Cesar Baima
O Globo.
Atlas da miscigenação global mostra como eventos históricos moldaram o perfil genético de populações ao redor do mundo
Reprodução
Ilustração mostra o exército de Gengis Kahn atacando uma fortaleza:
expansão do Império Mongol introduziu o DNA mongolês em populações
espalhadas por milhares de quilômetros entre o Nordeste da Ásia até a Turquia
RIO - Ao longo dos últimos 4 mil anos, impérios surgiram e caíram, com guerras e invasões provocando migrações em massa, enquanto rotas de comércio transportavam ouro, seda, especiarias e escravos. Tudo isso envolveu a movimentação de milhões de pessoas, em processos que moldaram o perfil genético de populações ao redor do planeta. Até recentemente, tais efeitos não podiam ser detectados, cenário que mudou com o avanço das tecnologias de pesquisa do DNA. E foi unindo o poder do genoma com novas abordagens estatísticas que uma equipe internacional de cientistas produziu o primeiro atlas da miscigenação global. Com base apenas em dados genéticos, os pesquisadores foram capazes não só de relacionar o DNA de diversos grupos humanos atuais a eventos históricos conhecidos — como as conquistas de Alexandre, o Grande; a expansão do Império Mongol; o tráfico de escravos pelos árabes e a colonização das Américas, entre outros — como revelar a possível existência de outros ainda desconhecidos pelos historiadores.
— A genética pode ser uma ferramenta poderosa para contar histórias do nosso passado, além de revelar eventos que de outra forma não teríamos como descobrir que aconteceram — diz Simon Myers, pesquisador da Universidade de Oxford, Reino Unido, e líder do estudo, publicado na edição desta semana da revista “Science”. — Como nossa abordagem usa só dados genéticos, ela fornece informações independentes de outras fontes. Assim, embora muitas das miscigenações observadas estejam relacionadas a eventos históricos, também vemos evidências de outros não registrados.
Uma ‘paleta de cores’ para os genes
Para montar o atlas — que tem versão interativa disponível na internet —, Myers e os colegas Garrett Hellenthal, do University College London, e Daniel Falush, do Instituto Max Planck de Antropologia Evolucionária, na Alemanha, analisaram os genomas de 1490 indivíduos de 95 diferentes populações atuais espalhadas pela Europa, Ásia, África e Américas. Eles então identificaram e selecionaram quase 500 mil mutações conhecidas como polimorfismos de nucleotídeo únicos (SNPs, na sigla em inglês) com os quais puderam traçar não só a herança genética de cada um destes indivíduos como estimar a época em que as mutações foram introduzidas em seu grupo populacional a partir do tamanho destes pedaços de DNA presentes nas pessoas atuais.
— Cada população tem uma “paleta” genética particular — explica Falush. — Assim, se você fosse “pintar” o genoma dos maias atuais, por exemplo, teria que usar uma paleta com as “cores” do DNA de espanhóis, africanos ocidentais e americanos nativos. E esta mistura data de cerca de 1670 d.C., o que é condizente com os relatos históricos que descrevem os espanhóis e os africanos chegando às Américas. E embora não possamos analisar diretamente amostras de DNA dos grupos que se miscigenaram no passado, podemos observar que muito do DNA destes grupos originais persistiu dentro da misturada paleta das populações modernas.
Filhos do exército de Alexandre
O evento histórico mais antigo que deixou marcas genéticas em uma população identificado pela pesquisa foi a campanha militar de Alexandre, o Grande, que invadiu a Índia em 326 a.C.. Nos Kalash, um povo que vive no atual Paquistão, os cientistas encontraram traços de DNA europeu e outras fontes do Oeste da Ásia que teriam sido introduzidos nesta população entre 990 a.C. e 210 a.C.. A época coincide com a passagem de Alexandre pela região, de cujo exército tanto os Kalash quanto outros povos locais afirmam descender, alegação que a pesquisa genética agora reforça.
Já um dos processos de miscigenação mais abrangentes detectados pelo estudo foi o provocado pela expansão do Império Mongol liderada por Gengis Khan a partir do século XIII e até o XIV. Segundo os pesquisadores, traços genéticos dos mongóis podem ser encontrados em populações que vão da Ásia Central até a Turquia, cobrindo milhares de quilômetros. Outra transferência de DNA ao longo de grandes distâncias foi observada nas etnias chinesas Tu e Han, que apresentam evidências de genes europeus e do Oriente Médio, provavelmente levados por mercadores que percorriam a Rota da Seda entre 1080 e 1330 d.C..
— Uma coisa que descobrimos e não achávamos que íamos encontrar é que a miscigenação é muito comum em populações por todo o planeta — conta Myers. — A Humanidade foi enriquecida com toda esta mistura que aconteceu no passado e que continua a acontecer.
Segundo Myers, devido a limitações no número de amostras e da própria abordagem desenvolvida pelo seu grupo, o estudo não conseguiu identificar eventos determinados de miscigenação, principalmente entre populações já muito misturadas, como a brasileira, ou com perfil genético muito parecido, como as do Noroeste da Europa, além de “viajar” mais para o passado. Os cientistas esperam superar estes problemas com análises que envolvam genomas completos, e não apenas os SNPs, e o sequenciamento do DNA de restos mortais de indivíduos representantes dos grupos contribuintes originais.
