quarta-feira, julho 24, 2013

Discurso errado na hora errada

Eliane Cantanhêde
Folha de São Paulo

BRASÍLIA - O encontro com o papa Francisco no Rio foi a grande chance de Dilma Rousseff aparecer bem desde que a economia derrubou 8 pontos de sua popularidade e as manifestações lhe roubaram outros 27. No mínimo, ela ganhou uma excelente foto, num dia em que as pessoas foram às ruas felizes por receber o papa --e não só para reclamar.

Nesse momento de profunda descrença nos partidos e muita crença na chegada de um papa que simboliza ruptura e humildade, o contraste só pode ter sido proposital: com o mesmo voluntarismo de sempre, Dilma não foi à reunião do diretório do PT por um motivo pueril, numa clara provocação, e foi ao papa com um discurso político e fora de lugar.

Digamos que Francisco foi Francisco, Dilma foi Dilma. Um foi o papa despretensioso, que dispensa ouro, capas de veludo e pompas para se colocar cada vez mais próximo do povo. A outra foi a presidente de expressão arrogante, num momento em que está acuada, precisa se justificar e luta bravamente para recuperar a popularidade perdida.

Enquanto a fala do papa foi essencialmente religiosa e despojada, num português agradável e cheia de adjetivos gentis para o Brasil e para os jovens, Dilma recorreu a todos os chavões lulistas, enalteceu as mudanças "que inauguramos dez anos atrás" e amplificou a versão de Lula no "New York Times", definindo as manifestações que atingiram em cheio seus índices nas pesquisas não como a derrota que foi, mas como uma vitória sua e de Lula.

No discurso da presidente, pulularam autoelogios ao Brasil e à era petista, além de chavões de palanque: direitos, justiça social, solidariedade, fome, desigualdade, ética, transparência. Eis a dúvida: para quem Dilma estava falando? Para o papa ou para o eleitor?

Para o milhão e meio da Jornada Mundial da Juventude ou para o milhão e meio de pessoas nas ruas exigindo dignidade, fim da corrupção, serviços decentes?

Valeu pela foto, não pela fala.

***** COMENTANDO A NOTÍCIA:
Ficou visível a intenção premeditada de Dilma de praticar, como definiu Merval Pereeira, um proselitismo religioso. Valeu-se da proximidade do papa para tentar angariar simpatias junto ao eleitorado, católico principalmente. 

Não sei quem redigiu aquele discurso inoportuno. Ou imaginava que Dilma estaria indo para uma reunião partidária, ou não tem a menor noção do momento e da instituição que Dilma estaria representando. 

Foi patético. E pior: que Dilma minta para o eleitorado, estamos cansados de ouvir. Que minta para os militantes petistas, isto até faz parte da falta de caráter desta gente. Mas que minta para o Papa? Convenhamos, é muita falta de sensibilidade, de habilidade e de respeito.

O Brasil não é o Brasil por obra e conta do governo petista. Pelo contrário. Poderíamos ser mais e melhor não fossem os boicotes dos governos petistas enquanto oposição, através dos tempos. Se temos uma economia forte, moderna, estável, com políticas sociais bem definidas isto se deve ao governo que o PT combateu e boicotou, inclusive criticando e condenando abertamente, tanto a política econômica que Lula seguiu e Dilma agora tenta destruir, quanto as políticas sociais, com metas definidas e portas de saída bem estabelecidas e que Lula acabou por enterrar. 

Dilma deveria respeitar não apenas o momento e a figura religiosa que a suportou neste discurso melancólico.  Mas, sobretudo, respeitar a  história e a inteligência dos brasileiros que sabem bem o que PT fez no passado!