Ricardo Setti
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Chamamento do ministro da Defesa para eleger o vice Nicolás Maduro mostra que o futuro presidente será tutelado pelos militares
(Foto: AFP / Presidência da Venezuela)
Maduro (de camisa branca), à sombra de Chávez, tutelado pelos militares
Alguém pode imaginar em qualquer país civilizado do planeta um ministro da Defesa dizer, na TV oficial, em rede nacional — algo que, por sinal, não existe em nenhum país avançado — que as Forças Armadas devem estar “unidas” para “levar” alguém a ser eleito presidente da República”?
O que fez ontem o ministro da Defesa da Venezuela, Diego Molero — exatamente isso –, é algo espantoso, inqualificável.
Ele falou em nome de Forças Armadas chavistas, e não das Forças Armadas como instituição que, segundo a própria Constituição “bolivariana” concebida pelo falecido caudilho Hugo Chávez, é uma instituição NACIONAL permanente. Não pertence, ou não poderia em hipótese alguma pertencer, a corrente política alguma.
Ocorre que Chávez, em seus 14 anos de poder, cobrindo de benesses oficiais leais ao “bolivarianismo” e colocando na geladeira os militares mais profissionais, minou as Forças Armadas, infiltrando nelas o vírus da ambição política e a lealdade total e incondicional ao “chefe” — mais do que à instituição ou à Constituição. Um absurdo.
O resultado disso, somado à grande influência que os militares adquiriram durante o reinado de Chávez no governo e nas empresas estatais, e mais ao espantoso pronunciamento do ministro da Defesa será que, eleito o vice Nicolás Maduro para o lugar de Chávez — Maduro é um vice biônico, que não recebeu um único voto e a quem o caudilho nomeou para o posto –, a Venezuela terá um presidente tutelado pelos militares.
A fala do almirante Diego Molero, assim sendo, foi a ante-sala de um golpe militar branco.
Vai depender da habilidade de Maduro, nunca posta à prova, evitar que a Venezuela se torne uma ditadura militar disfarçada.
