Editorial
O Globo
Entra-se agora na reta final de um projeto que estoura prazos e orçamentos, e nitidamente tem pecado pela falta de um planejamento sólido
Na proposta com a qual o Brasil se candidatou a sediar a Copa do Mundo de 2014, as obras de infraestrutura (mobilidade urbana, modernização de portos e aeroportos, construção de estádios ou melhoria dos já existentes) foram determinantes para o país ganhar a disputa.
No plano, essas intervenções apareceram como o grande legado do evento para a população, em razão de estimadas melhorias em serviços (como transporte público e sistema viário, por exemplo) que, na maior parte das cidades-sede, representam crônicos contenciosos do poder público.
Dessa forma, os altos investimentos necessários à realização do Mundial seriam compensados pela superação de demandas urbanísticas das agendas dos governos federal, estaduais e municipais.
No entanto, a menos de seis meses do início da Copa das Confederações, criado pela Fifa como uma espécie de ensaio geral do país-sede para o Mundial, o cronograma de ações efetivamente consumadas está muito aquém das promessas feitas em 2010.
Mesmo que se tome a competição do meio deste ano como um teste para corrigir rumos da agenda de intervenções urbanísticas, é preocupante a constatação de que restam apenas um ano e cinco meses para se entregar obras que já deveriam estar concluídas, mas cujos canteiros não parecem estar de acordo com o ritmo necessário.
Reportagem do jornal “O Estado de S.Paulo” dá a medida do atraso da agenda do poder público. Das 82 obras de mobilidade urbana, portos e aeroportos que constavam da matriz de responsabilidades — um documento de 2010 que enumerava metas e obrigações dos governos federal, estaduais e municipais —, somente três se mantiveram dentro dos prazos.
Desse compromisso inicial, 21 empreendimentos foram expurgados, 25 tiveram o orçamento alterado e os restantes 33 alteraram, pelo menos, prazos de conclusão.
O quadro que menos inquieta é o que se relaciona aos estádios, mas ainda assim há gargalos no planejamento — seja pela revisão de orçamentos, sempre para mais em relação aos preços iniciais (estima-se que essa rubrica consumirá aportes nos contratos originais em torno de R$ 7 bilhões), ou pelo adiamento da entrega das arenas, caso do Maracanã.
Já na parte de mobilidade urbana, pelo perfil atual dos canteiros o legado das cidades-sede destoa das otimistas previsões do poder público.
Entra-se agora na reta final de um projeto que nitidamente peca pela falta de um planejamento sólido. Algo como o que ocorreu no Rio quando a cidade sediou os Jogos Pan-Americanos de 2007, com resultados negativos (o orçamento do evento também estourou e o legado urbanístico foi pífio).
Pior: não faltaram alertas para que os erros do Pan não se repetissem em escala nacional. Em vão, ao que a realidade de hoje parece indicar.
