sexta-feira, maio 09, 2014

VERGONHOSO: Brasil ocupa antepenúltima posição em ranking internacional de educação

Marina Azaredo
O Estado de São Paulo

O Brasil aparece na 38.ª posição entre 40 países analisados no The Learning Curve (Curva do Aprendizado, em inglês), realizado pela The Economist Intelligence Unit (EIU) e Pearson Internacional. Em relação ao estudo anterior, de 2012, o País subiu uma colocação, apesar de ter piorado seu desempenho no índice.

O levantamento da EIU e da Person considera diferentes avaliações, relacionando-as com a produtividade do país. O índice leva em conta habilidades cognitivas e de desempenho escolar a partir do cruzamento de indicadores da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE): Programa Internacional de Avaliação dos Alunos (Pisa), Tendências Internacionais nos Estudos de Matemática e Ciência (Timms) e avaliações do Progresso no Estudo Internacional de Alfabetização e Leitura (Pirls). Também são usados dados educacionais de alfabetização e taxas de aprovação.

No estudo deste ano, o Brasil passou o México no ranking, porque aquele país teve um recuo ainda maior no índice. O último lugar continua ocupado pela Indonésia. As primeiras posições trazem novidades, com nações asiáticas, como Coreia do Sul e Japão, tomando o lugar da Finlândia, que havia muitos anos figurava na liderança da maioria das avaliações.

“O sucesso desses países destaca a importância de ter objetivos claros para o sistema educacional e uma forte cultura de responsabilidade na prestação de contas”, afirma o relatório.

Qualidade. Para Michael Barber, chefe de Educação da Pearson, os governos de todo o mundo estão sob pressão para melhorar a aprendizagem. “Isso é cada vez mais importante para o sucesso das pessoas”, disse.

O relatório ressalta a ligação estatística entre o tempo médio gasto na escola por um estudante de um país e a produtividade dos trabalhadores. Aponta ainda que é imprescindível a qualidade da formação básica, mas a retenção de habilidades depende da continuidade da aprendizagem ao longo da vida adulta.

A professora Maria Helena Guimarães de Castro, presidente da Fundação Seade, afirma que o Brasil tem resultados muito positivos na inclusão dos últimos 25 anos, mas que o desafio agora é a qualidade. “O essencial está no ensino fundamental, com professores estimulados e bem formados”, diz ela, que foi consultora do relatório. “A produtividade do Brasil é muito baixa e precisamos avançar. Mas é claro que esse não é o único sentido da educação.”

Para o presidente da Pearson no Brasil, Giovanni Giovannelli, o diagnóstico também pode ajudar os gestores por mostrar as práticas que funcionam no mundo. “Tem quase 200 países nas Nações Unidas e só esses 40 têm essa medição. Só isso é em si um fato positivo para o Brasil”, diz ele.

POSIÇÃO 2014
PAÍSES
Z-SCORE
POSIÇÃO 2012
MUDANÇA NO SCORE 2014 / 2012
1
COREIA
1.30
1
0.07
2
JAPÃO
1.03
2
0.14
3
CINGAPURA
0.99
2
0.15
4
HONG KONG
0.96
-1
0.05
5
FINLÂNDIA
0.92
-4
-0.34
6
REINO UNIDO
0.67
0
0.07
7
CANADÁ
0.60
3
0.05
8
HOLANDA
0.58
-1
-0.01
9
IRLANDA
0.51
2
-0.02
10
POLÔNIA
0.50
4
0.08
11
DINAMARCA
0.46
1
-0.04
12
ALEMANHA
0.41
3
0.00
13
RÚSSIA
0.40
7
0.14
14
ESTADOS UNIDOS
0.39
3
0.04
15
AUSTRÁLIA
0.38
-2
-0.08
16
NOVA ZELÂNDIA
0.35
-8
-0.22
17
ISRAEL
0.30
12
0.45
18
BÉLGICA
0.28
-2
-0.07
19
REPÚBLICA TCHECA
0.27
3
0.07
20
SUÍÇA
0.25
-11
-0.30
21
NORUEGA
0.21
5
0.10
22
HUNGRIA
0.17
-4
-0.16
23
FRANÇA
0.17
2
0.04
24
SUÉCIA
0.17
-3
-0.06
25
ITÁLIA
0.11
-1
-0.03
26
ÁUSTRIA
0.10
-3
-0.05
27
ESLOVÁQUIA
0.09
-8
-0.23
28
PORTUGAL
0.04
-1
0.03
29
ESPANHA
-0.08
-1
0.01
30
BULGÁRIA
-0.26
0
-0.03
31
ROMÊNIA
-0.44
1
0.16
32
CHILE
-0.79
1
-0.13
33
GRÉCIA
-0.86
-2
-0.55
34
TURQUIA
-0.94
0
0.30
35
TAILÂNDIA
-1.16
2
0.30
36
COLÔMBIA
-1.25
0
0.21
37
ARGENTINA
-1.49
-2
-0.09
38
BRASIL
-1.73
1
-0.08
39
MÉXICO
-1.76
-1
-0.16
40
INDONÉSIA
-1.84
0
0.19

Nota: As pontuações do Índice são representadas pelo Z-Score (pontuação Z), que indica quantas divergências de padrão uma observação está acima ou abaixo da média. O processo de normalizar todos os valores no Índice com o Z-Score permite uma comparação direta dos desempenhos dos países em todos os indicadores. Note que os Z-Scores listados são específicos à sua respectiva versão no Índice e seus países. Ao fazer comparações de países individuais nas versões do Índice, é importante focar na colocação do país no ranking e não na pontuação do Z-Score. 
FONTE: : The Economist Intelligence Unit

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Análise: Países que tratam educação como assunto estratégico colhem desenvolvimento econômico


Por Ilona Becskeházy, consultora em educação

O projeto “A Curva de Aprendizado”, que apresenta agora seu segundo relatório, organiza dados complexos, obtidos de fontes diversas, de forma a potencializar seu uso informativo, além de permitir a comparação entre cenários e resultados educacionais de cerca de um quarto dos países do mundo. Entre eles, o Brasil. As conclusões que o projeto vem apresentando, assim como as informações que o compõem, não são desconhecidas por quem se interessa pelas políticas educacionais, mas têm permanecido ao largo dos desenhos das intervenções propostas para o setor em nosso País.

O relatório tem o diferencial de analisar a educação levando em conta o contexto socioeconômico de cada país, que guarda relações tanto de causa como de efeito de sistemas educacionais competentes ou incompetentes. Os que trataram o tema da educação como assunto estratégico e implementaram, por décadas, reformas estruturantes, além de fazer investimentos em recursos humanos e materiais para garantir patamares altos de exigência a todos os seus alunos, colhem as recompensas de maior desenvolvimento econômico e bem estar individual. Os que não fizeram, simplesmente não colheram. Entre eles, o Brasil.

O responsável pela elaboração do relatório menciona o interesse de Ministros da Educação em saber como melhorar seus sistemas educativos. Entre eles, não está o Brasil. Por aqui, desdenhamos o que se aprendeu nos processos de estruturação educacional em países que hoje são industrializados porque nosso desenvolvimento prescindiu da educação. A nação se satisfez com o consumo baseado na exploração de riquezas naturais e não cobrou a distribuição do conhecimento. Escolhemos parâmetros medíocres e soluções paliativas para que ninguém se sinta incomodado.

Perspectivas de mudança? Basta ler o que vai proposto no Plano Nacional de Educação que será votado em breve, para se perceber que mantemos a prática de deixar como está para ver como fica.