quarta-feira, julho 24, 2013

Corrupção não é o pior mal do nosso país

Luiz de Campos Salles(*)
Brickmann & Associados Comunicação

No caso da Educação, precisamos de uns 15 anos após a reforma da primeira série escolar para formar a primeira turma que terá recebido um ensino de padrão internacional. Quinze anos, porque não adiantaria começar pelas últimas séries, visto que os alunos que lá chegarem estarão despreparados para...

Não é que não deva ser combatida a corrupção. É importante fazê-lo, sem dúvida. Mas convenha-se que é uma ação de defesa. Precisamos mais de ações de ataque. Ações ativas que nos tirem da pasmaceira social e econômica em que estamos boiando inertes. Apegar-se a temas como o da corrupção é um vicio como o de assistir todas as noites ao noticiário policial das TVs, com sempre os mesmos assuntos: crimes, assaltos, roubos, etc. Afinal, nesse assunto, somos todos muito bem informados. Falar de corrupção, incluindo-se nela o uso de aviões da FAB, nomeação de parentes e cupinchas e um monte de outros abusos do que é o bem comum de todos os brasileiros é um assunto que vicia e, principalmente, distrai a população como o noticiário policial cotidiano. Assim não se fala sobre o que precisa ser discutido e feito e sobre como fazê-lo.

O corte de 14 ministérios é manchete. Não se discutem os absurdos que os levaram a ser criados, e assim talvez diminuindo as chances de que se repita a façanha. Apesar de não ter pedido permissão à jornalista Eliane Cantanhede, da Folha, copio em seguida parte de seu artigo de 18 de julho. Referindo-se a um dos temas da atualidade, 

"....parece briga de marido e mulher, mas é disputa entre Poderes e entre partidos aliados, com troca de provocações cada vez mais escancaradas." 

"Convenhamos: nem Dilma está tão desesperada pelo plebiscito nem o nosso PMDB cansado de guerra (e cheio de cargos) parece tão preocupado com a moralidade pública e o corte dos ministérios. Ambos apenas dizem o que a população quer ouvir e se esforçam em jogar a culpa um no outro por não dar certo."

Enquanto isso, promovemos uma Copa. Caríssima, ainda que o Tesouro (ou outros agentes do governo) só a tenham financiado. Prazo? Juros? Mas tem mais. Para citar só dois, teremos a Olimpíada e o "trem bala". No caso deste, até hoje ninguém demonstrou para o que ele é necessário e, principalmente, se não existem alternativas mais baratas. Pior ainda, será que não existem problemas mais prioritários como o transporte de cargas por trem ou a construção e ampliação de portos ? Ou terminar a construção de usinas geradoras de eletricidade?

Enquanto isso as duas principais carências do País, Saúde e Educação, são abordadas como uma rua esburacada para a qual se necessita de um recapeamento!

No caso da Educação, precisamos de uns 15 anos após a reforma da primeira série escolar para formar a primeira turma que terá recebido um ensino de padrão internacional. Quinze anos, porque não adiantaria começar pelas últimas séries, visto que os alunos que lá chegarem estarão despreparados para as novas exigências do ensino reformulado. Imagine-se a magnitude do problema. E quem já ouviu ou leu algo, abordado de frente, sobre o problema?

Na Saúde o problema não é nada menor. Só que nem as perguntas iniciais e básicas são feitas. Muito menos respondidas. Quanto custaria aumentar os valores pagos pelo SUS para os médicos e pelos procedimentos para algo compatível com a realidade? E alguém sabe ou está estudando como criar um sistema de atendimento razoável em regiões distantes e de pouca densidade populacional? Alguém já procurou modelos bem sucedidos em outros países para não ficarmos a reinventar a roda, só que quadrada?

Sabemos quanto custaria reformar hospitais públicos que precisem de reforma ou equipamentos? E quanto custaria construir, e equipar, e pagar médicos e os auxiliares necessários? Esquecendo da equipe o hospital não funciona. Parece óbvio mas já acontece no Brasil.

Presumo que o montante para tudo isso seja astronômico, mas não conhecê-lo não ajuda em nada. Porém, se estes números fossem conhecidos, poderíamos fazer um plano plurianual (este para valer) de dispêndios para que ao cabo de "n" anos os problemas estejam resolvidos.

Como estas realidades dos problemas e o custo para resolvê-las não são apurados, sabem quando podemos esperar que as coisas comecem efetivamente a mudar para melhor? 

A quem cabe tomar estas providências? Aos nossos governantes, isto é, aos políticos. E isso conduz a um círculo vicioso. Muito infelizmente, a maioria da nossa população não teve e continua não tendo um nível de educação mínimo que a leve a se interessar por outros assuntos que não os ligados à sua sobrevivência. Isso, claro, porque a nossa Educação pública é um desastre.

Tudo leva a crer que continuaremos a eleger os políticos que querem o poder pelo poder em vez de o poder para exercê-lo em prol da nação. Que lástima.

(*) Luiz de Campos Salles-É engenheiro eletrônico pela Politécnica, MS pela Syracuse University. Por dez anos foi presidente da Itaú Seguros e suas coligadas. Saiu do Itaú pelo limite de idade e hoje é consultor em estratégia de negócios.