O Globo
Em Paris, 300 mil pedem veto do Senado; já em Nova York, pressão é para que Suprema Corte aprove
THOMAS SAMSON / THOMAS SAMSON/AFP
Paris. No meio da multidão, uma mulher exibe cartaz onde se lê:
“Todos nascidos de um homem e de uma mulher”
PARIS e NOVA YORK — O debate sobre o casamento gay tomou as ruas dos dois lados do Atlântico neste domingo. Às vésperas de uma sessão histórica da Suprema Corte dos Estados Unidos sobre o tema, prevista para esta semana, centenas de americanos dedicaram parte do dia a uma manifestação pacífica, em Nova York, pela legalização do matrimônio entre pessoas do mesmo sexo. Em Paris, 300 mil pessoas tomaram parte do centro da cidade. Mas a marcha, concentrada em torno do lendário Arco do Triunfo, tinha um propósito contrário — condenar a iminente aprovação, no Senado, do plano do presidente François Hollande de legalizar o casamento e a adoção de crianças por homossexuais até junho.
A manifestação francesa acabou em confronto. A polícia interveio quando um grupo de cerca de 100 jovens tentou furar, à força, um cordão de isolamento da Avenida Champs-Elysées que mantinha os protestos longe de um dos pontos mais importantes da cidade. Imagens de TV mostraram embates, com as forças de segurança disparando gás lacrimogêneo e spray de pimenta contra manifestantes vestidos de rosa, a cor dos que se opõe ao casamento gay na França — em contraste com o amplo uso da mesma cor como símbolo do movimento homossexual mundo afora. Muitos entoavam cânticos contra o presidente.
— Uma família é um pai e uma mãe! — gritavam ativistas conservadores, aposentados, padres e até crianças.
Outros, insatisfeitos com o governo socialista, deram um tom político à manifestação. Líderes do conservador UMP e da Frente Nacional, de extrema-direita, também estiveram presentes.
— Hollande, renuncie! — gritava a multidão, antes de entoar o hino francês, “A Marselhesa”.
Entretanto, mais e mais manifestantes se envolveram na confusão, que chegou a fechar um cruzamento junto ao Palácio do Eliseu. Ninguém ficou ferido, mas a líder do Partido Democrata-Cristão, Christine Boutin, recebeu atendimento médico devido à inalação de gás lacrimogêneo. Segundo a polícia, duas pessoas acabaram presas.
Telões foram instalados do Arco da Defesa até o Arco do Triunfo. Faixas foram penduradas em varandas onde se podia ler: “Não toquem em minha filiação”, “Queremos emprego, não casamento gay” ou ainda “Não ao gay-extremismo”.
Pesquisas mostram pequena maioria a favor
No mês passado, mesmo após gigantescas manifestações de rua contra, a Assembleia Nacional francesa aprovou, por 329 votos a 229, o projeto de lei “Matrimônio para Todos”, que legaliza o casamento entre pessoas do mesmo sexo e permite, ainda, que casais gays adotem crianças.
As pesquisas mostram que 51% dos franceses são favoráveis à medida. Os opositores à nova lei, porém, são irredutíveis. Segundo eles, o projeto “perturba totalmente a sociedade, negando o parentesco e a filiação natural”, algo que teria “consequências econômicas, sociais e éticas incalculáveis”. Eles defendem que o texto seja submetido a um referendo nacional.
— Viemos defender o fato de que a família composta por um pai e uma mãe é o melhor para as crianças. Não desistiremos — disse uma manifestante identificada como Marie, de 30 anos.
Uma das principais organizadoras da marcha, a ativista que adota o codinome Frigide Barjot, mandou um recado ao presidente:
— Queremos que o presidente cuide da economia e deixe a família em paz.
Mas, o projeto de lei seguirá agora para o Senado — também controlado por Hollande e seus aliados. Muitos manifestantes prometem acampar diante da Casa em protesto.
Na contramão dos parisienses, os nova-iorquinos saíram às ruas em defesa da união entre pessoas do mesmo sexo — batalha que vem se tornando a maior arena dos direitos civis neste início de século em vários países. A passeata partiu do Stonewall Inn, o bar onde em 1969 começou a revolta pelos direitos da comunidade homossexual nos Estados Unidos, e terminou com um ato na Washington Square, no Greenwich Village.
A manifestação visava a uma pressão de última hora sobre magistrados e sociedade diante de um debate marcado para amanhã e quarta-feira na Suprema Corte dos EUA, que examinará dois recursos envolvendo a legalização do casamento gay. O próprio presidente Barack Obama já se posicionou a favor da medida.
— Vejo luz no fim do túnel — comemorou Cathy Marino-Thomas, presidente da associação Marriage Equality.
Nos EUA, apenas nove dos 50 estados, além da capital, Washington, legalizaram o casamento gay: Maryland, Washington, Maine, Nova York, Connecticut, Iowa, Massachusetts, New Hampshire e Vermont. A Suprema Corte vai analisar dois recursos: um envolvendo a lei que proíbe o casamento gay na Califórnia, e o outro sobre a questão dos direitos federais dos homossexuais já casados legalmente.
— Não sei o que vai fazer a Suprema Corte, mas sei que a opinião pública está do nosso lado e que, no fim das contas, venceremos porque a justiça sempre vence — declarou Gilbert Baker, criador em 1978 da bandeira do arco-íris, hoje mundialmente reconhecida como símbolo da comunidade homossexual.
Governo pode agir contra lei da Califórnia
No cerne da polêmica federal, está a definição de casamento, descrito pela Lei de Defesa do Matrimônio como “a união entre um homem e uma mulher” — a que Obama já se declarou contrário várias vezes em público.
Agora, o governo também considera intervir no caso sobre o casamento homossexual na Califórnia. Naquele estado, a chamada Proposição 8 declara ilegais as uniões gays, tendo sido aprovada em um referendo em 2008, pouco após o Estado legalizar essas uniões. Em 2010, porém, um tribunal de apelações declarou inconstitucional a emenda, e seus defensores, então, decidiram levar o caso à Suprema Corte.
A batalha na Califórnia é comandada pelo casal Kris Perry e Sandy Stier. Juntas há 13 anos, as duas vivem na cidade de Berkeley e têm quatro filhos — os caçulas são gêmeos de 18 anos. As duas irão ao tribunal acompanhar a audiência e esperam poder, finalmente, se casar. Mas, tentando controlar as expectativas, elas disseram à agência Associated Press que, independente da decisão, uma grande mudança está a caminho: os caçulas estão prestes a entrar na faculdade, o que lhes dará mais tempo livre para ir ao cinema ou ao teatro.
— É um pouco assustador que nove juízes tenham nosso destino nas mãos — disse Anne Kirchoffer, que pretende acompanhar as audiências ao lado da esposa.
