Editorial
O Globo
Ainda em maio, em uma das periódicas prestações de contas do presidente do banco central americano, Fed, ao Senado, Ben Bernanke admitiu que estava próximo o momento em que a instituição começaria a atenuar a política de “relaxamento monetário”, pela qual mensalmente são injetados US$ 85 bilhões na economia, por meio da recompra de títulos do Tesouro e hipotecas.
Dado o sinal de que os juros, praticamente zerados nos Estados Unidos, voltariam a subir, houve uma rápida mudança nos fluxos globais de divisas, e muito dinheiro voltou ao mercado americano. Em decorrência, o dólar se valorizou, no Brasil e em todo o lugar. Mais em países com os “fundamentos” menos preparados para resistir a choques externos — contas fiscais, inflação, crescimento. O Brasil entre eles.
O Fed, em setembro, deixou claro o adiamento do recuo na política expansionista. Veio a suspensão de várias atividades na máquina burocrática americana, por falta de dinheiro no orçamento, devido à briga entre democratas e republicanos, além da chegada à beira do precipício do teto de endividamento do Tesouro.
Mas quando se esperava que todo aquele imbróglio havia reduzido em alguma medida o ímpeto da recuperação americana, aconteceu o oposto: a economia cresceu 2,8% no terceiro trimestre, acima das expectativas (deve ter se expandido mais que o Brasil). E ontem, para confirmar a tendência, informou-se que em outubro foram criados mais 200 mil empregos, acima da mais otimista das estimativas.
Volta-se, ainda com mais força, a se admitir o início do fim da política de estímulo à economia. E o real novamente se desvaloriza (o dólar encerrou a semana em R$ 2,318). Entenda-se: mais pressão sobre a já elevada inflação brasileira.
O problema é mais amplo, como apontou o ex-ministro Delfim Netto, em entrevista ao “Valor Econômico”, ele, aliado de primeira hora dos governos do PT, desde a posse de Lula em 2003. Alerta Delfim que a coincidência da retirada do pé no acelerador da economia dos EUA com o previsto rebaixamento da nota de risco de crédito do Brasil provocará uma “tempestade perfeita”.
Afinal, se acavalarão duas pressões pela fuga de divisas do país, e numa conjuntura em que a credibilidade na política econômica brasileira como um todo, a fiscal em particular, está em queda vertiginosa.
Na entrevista, Delfim Netto lembrou 1979, 1983, 1998 e 2002, quando houve outras “tempestades perfeitas”, com enorme stress no câmbio: dólar nas alturas, necessidade de elevação rápida nos juros, e, por decorrência, recessão.
Os sinais fortes de recuperação americana pressionam o governo Dilma a reagir de forma rápida às desconfianças em relação ao seu governo. Na imprensa americana já se especula sobre a possibilidade de o Fed anunciar o freio na política expansionista na sua reunião do mês que vem. O tempo, para o Planalto, ganhou velocidade.