Marco Prates
Exame.com
Alegando dificuldades financeiras, várias prefeituras têm anunciado desde o início do ano o cancelamento da festa que é um dos símbolos do Brasil. Tem até capital de estado no meio
Alan Betensley/Wikimedia Commons
Desfile de carnaval no Rio: é óbvio que na cidade maravilhosa a festa
será brilhante como sempre, mas vários municípios do país ficarão sem os seus desfiles
São Paulo – Uma das mais tradicionais festas no Brasil, o carnaval, está em baixa este ano. Várias cidades já anunciaram o cancelamento da comemoração. Novos prefeitos de municípios espalhados nas cinco regiões do país alegam que receberam a administração em frangalhos. E defendem que não podem, nesta situação, comprometer receitas com festividades carnavalescas. Outros afirmam que preferem investir em áreas prioritárias. As respostas dos moradores e demais envolvidos têm sido divididas.
Perder a festa parece não ter sido grande problema para os moradores de Petrópolis, no Rio de Janeiro, por exemplo.
A repercussão nas redes sociais foi positiva por parte de residentes e não residentes. O prefeito Rubens Bomtempo alegou que gastará o dinheiro previsto - um milhão de reais - na saúde do município.
Até as escolas de samba da cidade concordaram.
Pelo menos uma capital já entrou no jogo. Não haverá neste ano o desfile das escolas de Florianópolis. Lá, no entanto, as agremiações se revoltaram com o corte dos repasses da prefeitura.
“Silenciaram o tamborim, calaram a cuíca e o chocalho. Apagaram a alegria e a felicidade. O povo incrédulo assiste mais um sonho terminar”, divulgaram em comunicado.
Vários estados
No estado de São Paulo, para horror dos amantes do carnaval, pelos menos 10 municípios anunciaram o fim da festa, incluindo Marília, Itaquaquecetuba, Garatinguetá, São José dos Campos, São Carlos, Presidente Epitácio e Porto Feliz.
Na turística Ilhéus, na Bahia, o prefeito alegou que as dívidas da administração municipal não permitirão a realização do evento.
Há cancelamentos da festa anunciados ainda em cidades do Rio Grande do Sul, Minas Gerais, Paraíba e Rondônia.
Embora parte dos moradores dessas localidades tenham reagido positivamente ao anúncio, parte foi contra, alegando que o carnaval é uma grande fonte de receitas para a economia das cidades.
É preciso frisar que, em todos os casos, o que está cancelado são os repasses públicos para o carnaval, usado em apoio às escolas de samba - onde elas existem - e à infraestrutura, como arquibancadas.
Nada impede, no entanto, que o setor privado faça suas festas e que ainda haja blocos pelas ruas até mesmo nestas cidades do país.
***** COMENTANDO A NOTÍCIA:
Sei que certas ideias no Brasil, por mais corretas e adequadas à nossa realidade, correm o risco de ter seu autores apedrejados em praça pública. Com o passar do tempo, porém, elas acabam vingando. A Lei Ficha Limpa, por exemplo, de iniciativa popular, sempre foi mal vista no meio político. Faz sentido, né?
Há poucos dias, a TV Globo exibiu em cadeia nacional, longa reportagem sobre o estado miserável em que várias prefeituras pelo país todo, foram entregues aos seus novos ocupantes. O diabo é que esta tem sido uma tendência cada vez mais frequente, e sem que os irresponsáveis sejam punidos exemplarmente..
Não apenas o cancelamento de carnaval é revelador da pobreza de espírito da classe política nacional. Mas estradas, máquinas, postos de saúde, escolas municipais, e sequer as próprias instalações dos prédios que abrigam as administrações municipais, não escaparam do vandalismo estúpido praticado pelos antigos ocupantes.
Creio, assim, ter chegado a hora de se implementar no Brasil, uma espécie de quarentena para os executivos que deixam prefeituras, governos estaduais e até federal. Durante um ano, não poderão dispor de bens, sequer ocuparem outros cargos públicos. Neste ínterim, corregedorias e tribunais de contas se encarregarão de fazerem uma verdadeira devassa nas contas e nos patrimônios de prefeituras e governos, para verificarem se os políticos que por ali passaram foram, ao menos, responsáveis quanto ao zelo exigido com a administração pública. E, enquanto as contas não foram examinadas e aprovadas, sequer poderão concorrer a novos mandatos eletivos.
Não é possível que as novas administrações, demandem metade de seus mandatos a corrigirem as distorções, roubos e desvios de toda a ordem cometidos por políticos cafajestes. Não é possível que computadores ou seus discos rígidos sejam levados ou destruídos, apagando a memória dos municípios e estados.
Torna-se cada vez mais urgente que o rigor da lei no Brasil alcance, de maneira firme, os maus governantes. A população não pode ser eternamente penalizada pela desfaçatez, desonestidade e falta de caráter dos maus políticos que se multiplicam na prática de crimes contra o erário que, em última análise, são crimes contra a própria sociedade a quem deveriam servir.
