Editorial
O Globo
A presidente pode ser punida, nas eleições de hoje, pela forma agressiva de fazer política e por erros na condução de uma economia sem crédito externo e com inflação alta
O casal Néstor e Cristina Fernandez Kirchner tinha um plano de perpetuação no poder. Ele tem início em 2003, quando Néstor, nos escombros do país destroçado na saída sem controle do regime de câmbio fixo, em dezembro de 2001,ocupa a Casa Rosada sem enfrentar Carlos Menem em segundo turno, devido à desistência do ex-presidente.
Enfrentou grave crise, em que a taxa de desemprego ultrapassou os 20%. O país foi obrigado a dar calote na dívida externa — um dos maiores da história — e surgiu enorme capacidade ociosa devido ao mergulho do PIB em cava recessão. Néstor aplicou um receituário heterodoxo — juros baixos, câmbio desvalorizado — e, com uma boa safra agrícola, a Argentina voltou a crescer a taxas elevadas. E ainda reforçou a popularidade ao punir militares por crimes cometidos na ditadura contra os direitos humanos.
Cristina, sua mulher, o sucedeu na presidência em 2007, enquanto o marido, com o controle político do partido peronista (Justicialista) e do Congresso se tornava uma eminência nada parda em Olivos, residência oficial do presidente argentino.
O plano seguia sem percalços, para que Cristina se reelegesse em 2011, como aconteceria, e Néstor voltasse ao comando formal do governo em 2015. A morte do ex-presidente, ainda em 2010, forçou o kirchnerismo a lutar por alteração constitucional para permitir Cristina tentar o terceiro mandato consecutivo e, pelo menos em parte, executar o projeto continuísta do grupo político.
Para isso, é crucial ganhar, com boa margem, as eleições parlamentares de hoje. O que não deverá acontecer, a julgar pelo resultado das primárias realizadas em agosto, quando o kirchnerismo, congregado na Frente para Vitória, perdeu em 15 das 24 províncias e obteve apenas 26% dos votos. E ainda emergiu do pleito um nome forte para enfrentar Cristina, Sérgio Massa, o dissidente ex-chefe de gabinete da presidente, prefeito de Tigre, município próximo a Buenos Aires, e ainda o deputado mais votado da província onde estão 38% dos eleitores do país.
Há, então, grande possibilidade de, hoje, Cristina Fernandez não apenas assistir ao naufrágio do projeto do terceiro mandato consecutivo — por não conquistar maioria no Congresso para alterar casuisticamente a Constituição — como também testemunhar o surgimento do favorito às eleições presidenciais de 2015. E pior, um dissidente do seu grupo. Cristina pode colher nas urnas o troco por um estilo de fazer política autoritário, agressivo e de confronto constante, em que o adversário é o inimigo a ser abatido — inclusive a imprensa independente. Esta é uma das características negativas da política argentina, mas o kirchnerismo a radicalizou. E toda esta carga negativa é potencializada por uma economia ressacada pelo uso radical da heterodoxia, pária no mercado financeiro globalizado e com uma inflação efetiva de mais de 20%, embora os índices oficiais manipulados tenham estacionado em 10,5%.
