Roberta Scrivano
O Globo
Polícia tenta ordenar filas de 25 km na estrada para Santos
Michel Filho
Fila quilométrica na rodovia Cônego Domênico Rangoni,
que liga São Paulo ao porto de Santos
SÃO PAULO - O nó logístico que está provocando filas quilométricas de caminhões que se dirigem aos portos para escoar, principalmente, a supersafra de soja do país, deve chegar a seu auge na semana que vem, durante o feriado da Semana Santa. E a caótica fila de caminhões que se formou desde terça-feira em direção ao principal porto do país, o de Santos, deve atrapalhar ainda mais o trânsito, já normalmente confuso durante os feriados prolongados. Para minimizar os problemas, a Polícia Militar Rodoviária tenta organizar os caminhoneiros.
A via mais impactada é a Cônego Domênico Rangoni, que dá acesso ao porto de Santos via Guarujá, no litoral paulista. Ontem, pelo quarto dia, a concessionária que administra a rodovia registrou filas de 25 km de caminhões. Para tentar amenizar a situação, a Polícia Militar Rodoviária pede que os caminhões graneleiros fiquem no acostamento, e os de contêineres, na pista da direita. A medida também visa auxiliar o fluxo dos automóveis no feriado da Páscoa, já que existe o receio de que o congestionamento alcance nessa data seu ponto crítico.
Se os órgãos de fiscalização que atuam nos portos brasileiros, como Receita, Anvisa e Docas, funcionassem 24 horas ao dia, o tempo para o desembaraço burocrático de carga dos navios cairia dos atuais 5,5 dias para 2,7 dias — abaixo da média mundial, de três dias. O avanço seria suficiente para que o Brasil ganhasse um fluxo extra equivalente ao movimento do porto de Paranaguá, no Paraná, segundo maior do país, atrás de Santos. O cálculo foi feito pela pela Federação das Indústrias do Rio de Janeiro (Firjan), que defende a ampliação do expediente administrativo dos portos. A proposta ganha força com o nó logístico.
O estudo da Firjan tem como base o Índice de Performance Logística do Banco Mundial. Neste índice, que avalia o tempo para desembaraço dos embarques e desembarques, o Brasil aparece na 106º posição entre 118 países. Se os anuentes dos portos trabalhassem o dia todo, e não das 9h às 17h, o país subiria 38 posições. Venezuela, Nigéria e Etiópia estão piores que o Brasil na listagem. Já Argentina, Peru, Uruguai, Bolívia, além dos emergentes China, Rússia e Índia, estão mais bem colocados.
Expediente muito curto
Riley Rodrigues de Oliveira, especialista em competitividade e investimento industrial da Firjan, explica que o expediente mais curto das áreas administrativas também é razão para a fila de caminhões, além de gerar um custo extra a todas as fatias da cadeia industrial. Ele esclarece que se algum navio chegar após às 17h no porto, não é possível dar início à liberação das mercadorias, o que encarece o processo e, consequentemente, o produto final. Nos portos de Paranaguá (PR) e Suape (PE), além do expediente curto, o atendimento também para no horário do almoço — e por duas horas.
— Isso é impacto direto à nossa competitividade. Nenhuma grande economia tem expediente tão curto nos portos. A infraestrutura brasileira não caminhou e não recebeu os investimentos que tinha de receber. Agora, estamos vendo os efeitos disso com esse congestionamento de caminhões nas rodovias que levam aos portos — acrescentou.
O entrave nos portos levou a chinesa Sunrise a cancelar um contrato de compra de dois milhões de toneladas de soja, de mais de US$ 1 bilhão segundo a cotação atual do produto. A empresa estuda agora comprar o produto na Argentina.
O transporte marítimo é a principal via do comércio internacional brasileiro e respondeu por 90% do volume (9 bilhões de toneladas) transportado para fora do país em 2012 e 50% do valor (US$ 9,1 trilhões) das transações, segundo dados da Organização Mundial do Comércio. Ano passado, passaram pelos portos 652 milhões de toneladas de produtos — 95% do volume produzido no Brasil.
