Celso Ming
O Estado de S.Paulo
O câmbio virou uma espécie de bala puxa-puxa que pode tomar a forma da mastigada de qualquer um.
Dirigentes da indústria brasileira, por exemplo, querem que a cotação da moeda estrangeira garanta competitividade aos negócios, não importando os efeitos sobre inflação, investimentos e comércio exterior. Foi o que disse ontem o diretor de Relações Internacionais da Fiesp, Roberto Giannetti da Fonseca. Para ele, o câmbio não pode ficar abaixo de R$ 2,20 por dólar.
Embora não o reconheçam, os dirigentes do Banco Central do Brasil operam como se, ao menos temporariamente e até certo ponto, o câmbio tivesse de ser usado como âncora dos preços; deve ser instrumento de combate à inflação, independentemente do impacto sobre o setor produtivo. Tem, no momento, de ficar abaixo de R$ 2,00.
Alguns economistas brasileiros sugerem que a principal função do câmbio é assegurar o equilíbrio nas Contas Correntes (comércio exterior mais conta de serviços mais transferências unilaterais), para evitar a fuga de capitais. Que cotação reflete essa estabilidade é outra questão, mas não seria menos do que esses mesmos R$ 2,20 por dólar - como expôs em artigo recente o ex-ministro da Fazenda Luiz Carlos Bresser-Pereira.
Outros analistas, como o ex-presidente do Banco Central Affonso Celso Pastore, lembram que o Brasil depende fortemente da entrada de capitais para investimento. É preciso haver certo déficit (não equilíbrio) nas Contas Correntes. Para garantir o investimento externo, o câmbio deve ser relativamente valorizado, não o contrário. Inconvenientes sobre a indústria devem ser tratados com redução dos custos e com mais escala de produção.
Na semana passada, ministros de Finanças e presidentes dos bancos centrais do G-20 condenaram manipulações das cotações de câmbio destinadas a buscar alto desempenho das exportações em detrimento dos parceiros comerciais.
Os presidentes do Federal Reserve (Fed, o banco central dos Estados Unidos) e do Banco do Japão (BoJ, banco central) e dirigentes do Fundo Monetário Internacional advertiram que, enquanto não passar a crise global, o importante não é o câmbio, mas manter a política monetária (política de juros) solta o suficiente para obter a recuperação. Logo, os efeitos da desvalorização cambial, vista por muitos como manipulação, devem ser tolerados, ao menos por enquanto.
São pontos de vista e objetivos incompatíveis entre si. Mas o mais relevante não é essa incompatibilidade. É, sim, o entendimento das pessoas e dos governos de que sempre podem arrancar do câmbio as pretensões da política da hora. Mas os governos não têm toda essa força. Pode-se dizer que alguns têm mais e outros têm menos autonomia sobre o câmbio. Países emissores de moedas de reserva (Estados Unidos, área do euro, Inglaterra e Suíça), por exemplo, têm mais. Mas têm de compatibilizá-la com outros objetivos.
Também possuem alto grau de autonomia economias com alto nível de poupança interna (caso da China), que podem usá-la para comprar moeda estrangeira.
Há muito a avaliar a partir disso. O mais importante é ter mais humildade com essa coisa chamada câmbio. É, na maioria dos casos, o que mais falta.