Editorial
O Globo
Provas de uso de gás sarin contra rebeldes exigem providências imediatas da comunidade internacional, e EUA insistem na via diplomática
O louvável empenho dos EUA em organizar uma conferência internacional que permita pôr fim à guerra na Síria parece levar a Casa Branca a fazer vista grossa ao uso de armas químicas pelas forças do ditador Bashar Assad, a linha vermelha que Washington havia traçado como limite a partir do qual uma ação militar seria justificada.
Para a França, não há dúvida. O chanceler Laurent Fabius disse estar certo de que o gás sarin — potente agente nervoso de uso proibido — terminou sendo empregado várias vezes na Síria. As amostras foram obtidas por repórteres do jornal “Le Monde” diretamente de médicos sírios que tratam de combatentes rebeldes.
Investigadores da ONU, liderados pelo brasileiro Paulo Sérgio Pinheiro, divulgaram relatório citando “indícios razoáveis” do uso de armas químicas na guerra civil síria. Mas os EUA insistem que são necessárias novas evidências para convencê-los de que a substância, classificada pela ONU como arma de destruição em massa, foi utilizada pelas forças de Assad.
O conflito dura mais de dois anos com violência extrema: já matou cerca de 80 mil pessoas (milhares delas civis) e provocou o êxodo de 1,6 milhão, segundo as Nações Unidas. Violações dos direitos humanos e crimes contra a Humanidade são cometidos tanto pelas forças do governo quanto pelos diferentes grupos que o combatem. Os inspetores da ONU citaram ainda o uso, pelas tropas oficiais, de bombas termobáricas — que propagam calor tão extremo que suga o oxigênio do pulmão das pessoas. Por outro lado, citaram indícios de que os rebeldes recrutam crianças como combatentes e que pelo menos 86 delas teriam morrido na guerra.
O governo sírio, que parecia até recentemente em derrocada, ganhou novo fôlego com a chegada dos combatentes do Hezbollah, organização libanesa xiita satélite do Irã. Com este reforço, as tropas de Assad reconquistaram a cidade de Qusayr, estratégica na ligação da capital com a importante cidade de Homs, porta de entrada para a região habitada majoritariamente por alauitas, a seita próxima ao xiismo e da qual faz parte a elite dominante síria. A chegada do Hezbollah xiita inflamou o caráter sectário dos combates, pois a ampla maioria dos rebeldes é sunita, como a maioria da população síria. Outra consequência foi aumentar o risco de internacionalização da luta: o Hezbollah é libanês, está na linha de frente contra Israel e recebe apoio financeiro e militar do Irã.
O conflito sírio é hoje a maior dor de cabeça da comunidade internacional. Depois de reunião ontem, em Genebra, com representantes dos EUA e da Rússia — o mais poderoso e reticente aliado de Assad —, o enviado especial da ONU, Lakhdar Brahimi, disse que ainda há muito a fazer para que a conferência de paz possa se realizar em julho. Até lá, é preciso encontrar uma fórmula para conter a matança.