Janaína Figueiredo
O Globo
Governo Kirchner injetou US$ 380 milhões em empresas de mídia em 2012
PAUL J. RICHARDS / AFP
Nove empresas concentram recursos do governo de Cristina Kirchner
BUENOS AIRES – Em 2012, ano em que a Casa Rosada travou uma inacabada guerra judicial com o Clarín, maior grupo de meios de comunicação na Argentina, o governo Kirchner destinou 80% dos recursos da publicidade oficial a nove empresas do setor claramente alinhadas com suas políticas. De acordo com informações publicadas ontem pelo jornal “La Nación”, no ano passado o Executivo injetou US$ 380 milhões em canais de TV, rádios e jornais, o que representa um aumento de 43% em relação a 2011.
Os dados foram colhidos por uma empresa de consultoria que não quis ser identificada, por temor a retaliações do Gabinete da presidente Cristina Kirchner, que ontem apresentou um novo veículo estatal, o canal de TV digital “DeporTV”.
Os números da publicidade oficial foram divulgados quase duas semanais depois de o governo ter proibido a redes de supermercados e cadeias de lojas de eletrodomésticos anunciar em jornais e canais de TV. Ontem, a Associação de Entidades Jornalísticas da Argentina (ADEPA) publicou uma carta aberta em vários jornais denunciando um “boicote à liberdade de expressão”.
— O governo avança cada vez mais em seus ataques a meios de comunicação — opinou o diretor de Comunicações do grupo Clarín, Martin Etchevers, que considerou inadmissível “as limitações, agora também, à publicidade privada”.
Desde que Cristina e seu marido, Néstor Kirchner, chegaram ao poder, em 2003, o orçamento da publicidade oficial cresceu cerca de 1.300%. Apesar de a Corte Suprema de Justiça ter favorecido a editora Perfil, que entrou na Justiça para exigir uma distribuição igualitária da publicidade estatal, o governo Kirchner continua concentrando os recursos em poucas mãos. A Perfil e outros meios de comunicação, como os jornais “Clarín” e “La Nación”, praticamente não publicam anúncios oficiais.
Lei de meios: guerra judicial
De acordo com o relatório publicado pelo “La Nación”, os grupos mais favorecidos, em ordem de prioridade, são: Telefé (Canal 11, de Buenos Aires e outras oito emissoras de TV aberta no interior); Manzano-Vila (canais América TV, A24 e Canal 7 da província Mendoza e vários jornais do interior); Radio e Televisão Argentina (RTA, empresa estatal que controla o Canal 7 e mais de 50 emissoras estatais de rádio); o empresário mexicano Remigio Ángel González González (Canal 9 e FM Aspen); as empresas do empresário Cristóbal López, que no ano passado comprou um canal de TV (C5N) e três rádios; o jornal “Página 12”; o grupo Olmos (jornal e canal de TV Crônica e Buenos Aires Econômico); e o grupo Ambito Financeiro (do jornal do mesmo nome) e Buenos Aires Herald).
Segundo o mesmo relatório, o grupo que mais aumentou seu faturamento com publicidade oficial foi o do empresário Cristóbal López, o mesmo que nos últimos dias tem sido mencionado como um dos principais interessados em comprar ativos da Petrobras na Argentina.
Num ano em que o governo Kirchner enfrentará um novo teste nas urnas, com as eleições legislativas de outubro, os conflitos com meios de comunicação privados que questionam políticas oficiais deverá acentuar-se. A guerra judicial com o Clarín sobre a plena aplicação da Lei de Meios não terminou, já que a Câmara Civil e Comercial ainda deve determinar se dois artigos da lei são ou não constitucionais. O caso certamente terminará na Corte Suprema.
