Ronaldo D’ercole
O Globo
Preço à vista está no teto, e indústrias não conseguem renovar contratos
SÃO PAULO - A disparada dos preços da energia por causa da escassez de chuvas está travando os negócios no chamado mercado livre, no qual grandes consumidores sem contratos firmes de fornecimento, ou com contratos vencendo, compram energia. Com o preço do MWh na casa de R$ 822 no mercado livre, o teto estabelecido pelo governo, muitas empresas que trabalhavam sem contratos, ou com apenas parte do consumo com fornecimento garantido, estão sendo obrigadas a reduzir sua produção, integral ou parcialmente.
— O mercado livre hoje é um mercado completamente estressado, porque se está vendendo água gelada no deserto — compara Carlos Cavalcanti, diretor de Infraestrutura da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp).
Reflexo do pacote do governo
A questão é que as empresas que compraram energia há um, dois anos, pagam hoje cerca de R$ 120 por MWh. Assim, quem tem contratos de fornecimento vencendo e vai ao mercado, encontra a seguinte situação: ou paga os R$ 822 por MWh em contratos de curtíssimo prazo, ou tenta negociar acordos por prazos mais longos, de dois a três anos, com um preço médio menor.
— Se uma empresa tiver contrato vencendo agora em junho, não tem oferta porque o mercado vive um momento de estresse total. As comercializadoras dizem que não há oferta — diz o empresário Ivan Bezerra, presidente da Fiação TBM, do Ceará. — Empresas descontratadas se tornaram inviáveis. No caso da fiação, se você tiver que comprar 15% da energia no mercado livre ao preço atual, o custo da energia dobra. No Nordeste, quem está descontratado está parado parcial ou totalmente.
Segundo um executivo do mercado livre, realmente não existe ofertas para quem quer comprar energia por um ano, pois quem tem energia disponível está preferindo vendê-la à vista, pelo preço teto.
A empresa que concorda em comprar energia para este ano e o próximo consegue preços na casa de R$ 220 a R$ 250 o MWh, dizem empresários, o que representa alta de 80% a 100% sobre os preços que vinham pagando.
— O ano que vem vai ser muito ruim, porque vai ter muita térmica gerando e isso eleva os preços. Um contrato de R$ 220, R$ 250 o MWh para 2015 me parece até barato. Isso é triste para a economia brasileira, mas é um fato — diz um executivo do setor, que não quer ser identificado.
Segundo ele, o setor elétrico vive um “momento muito delicado”, e o risco de um racionamento é “muito elevado”.
Os problemas enfrentados pelo setor elétrico começaram a se desenhar já no ano passado, antes da seca que marcou o período das chuvas do verão. A recusa de grandes geradoras, como Cesp (a estatal paulista), Cemig (de Minas) e Copel (do Paraná) de aderir ao programa de renovação antecipada de concessões proposto pelo governo, por meio da MP 579, para reduzir as tarifas, tirou do mercado cativo (que atende a residências e pequenas empresas) cerca de 5.000 MWh. Como o governo só conseguiu vender 1.500 MWh para as distribuidoras em leilão no final do ano passado, estas empresas tiveram que comprar energia no mercado livre, pressionando os preços.
— O governo falhou nos últimos leilões de contratação das distribuidoras e a pressão nos preços no mercado livre vem do mercado cativo — diz o executivo do setor.
Temor de novos repasses
A falta de chuvas, portanto, só fez agravar uma situação que já se desenhava difícil.
— É um quadro bem complicado, que afeta custos e produção — diz Fernando Pimentel, diretor executivo da Associação Brasileira da Indústria Têxtil (Abit). — Esta situação já está afetando a indústria, mas o impacto ainda não apareceu nos dados de produção.
O desarranjo no mercado é tamanho que indústrias intensivas em energia com contratos de fornecimento garantidos estão economizando, ou mesmo reduzindo a jornada de trabalho, para ganhar dinheiro no mercado livre.
— Tem muita indústria que está economizando energia, restringindo a produção, para vender no mercado livre com uma margem muito maior que a do próprio negócio — confirma Cavalcante, completando: — Esta situação certamente terá impacto no PIB industrial.
Além de incertezas sobre o tempo necessário para a recuperação dos reservatórios, outra dúvida tira o sono dos empresários.
— Como o governo vai dividir a conta de R$ 8 bilhões para bancar as perdas das distribuidoras? — indaga Lucien Belomonte, superintendente da Associação Brasileira da Indústria de Vidros (Abividro).