Editorial
O Globo
Se houvesse latino-americano no comitê que decidiu decretar um feriado bancário na ilha, para taxar os depositantes, o grupo ouviria conselhos sensatos
A desastrada operação engendrada por autoridades europeias, o Fundo Monetário Internacional e o governo de Chipre para financiar parte do resgate do sistema bancário daquele país com a taxação dos depositantes se encaixa à perfeição naquela conhecida imagem de um gorila curioso dentro de uma pequena loja de louças. Danos inevitáveis. Numa visão superficial do problema, a operação se sustentava em lógica sólida. Como a economia cipriota representa apenas 0,2% do PIB da zona do euro, e parte ponderável dos depósitos no paraíso bancário de Nicósia supõe-se ser de dinheiro sujo de oligarcas russos e outros esquemas mafiosos, Bruxelas, o Banco Central Europeu e o FMI, a “troika”, consideraram baixo o risco da manobra para a ainda nada estável situação econômico-financeira europeia.
Na ponta do lápis, €10 bilhões da “troika” seriam somados a €5,8 bilhões provenientes da taxação de todos os depositantes. O desenho da operação recebeu os últimos retoques no sábado, com os bancos fechados. Os depósitos abaixo de €100 mil seriam taxados em 6,75%, e os acima, 9,9%. Não seria, portanto, respeitado o limite de garantia de depósitos usual na Europa de €100 mil. O fim de semana passou com enormes filas nos caixas automáticos, esvaziados com rapidez. Manifestantes tomaram as ruas, numa repetição de cenas gregas, e o feriado bancário decretado na segunda teve de ser estendido. Ontem, foi ampliado até o próximo fim de semana.
Como previsível, nada deu certo. Sob pressão popular, o Congresso cipriota rejeitou o pacote, sem um voto a favor — apenas alguns se abstiveram. Mesmo que, numa vã tentativa de atenuar o confisco parcial, o presidente Nicos Anastasiades tenha tornado isentos depósitos de até €20 mil.
Também como esperado, foi criado um clima de insegurança em todo o continente. Espanhóis, italianos, portugueses, europeus residentes em países de finanças desequilibradas passaram a admitir a possibilidade de o mesmo vir a ser feito com seu dinheiro. Armou-se o gatilho do indestrutível mecanismo das corridas bancárias. Quando disparado, não há volta.
Negociações continuam entre o governo cipriota, a cúpula da UE e o Kremlin. Os russos, como se vê, muito ligados à ilha, já haviam feito um empréstimo bilionário a Chipre. Estão sendo convidados a participar do resgate. Chegue ou não o socorro a tempo, a UE terá de reconstruir a confiança perdida pelas pessoas na defesa de seus depósitos.
Os latino-americanos sabem do risco de confiscos e similares. No Brasil, só depois da estabilização da economia e o processo de saneamento bancário, foi possível reconstruir a confiança no sistema destroçada no Plano Collor. E na Argentina, a dolarização continua, porque a desconfiança virou regra. Chegou a vez de a Europa, mais uma vez, lidar com um tipo de problema que já foi típico apenas de país pouco desenvolvido.