sexta-feira, julho 05, 2013

AQUI A MENTIRA: Trem-bala terá custo inferior ao de 2 aeroportos, diz EPL.

Amanda Previdelli
Exame.com

Presidente da Empresa de Planejamento e Logística (EPL) defende que projeto será “sustentável a longo prazo”; MP estima que custo total do trem-bala será de R$ 30 bi

Jason Lee/Reuters 
Passageira em frente ao trem-bala chinês: 
modal é conhecido por ser mais seguro e ecologicamente
 correto que outros meios de transporte de massa

São Paulo – De acordo com Bernardo Figueiredo, presidente da Empresa de Planejamento e Logística (EPL), implantação do trem-bala entre Campinas, São Paulo e Rio de Janeiro pode ser realizado com “praticamente zero recursos públicos”.

No entanto, em apresentação no Senado realizada ontem, Figueiredo afirmou que do total de R$ 8.395 milhões que serão investidos no projeto, R$ 1.758 milhão virá de fontes públicas. Além disso, dentre os recursos privados nesta primeira fase, R$ 5.370 milhões serão financiados pelo BNDES.

Na segunda etapa, com a construção de obras civis de engenharia, além de vias permanentes e edificações, está previsto um investimento público de R$ 27.050 milhões, de acordo com a EPL. A terceira etapa consiste na “construção da infraestrutura ferroviária, das demais instalações e edificações do sistema” e ainda não tem estudos detalhados de custos.

Estima-se que o custo total do projeto seja de R$ 30 bilhões. Mesmo com esses gastos, Figueiredo reiterou que o projeto é “sustentável a longo prazo”.

Para a empresa, o custo de construção do sistema de trem de alta velocidade é equivalente ao de ampliação de uma rodovia como a via Dutra e de dois aeroportos. Figueiredo ainda aponta que seriam necessárias essas obras para atender ao fluxo de passageiros entre São Paulo e Rio previsto até 2044.

O TAV seria, então, uma alternativa de transporte em massa “mais seguro e mais limpo”, com uma emissão de 15 gramas de carbono por passageiro por quilômetro, contra os 180 emitidos por um carro de passeio.

O trem-bala, porém, é uma obra polêmica. Seu edital de licitação já foi questionado pelo Ministério Público no início do ano. Segundo o MP, os gastos do governo seriam muito maiores do que a estimativa da EPL, que é uma empresa estatal. De acordo com o ministério, já que as obras em si seriam realizadas pelo Estado, o governo teria de arcar com todos os custos não planejados e inesperados.

***** COMENTANDO A NOTÍCIA:
Sinceramente, custa a crer que este cidadão esteja à frente da tal EPL – Empresa de Planejamento e Logística que, dentre outras tarefas (?), terá a incumbência de tocar o projeto do trem-bala, obsessão das obsessões de Dilma Rousseff, depois de sua reeleição, claro.

Primeiro, acaso o senhor Bernardo já tem um projeto detalhado com o respectivo orçamento analítico do Trem Bala? Não valem meras projeções, falo de números que possam ser medidos, aferidos, confrontados com os preços praticados no mercado. Creio que não, assim qualquer informações sobre valores é mera chutometria.

Segundo, quantos foram os leilões marcados e cancelados por falta interessados em razão do projeto até agora não ter comprovada sua viabilidade econômica?

Terceiro, mesmo que baseado apenas em projeções, o senhor Bernardo pode nos informar qual o total do investimento que será necessário?

Quarto, quantas já foram as concessões e facilidades que o Poder já teve que arcar sobre o edital de  licitação original para atrair, até aqui sem sucesso, investidores que desejam bancar o projeto, inclusive elevando a taxa de retorno, verdadeiro absurdo verde-amarelo? 

