Lino Rodrigues e Roberta Scrivano
O Globo
Certame supriu 60% do que as distribuidoras precisavam
Resultado fica acima do esperado por governo e analistas, que esperavam 50% e 30%, respectivamente
Michel Filho / O Globo
Tela exibe resultados do leilão, que aconteceu na manhã desta quarta-feira,
no hotel Golden Tulip, São Paulo
SÃO PAULO - O leilão A-0, realizado na manhã desta quarta-feira pela Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) e que durou 18 minutos, vendeu 100% dos 2.046 megawatts médios ofertados. O montante é equivalente a 60% do total de 3,2 mil megawatts que as distribuidoras necessitavam para garantir o fornecimento de energia mais barata ao país nos próximos cinco anos. O resultado foi visto com bons olhos pelo governo, que considerava um bom resultado se fosse oferecido 50% dos 3,3 mil MW.
Especialistas no setor acreditavam que a exigência de que a energia já estivesse disponível para a distribuidora em 1º de maio, ou seja, amanhã, restringisse a oferta a cerca de 1.000 MW, equivalente a pouco mais de 30% da necessidade das distribuidoras.
A Petrobras entrou com 28,1% do ofertado: quatro térmicas movidas a gás natural da estatal ofertaram e venderam energia. No total, a estatal comercializou 574 megawatts-médios a R$ 262 cada MW. As térmicas são Barbosa Lima Sobrinho (RJ), Euzébio Rocha (SP), Governador Leonel Brizola (RJ) e Luís Carlos Prestes (RS).
Os vendedores de hidroeletricidade foram Eletronorte, Furnas, Quanta Geração, Tractebel, Votener, BTG Pactual, EDP e Itiquira. Além destas, uma térmica movida a biomassa da São Borja também vendeu eletricidade no certame. O restante será todo oriundo de hidrelétricas.
— Estamos bastante satisfeitos com o resultado do leilão — afirmou Luiz Eduardo Barata, presidente da Câmara de Comercialização de Energia Elétrica (CCEE), que foi endossado por Marcio Zimmermann, secretário do Ministério de Minas e Energia.
Mauricio Tolmasquim, presidente da Empresa de Pesquisa Energética (EPE), também se mostrou surpreso com o tamanho da oferta.
— Houve uma adesão muito mais forte de vendedores do que se esperava, inclusive com a participação relativamente importante de agentes privados também. Outro ponto de sucesso é essa surpresa agora de que talvez a exposição das distribuidoras seja menor que a esperada (de 3,2 mil MW). Agora estamos na dúvida se o leilão mitiga fortemente ou elimina o problema da exposição das distribuidoras — disse, se referindo a relatório divulgado hoje pela associação das distribuidoras (Abrade) revendo para baixo os 3,2 mil MW.
O preço médio do MW comercializado no A-0 foi de R$ 268, pequeno deságio contra o preço teto que era de R$ 271 para a eletricidade gerada a partir de térmicas e R$ 262 para a das hidrelétricas. No total, considerando o período de fornecimento dessa energia pelos próximos cinco anos, o valor transacionado no leilão chegou a R$ 27,3 bilhões.
Os representantes do governo, mais uma vez, não souberam projetar qual será o impacto desse leilão na conta de luz do brasileiro, embora Zimmermann tivesse garantido, na semana passada, que essa informação seria divulgada no dia do leilão A-0.
— É muito prematuro falar em impacto tarifário para o ano que vem. Não dá para fazer essa projeção — afirmou Romeu Rufino, diretor da Aneel.
De acordo com especialistas, as distribuidoras hoje precisam comprar no mercado livre, que negocia vendas à vista, cerca de 3.200 megawatts (MW/médios) para entregar ao consumidor. Neste segmento, o preço do MW já chegou ao teto de R$ 822. Os analistas explicam que trata-se de uma solução apenas provisória. Se a energia fica mais barata agora, subirá depois. Ou seja, o leilão de energia pode trazer um alívio para as empresas agora, mas vai significar preços mais altos até 2019, alertam especialistas.
Em dois anos, afirmam, o preço da energia no mercado livre deve voltar ao patamar normal, ou seja, algo em torno de R$ 130 a R$ 140 o MW. Assim, a energia vendida no leilão por um preço em torno de R$ 270 será bem mais cara do que o usual.
O leilão extra desta quarta-feira foi estabelecido pelo governo para atrair as empresas geradoras a ofertarem energia no mercado. Sem a rentabilidade garantida por cinco anos, provavelmente essas empresas não abririam mão de vender energia a curto prazo, no mercado livre, a R$ 822.
****** COMENTANDO A NOTÍCIA:
Comentário da Sonia Racy, no Estadão:
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ESCURIDÃO
A Petrobrás foi responsável pela venda de nada menos que… 98% do volume total de energia térmica comprada ontem no leilão promovido pelo governo federal.
Considerado um sucesso, o negócio fará a estatal perder R$ 230 milhões por mês ou cerca de R$ 2,8 bilhões ao ano – segundo soma feita pelo respeitado consultor Adriano Pires.
Escuridão 2
A matemática é simples. A estatal estava vendendo a mesma energia no mercado livre por R$ 822 cada MWh. Agora, pós-leilão, vai entregá-la por meros R$ 272.
Levando em consideração que a Petrobrás vendeu 574 MW, chega-se ao número de Pires. O consultor lembra ainda: as térmicas usam gás importado mais caro que o da Bolívia. “O break even, hoje, dessa operação está em R$ 400.”
Escuridão 3
Consequência da negociação? A Petrobrás, para não perder dinheiro, deve tentar trocar gás importado por nacional – este consumido pelas distribuidoras responsáveis pelo abastecimento de… indústrias e residências.
Vale registrar que esse leilão não foi feito para gerar energia nova e, sim, para resolver problemas fiscais do Tesouro e da CCEE. “Ao corrigir um erro, o governo Dilma comete outro”, sentencia Pires.
