para quem tem ações. Segundo cálculos da consultoria Economatica, três dos quatro setores que mais perderam na Bolsa este ano sofreram com mudanças de “regulamentação comercial”, num tombo de R$ 59 bilhões de valor de mercado. Foram eles energia elétrica (R$ 26,9 bilhões), telecomunicações (R$ 19,8 bilhões) e bancário (R$ 12,4 bilhões).

Para especialistas, antecipar-se às intervenções públicas e evitar as perdas das ações não é uma das tarefas mais simples. Eles sugerem evitar papéis de setores mais regulados pelo governo. Uma opção são os de empresas de menor porte — as chamadas small caps, que são mais arriscadas — ou os ligados ao comércio, setor pulverizado e de baixa regulação governamental.

— As ações small caps ganham 25% no ano, enquanto o Ibovespa, que é a referência da Bovespa, sobe apenas 5,27%. Isso revela para onde os investidores correram para fugir das intervenções e da crise externa — acredita Hersz Ferman, gestor da Yield Capital.

O setor que mais sofreu com as mudanças de regras neste ano foi o elétrico. Ao alterar as regras de renovação das concessões públicas do setor via a medida provisória (MP) 579, o governo surpreendeu negativamente o mercado. Desde a publicação, em 30 de agosto, a incerteza da medida derrubou ações da Cemig PN (-21,52%), Eletrobras PNB (-9,33%) e Cesp PNB (-30,45%). O objetivo do governo é reduzir os custos da energia, considerado um dos mais altos do mundo.

Oportunidade na queda
Segundo Clodoir Vieira, economista da corretora Souza Barros, os analistas sabiam do interesse do governo em reduzir o custo de energia para indústrias e residências no país, mas a expectativa era por uma mudança negociada com o setor, com audiências.

— Veio de cima para baixo. Os investidores levaram um susto e venderam as ações. Os preços caíram e refletem agora a insegurança das empresas — resume Vieira, que recomenda ações ligadas ao consumo, como Ambev, BrMalls, Hering e RaiaDrogasil. — Temos uma estratégia de olhar para ações que às vezes, são menos lembradas pelo mercado financeiro. Nossa carteira valorizou-se 45% no ano.

Felipe Miranda, analista da Empiricus Research, concorda que o setor de consumo é menos sujeito a intervenções, mas também vê oportunidades nas ações de setores que sofreram as intervenções do governo, como o de energia elétrica.

— O mercado entendeu que a MP foi o fim do mundo para a Cemig e as ações da empresa ficaram baratas. Nós acreditamos que a ação tem potencial para se valorizar dos atuais R$ 26 para R$ 35 a R$ 40 se a empresa conseguir renovar a concessão — diz Miranda.

No setor bancário, as ações ainda vivem incertezas por causa das pressões do governo para reduzir o custo financeiro do país. Desde fevereiro, quando as cobranças pelo repasse da queda dos juros se tornaram públicas, os papéis Itaú Unibanco PN encolheram 14,46% e Banco do Brasil ON, 12,34%. Units do Santander caíram 7,26%. Só Bradesco PN avança no período, em 4,97%.

— Eu acho que a intervenção do governo afetou o setor mais do que a crise externa — avalia João Augusto Salles, analista da Lopes Filho & Associados. — Houve ingerência sobre o BB e Caixa, que reduziram juros em um momento de alta da inadimplência, algo considerado tecnicamente errado.

‘Remar com o governo’
Na telefonia, os analistas se dividem entre os que veem uma intervenção do governo nas operadoras de celular e os que apontam apenas uma punição prevista por serviços ruins prestados. A Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) suspendeu vendas de linhas de telefonia móvel em todos os estados em 23 de julho deste ano. Foram afetadas TIM, Oi e Claro. A TIM, mais atingida, chegou a recorrer à Justiça. As ações da TIM Participações ON caem 19,78% neste ano.

Na mineração, os papéis da Vale sofrem com as incertezas sobre o novo código de mineração desde o ano passado. Na Petrobras, o controle do preço da gasolina também pesa.

Para Luis Gustavo Pereira, estrategista da Futura Corretora, a saída dos investidores é remar “a favor da maré”.

— O governo quer beneficiar setores da economia, destravar o crescimento da indústria e do consumo. Então, o melhor pode ser remar com o governo, escolhendo alguns papéis desses setores que estão no foco — acredita Pereira.