Ora, afirmar com tamanha cara de pau que o trem bala terá custo inferior a dois aeroportos é gozar com a inteligência do contribuinte. Ou demonstra uma profunda ignorância sobre o custo de implantação um aeroporto de padrão razoável, ou sequer sabe que o trem bala não ficará por menos de R$ 45 bi.  

Outra afirmação imbecil é a de não haverá recursos públicos na jogada. Ora, isto é o que mais vai ter. Entre o que BNDES capta no mercado e o que ele cobra dos tomadores de financiamento há uma diferença que precisa ser coberta. E esta conta é paga pelo conjunto da sociedade.

O Tesouro Nacional, senhor Bernardo, não fabrica dinheiro. Ele vai ao mercado, oferece títulos da dívida pública, que remuneram condições acima do que os beneficiados pelos financiamentos do BNDES pagam. 
Portanto, o presidente da EPL deveria ter um pouco mais cuidado e até de informação antes de sair por aí proferindo disparates.  

Mas o dinheiro público não vai ficar apenas no investimento. Também, já se sabe, que o governo federal irá subsidiar (e muito!!!) o preço da tarifa. 

Outro destes absurdos, por exemplo, é fixar em R$ 30 bi o total que será preciso investir para por um vagão para rodar. Quando este valor foi divulgado lá atrás, engenheiros e orçamentistas se debruçaram sobre os cálculos descobriram uma coisa sensacional: como o trem bala não se move ao sabor dos ventos, precisa de eletricidade, no cálculo não se previa as linhas de transmissão elétrica que seria preciso construir  ao longo do traçado, investimento este indispensável. Além disto, também ficou de fora do cálculo pelo menos 40% das necessidades de desapropriações. Engenheiros e técnicos estimam que esta brincadeira não ficará por menos de R$ 50 bilhões, podendo chegar a R$ 60 bilhões. 

Portanto, o presidente da EPL não pode vir a público para, em nome de uma obsessão, de um projeto que até hoje não se comprovou viável, para, através de mentiras e informações incompletas, tentar vender ao mercado como verdade algo que o próprio mercado até hoje não engoliu.     

Que Bernardo Figueiredo queiram manter o emprego que lhe foi concedido por Dilma Rousseff, através de puxação de saco, até é possível entender, porém não venha tomar o conjunto dos brasileiros por idiotas e desmiolados. É do nosso bolso, sim, que sairá a fortuna para a realização desta megalomania, sendo assim temos o direito à informação correta e não meias-verdades. 

Há inúmeros estudos que demonstram que, com muito menos, é possível obter maiores benefícios ao tráfego.  Contudo, desde o início não interessou ao governo sequer avaliar estas outras alternativas com menor impacto nas contas públicas. O que até hoje nunca ficou  esclarecido é a razão de tamanha teimosia em erguer este verdadeiro monumento ao desperdício, além, é claro, de não se saber, efetivamente, quanta bala será comida do tesouro nacional para bancar  esta megalomania. 

Exemplo de que “orçamentos originais” são pura peça de ficção quanto envolvem obras públicas no Brasil, temos aos montes. Nenhuma das recentes obras obedeceu prazos e orçamentos. TODAS, sem exceção, dobraram ou triplicaram de valor e seus prazos foram alongados a perder de vista. Dois extremos: temos o casos dos estádios da Copa e, de outro lado, a Transnordestina, Comperj, Ferrovia Norte-Sul, Transposição do São Francisco, etc.  Apenas neste quesitos , prazo e preço,  dizer que o trem bala custará R$ 30 bi já seria uma insanidade completa, quanto mais afirmar, de forma tão irresponsável, que o valor final será menor do que o da implantação de dois aeroportos.

No próximo post, reproduzimos uma entrevista, concedida pelo professor de engenharia de transportes da Coppe/UFRJ, Hostilio Ratton  à Exame.com, esclarecendo e trazendo à público uma série de detalhes e informações cuja leitura é obrigatória para se entender os vazios e muitas dúvidas que pairam sobre esta fantasia.