terça-feira, março 26, 2013

Grãos – infraestrutura proíbe que se aumente a produção


Paulo Costa
Exame.com

O desequilíbrio existente entre a incrível capacidade de aumento de produção e produtividade dos pesquisadores, agricultores, pecuaristas e agroindustriais brasileiros e a possibilidade do País de fazer escoar tal produção é incalculável. Nada surpreendente – aqui mesmo em BioAgroEnergia nosso leitor pode voltar várias páginas e vai ler que era possível antecipar de há muito o tamanho do problema que estamos enfrentando (e vejam bem que a safra de cana-de-açúcar mal começou a ser cortada).

Na última leitura tínhamos em Paranaguá, segundo o site de controle da Administração dos Portos de Paranaguá e Antonina (Appa), 16 navios atracados, mais de 100 ao largo e outros 22  aguardados para as próximas 48 horas. A grande maioria para carregar soja e milho, particularmente a oleaginosa.

Alguém faz ideia do que são cem navios graneleiros em espera? Vamos colocar uma média (baixa) de 35 mil toneladas de capacidade por navio – estamos falando de 3 milhões e meio de toneladas de grãos. Sabem quantas carretas (tudo bem, uma parte deste produto segue por ferrovia) seriam necessárias para transportar este volume? Para facilitar a conta vou usar 35 toneladas por carreta (média alta – estamos mais para 30…): cem mil caminhões, ou melhor, cem mil viagens. E a frota, escassa, tem que ir ao porto e voltar ao interior para dar conta do recado – só que ela vai e fica na fila… Enquanto isto os armazéns abarrotam. É preciso dizer mais alguma coisa?

Diz-se que o grupo chinês Sunrise cancelará a compra de quase 2 milhões de toneladas de soja do Brasil devido aos atrasos nos embarques provocados pelo congestionamento nos portos. Duvido que seja tudo isto - a China está com estoques baixos de soja e os EUA não tem volume excedente para exportar. A safra argentina só começa a ser colhida e está bastante compromissada. Acontece que os preços vem caindo sistematicamente com a certeza de uma grande safra no Brasil. Com isto, quem comprou a preços altos fica  com as cartas na mão para renegociar contratos. E isto não é ilegal ou amoral – se o exportador não consegue embarcar no prazo contratual tem que pagar uma penalidade, que não é pequena e – passado o período de extensão – pode ter o contrato cancelado, renegociado ou ainda pagar por danos! Entre outras coisas tem o custo do navio parado, em espera – uma cadeia de problemas.

Vamos parar por aqui. Não vamos falar do caos que também enfrentamos no complexo portuário de Santos (muito bem, agravado pelas chuvas que atrasam os embarques) nem nas condições de transporte, seja no interior deste nosso Brasil seja em Cubatão (mais fácil para nós aqui em São Paulo enxergarmos isto), onde 20 quilômetros até Conceiçãozinha são percorridos em 12 horas.

Por isto nosso título assustador. De que adianta bater recordes de produção e produtividade, se todo o potencial de ganhos vai embora em função de nossa pobre infraestrutura e logística? Alguém me responda, por favor!